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quinta-feira, 22 de março de 2007

A ressurreição do catolicismo - Revista IstoÉ

A ressurreição do catolicismo
O trabalho diplomático do clero
brasileiro e a dedicação de fiéis
influentes trazem o papa ao Brasil,
abrem caminho para a escolha do
primeiro santo nascido no País e
reacendem o fervor do maior rebanho
católico do mundo
Por CAMILO VANNUCHI E
LENA CASTELLÓN

A Igreja Católica brasileira está no centro de um movimento consistente e acelerado de retomada da sua força. O ponto alto da reação, que começa a devolver o entusiasmo a seus seguidores, é a visita do papa ao País, entre os dias 9 e 13 de maio, a primeira de Bento XVI a um país não europeu desde que ele assumiu o trono de São Pedro. A euforia do rebanho monumental, o maior da religião no mundo, estimado em 125 milhões de pessoas, é amplificada pelo anúncio da canonização de Frei Galvão como o primeiro santo brasileiro. Esses eventos fazem parte de uma cruzada evangelizadora feita com esforço e investimento de fiéis influentes, discussão teológica e, acima de tudo, trabalho diplomático nas altas instâncias de poder da Igreja, aqui e no Vaticano. Uma resposta à aparente incapacidade de modernização que, nos últimos anos, aumentou de
forma preocupante a debandada de ovelhas. Em dez anos, seis milhões delas se desgarraram. E, basicamente, procuraram abrigo nos cultos fervorosos das igrejas evangélicas, que viram sua fatia de adeptos saltar de 6% para 10,6% da população do País entre 1991 e 2000. No mesmo período, os católicos encolheram quase dez pontos percentuais, de 83,3% para 73,8%. Quando a crise parecia inevitável, uma reação conduzida com brilhantismo pelo clero brasileiro permitiu a recuperação, culminando na festa que promete tomar conta do País neste semestre. Abalados com sucessivas denúncias de padres pedófilos e críticas ferrenhas aos dogmas ultrapassados da Igreja, os seguidores desfrutam das boas novas com o alívio de quem pode, enfim, recuperar o orgulho de ser católico.

A virada começou quando a cúpula de cardeais admitiu que a perda de carisma e da capacidade de seduzir novas mentes e corações estavam verdadeiramente comprometendo a imagem da instituição. E em função da importância do Brasil no universo católico, isso poderia trazer prejuízos estratégicos para o Vaticano em todo o mundo. Esse movimento de recuperação foi facilitado pelo fato de o alto clero brasileiro ter um espaço cada vez maior em Roma. Desde dezembro do ano passado, a prefeitura da Congregação para o Clero é ocupada pelo arcebispo emérito de São Paulo Dom Cláudio Hummes. Para se ter idéia, depois do papa, o cargo do brasileiro disputa a posição de segundo em importância no Vaticano com o de chefe da Congregação para a doutrina da Fé – que, por sinal, foi de Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, durante o papado de João Paulo II.

Dom Cláudio foi o principal responsável pela vinda do papa ao Brasil. Oficialmente, a viagem tem como pretexto a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, que reunirá 270 bispos no Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo, a partir do domingo 13 de maio. É tradição o papa abrir os trabalhos da conferência, um hábito criado em 1968. O brasileiro convenceu Bento XVI a realizá-la no Brasil. E Ratzinger escolheu Aparecida. Dom Cláudio também pediu ao papa que incluísse na agenda uma passagem pela capital paulista, e foi prontamente tendido.

DEVOÇÃO Renata e Cida pagam promessa (à esq.). A família da menina Monique enfrentou longa fila pelas pílulas do Frei Galvão e os Romeiros da Paz vão percorrer 1,5 mil km para ver o papa

