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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Adolescentes são expulsos de seita polígama nos EUA

Woodrow Johnson tinha 15 anos e, sob as regras da seita polígama em que vivia, sofria de um vício que poderia condená-lo ao inferno: ele gostava de cinema. Quando seus pais descobriram sua reserva secreta de DVDs, entre as quais os filmes da série "Duro de Matar" e comédias, queimaram os discos e deram um ultimato ao menino: ele devia parar de assistir aos filmes ou seria excluído da família e de sua igreja para sempre.

Com a televisão e a Internet também proibidas por serem malignas, uma definição que se aplica igualmente a camisas de mangas curtas, que revelam falta de modéstia, e a olhar para meninas, Woodrow tomou a dolorosa decisão de partir. E assim, 10 meses atrás, tendo apenas concluído a sétima série e levando com ele uma mala de roupas, foi lançado a um mundo desconhecido, que ele havia sido ensinado a temer.
Nos últimos seis anos, centenas de adolescentes foram excluídos ou optaram por deixar a colônia de polígamos que fica entre Colorado City, no Arizona, e Hildale, no Utah. O motivo mencionado com mais freqüência para as expulsões é desobediência, mas antigos membros da seita e funcionários dos serviços de Justiça do Estado dizem que o êxodo de homens, meninas são expulsas mais raramente, também corrige imensos desequilíbrios no mercado matrimonial. Membros da seita acreditam que, para chegar à salvação eterna, os homens devam ter cada qual pelo menos três mulheres.
Funcionários do governo estadual dizem que os esforços para ajudar os meninos expulsos a encontrar abrigo, lares provisórios ou obter outros serviços são muitas vezes frustrados pela desconfiança dos meninos com relação ao governo, e por seu medo de causar problemas aos seus pais. Mas o auxílio aos menores está melhorando.
Em St. George, uma cidade próxima onde muitos deles vão parar, dois grupos privados, com assistência do Estado, abriram a primeira residência e centro para meninos excluídos. Ela oferece aconselhamentos psicológico e orientação sobre coisas que eles jamais aprenderam, por exemplo escrever um cheque ou convidar uma jovem a sair de maneira polida, além de um lar provisório para oito deles, que poderão freqüentar a escola e trabalhar em tempo parcial.
A colônia polígama é em larga medida controlada pela Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e por aliados do profeta que lidera a seita, Warren Jefs, que está na prisão à espera de julgamento por exploração sexual.
Agora com 16 anos, e vivendo com uma tia e tio que estão felizes por acolhê-lo, Johnson é um dos garotos mais afortunados, ainda que raramente veja os pais e se queixe de que sente falta deles. Alguns dos meninos terminam se unindo em grupos para alugar casas nas quais vivem sem a ajuda de adultos, enquanto outros dormem em carros ou terminam presos.
Funcionários do Estado de Utah dizem que eles só descobriram quatro anos atrás que havia centenas de meninos da seita rondando pela região, vivendo por conta própria e muitas vezes enfrentando dificuldades. Embora a maioria saiba trabalhar com as mãos e sejam capazes de ganhar a vida no mercado da construção civil, raros deles têm mais de nove anos de educação.
"O abrigo é um marco, mas é só um começo", disse Paul Murphy, diretor de comunicações e política na secretaria da Justiça estadual do Utah, que trabalhou com agências públicas e privadas a fim de obter ajuda para os meninos. "Nós estamos enfim tentando chegar a eles, mas o progresso é dolorosamente lento".
A colônia é essencialmente uma cidade que cruza a fronteira entre os dois Estados, formada por casas desordenadas, trailers e plantações situados no sopé de colinas vermelhas espetaculares. Quase todos os seis mil moradores seguem as normas da família Jeffs, que eles acreditam falar em nome de Deus; as mulheres usam vestidos que vão até os tornozelos, e as crianças são ensinadas a fugir correndo de forasteiros.
Jeffs, 51 anos, está preso na cadeia de Purgatory, no sul do Utah, e seu julgamento deve começar em 10 de setembro. Ele está sendo acusado de cumplicidade em estupro, por sua interferência para forçar o casamento entre um de seus primos e uma menina de 14 anos. Além disso, deve enfrentar diversas outras acusações de delitos sexuais no Arizona. Mas seus aliados continuam a controlar a Igreja, dizem antigos membros da seita, e os meninos adolescentes continuam a ser excluídos da comunidade, à força ou por opção.
"Em parte, é uma questão de controle", disse Murphy sobre as regras severas. Mas a causa subjacente das expulsões, afirmou, é uma realidade matemática: "Se você quer realizar casamentos plurais, é preciso que o número de homens seja menor", afirmou.
Andrew Chatwin, 39 anos, o tio que acolheu Johnson, deixou a seita 10 anos atrás. Ele explicou de que forma as expulsões usualmente ocorrem. "Os líderes dizem aos pais que precisam impedir que o menino desobedeça à fé e a Warren Jeffs. Por isso, os pais o expulsam, porque de outra maneira o pai poderia perder suas mulheres e o resto de sua família".
A seita, que conta com pequenos grupos de adeptos em outros Estados, não tem conexões com a igreja mórmon mais ampla, sob cujas regras a poligamia é proibida. Em abril, seis adolescentes excluídos da comunidade que haviam aberto um processo contra os líderes da seita aceitaram um acordo extrajudicial sob o qual receberão US$ 250 mil para prover assistência e custear a educação de jovens nessa situação. O dinheiro será arrecadado com a venda de alguns dos muitos imóveis da seita, cujas finanças estão agora sob controle do Estado, já que seus líderes se recusaram a aceitar o processo.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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