O sucesso diplomático de Dom Cláudio pode ser medido pela avaliação do padre Geraldo Hackmann, único brasileiro na Comissão Teológica do Vaticano, sobre a importância estratégica da Conferência Geral. “Esse encontro vai determinar os rumos da Igreja no continente americano”, resume ele. “Realizá-lo aqui é um inequívoco sinal de prestígio para o clero brasileiro”, completa. O teólogo Antônio Miguel Kater Jr., coordenador do Instituto Brasileiro de Marketing Católico, criado para municiar a Igreja com instrumentos de comunicação, chama a atenção para outros benefícios. “A visita de Bento XVI provocará um fluxo maior às igrejas. Isso certamente será usado em favor do catolicismo nos próximos anos”, aposta.
Concluído esse xadrez diplomático para trazer o papa e a conferência – muito bem jogado pelos principais representantes brasileiros –, chegou a hora de os fiéis mostrarem que estão dispostos a fazer da visita do Sumo Pontífice um marco da ressurreição católica. Pelo menos dois milhões de pessoas são aguardadas nas duas missas que serão celebradas por ele. Em Aparecida, oito hotéis foram inaugurados desde o ano passado para receber a multidão de devotos. A cidade, de 35 mil habitantes, passará a contar com 30 mil leitos. Duas dezenas de pedreiros trabalham a toque de caixa, no Santuário Nacional, para erguer o palco destinado a Bento XVI. A tarefa emociona o mestre-de-obras Lázaro Ribeiro da Costa, 65 anos. Em 1980, ele recebeu a comunhão das mãos de João Paulo II naquele mesmo local. “Foi o momento mais maravilhoso da minha vida”, conta.

Mineiro de Itajubá, rezador de terço desde os três anos, Seu Lázaro sonha receber novamente o corpo de Cristo das mãos de um papa. “Nós, brasileiros, nos sentiremos muito valorizados e estimulados”, faz coro Renata do Rosário Souza, 27 anos, devota de Nossa Senhora Aparecida. “Todo filho é muito estimulado pelo pai. E o papa é o Pai na terra”, emenda a amiga Cida Sousa, 24 anos. As duas visitaram o santuário na semana passada para pagar promessas. E querem voltar para ver a supermissa. Quem também está entusiasmado com a chegada do papa são os sete integrantes do grupo Romeiros da Paz, que sairão de Brasília a cavalo na próxima semana. Durante 50 dias, o grupo irá percorrer 1,5 mil quilômetros por estradas de Goiás, Minas Gerais e São Paulo até chegar a Aparecida. “Nossa intenção é aproveitar a visita de Bento XVI para lançar uma mensagem em repúdio à violência. E vamos recolher bilhetes com pedidos e agradecimentos por onde passarmos para depositar no Santuário”, conta o líder dos tropeiros, Marco Aurélio Chrispim, 45 anos.
Outra prova de eficiência e de mobilização nesta nova fase foi demonstrada no processo que culminou com a canonização de Frei Galvão. Ele exigiu uma elaborada articulação para que o Vaticano aceitasse a santificação. A batalha, desde o seu início, consumiu muitos anos de trabalho, mas a vitória só veio quando se encomendou a tarefa a uma pessoa que adquiriu em Roma um valoroso know-how no tema. Trata-se de irmã Célia Cadorin, uma catarinense que se inspirou no fato de o Brasil não ter até então um único santo nativo para ser postuladora. Esse é o nome atribuído ao religioso que advoga em favor do candidato à canonização, montando e apresentando dossiês ao Vaticano.

SONHO O mestre-de-obras Costa quer receber comunhão de Bento XVI

Irmã Célia aprendeu os atalhos do ofício na Itália quando assumiu a defesa de Madre Paulina. Venceu a causa da santa em 2002 e foi responsável por abrir os caminhos para Frei Galvão no ano passado, voltando ao Brasil para preparar a canonização. Antes dela, os processos não andavam porque eram conduzidos por padres que também se dedicavam a paróquias e não tinham condições de trabalhar com exclusividade para os candidatos. Hoje, todos os processos de beatificação e canonização no Brasil são conduzidos ou assessorados por ela. “Nós precisávamos disso. O santo é um exemplo que a Igreja propõe para que as pessoas tenham coragem de imitar”, diz a religiosa.

O discurso é compartilhado por mais pessoas. Acredita-se que ter um santo genuinamente brasileiro ajuda a tornar os fiéis mais próximos e a conquistar novos seguidores. Isso sensibiliza a população e estimula os católicos que já se identificavam com o religioso a espalhar seus feitos. “Estamos conseguindo tocar o coração de muita gente e mostrar que todos têm chances de atingir a santidade, sem distinções”, reforça a irmã Cláudia Hodecker, do Mosteiro da Luz, onde está o túmulo do frei, na capital paulista. O filósofo Luiz Felipe Pondé, professor do departamento de Teologia da PUC de São Paulo, vai além. “Sem esse testemunho místico, as pessoas poderiam buscar outras religiões”, diz.

Um detalhe na canonização de Frei Galvão deve ser ressaltado. Não é comum que a cerimônia seja realizada no país de origem do santo. A decisão de Bento XVI pode ser vista, portanto, como mais um sinal de prestígio e indício da disposição do papa em abraçar com carinho especial a Igreja do País. Até o final do ano, outros quatro religiosos brasileiros se tornarão beatos, título dado aos mártires da Igreja e a quem tem comprovado pelo menos um milagre. É o passo imediatamente anterior à condição de santo. Hoje, há mais de 30 beatos no Brasil. Todos, naturalmente, candidatos a santos. Quem tiver mais um milagre reconhecido pelo Vaticano será elevado à santidade.

Frei Galvão transformou- se num importante recurso para atrair fiéis. Desde dezembro, com o anúncio de sua santificação, o interesse por suas famosas pílulas só faz crescer. Os “remedinhos” são, na verdade, pequenos papéis onde está inscrita uma oração em latim. Eles são enrolados de modo tão miúdo que se parecem com grãos de arroz. Quem recorre à pílula precisa rezar, conforme determina a “bula” do frei. No Mosteiro da Luz são fabricados por dia dez mil pacotes, cada um com três pílulas. Em fevereiro, eram cinco mil. Na semana passada, a fila para receber o pequeno canudo incluía a estudante Monique Cristina da Silva, nove anos. Ela estava acompanhada do pai, Nilton César, e da avó, Conceição Auxiliadora da Silva, ambos interessados nos propalados efeitos curativos das peças. “Vi a história do frei pela televisão. Gostei dele e contei para minha professora que viria para cá”, festejou ao receber o seu pacotinho. O pai elogia o interesse da filha. “É disso que os jovens precisam: religião e sorte na vida”, emenda ele.

E os jovens voltaram em busca dessas dádivas. Uma das características dessa retomada é a organização cada vez maior de festas musicais com estética juvenil. É o caso do funk católico comandado pelo DJ carioca Guto que lançou o CD Angel’s night. “As músicas são alegres e pacifistas. As pessoas podem ter uma experiência real com Deus em plena pista de dança”, completa. O principal hit do álbum é o funk Joga a mão, dos MCs Charles e André, da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. “Nosso trabalho é voltado para os jovens que não freqüentam as missas”, revela Charles, que já se apresentou com os amigos em uma festa religiosa com mais de 100 mil pessoas, em 2005.

OS JOVENS ESTÃO DE VOLTA O grupo Electrocristo (à esq.) divulga mensagens católicas em versão tecno. E o DJ Guto compôs funks com dogmas da Igreja

Apresentações desse tipo se multiplicam pelo País. Em 2006 foi criada a primeira rave católica. A segunda está em planejamento. Ao longo do ano, festivais de música atraem verdadeiras multidões. Em um deles, realizado em Brasília, 200 mil rapazes e moças se divertiam ao som de várias bandas, entre elas o grupo tecno Electrocristo. “A Igreja precisa acompanhar a evolução do mundo. Jovem urbano gosta de balada. Por isso, criamos esse entretenimento sadio”, afirma o DJ paulista Léo Guimarães, um dos integrantes.

É verdade que a Igreja precisa se atualizar para manter os fiéis e conquistar novos. Sem isso, o movimento de retomada poderá perder fôlego. “A mensagem de Cristo deve ser transmitida numa linguagem contemporânea. Faço palestras com computador e uso palm top”, revela o padre Jesus Sanches, reitor da PUC-Rio. Mas há quem defenda que a recuperação do catolicismo, para ser efetiva e duradoura, deverá abranger outros fatores além da modernização do discurso. “Será necessário fazer concessões em questões como a reprodução humana e a sexualidade”, alerta o sociólogo Lísias Negrão, professor da USP e especialista em sociologia da religião. O trabalho mais volumoso, como se vê, ainda está por vir.

• O Brasil no vaticano: Dom Cláudio Hummes, que ocupa
o segundo cargo na hierarquia católica, convenceu Bento XVI a vir ao País

• Rigor nos processos: A defesa dos milagres passou a ser feita com mais profissionalismo. Frei Galvão é o primeiro fruto dessa postura

• Em busca do espaço perdido: A onda pode ajudar a Igreja a recuperar os seis milhões de fiéis perdidos na última década. E a crescer ainda mais

Colaboraram: Celina Cortes, Eliane Lobato e Francisco Alves Filho



http://www.terra. com.br/istoe/

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