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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

"O cristianismo irrita muita gente"

"O cristianismo irrita muita gente"

Para Hans Küng, a religião hoje é novamente um fator de poder. Existe uma grande afluência ao islã e ao budismo, mas não ao cristianismo. Em entrevista à DW-WORLD.DE, o polêmico teólogo suíço aponta os motivos.

DW-WORLD.DE: Temas religiosos novamente despertam um enorme interesse das pessoas, não só na Alemanha. Pode-se falar de um retorno das religiões?

Hans Küng: Retorno das religiões – isso é uma expressão ambivalente. A religião nunca havia sumido. Como a música, a religião é algo que permanece, mesmo que por um certo tempo seja suplantada. É certo que, desde o ressurgimento do islã, desde a fundação da República Islâmica do Irã em 1979, os europeus se conscientizaram de que não determinam o mundo sozinhos. Durante muito tempo, a Europa secularizada não percebeu que é um caso especial e que a religião em outros lugares é um poder.

"Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões! Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões." Essas são duas frases centrais do princípio do etos mundial, elaborado pelo senhor. Na era da globalização, há possibilidades inimagináveis de comunicação via internet. Esse desenvolvimento pode melhorar o diálogo entre as religiões?

Em princípio, eu diria que sim, mesmo que isso implique uma série de problemas. É positivo que hoje possamos estar bem informados sobre outras religiões. Uma outra questão naturalmente é se se pretende estar informado. Há pessoas que não o querem, que já sabem tudo antes, sem que tenham estudado o islã.

Quem não quer saber isso?

Por um lado, são os cristãos fundamentalistas, que seguem literalmente a Bíblia e dizem que não precisam das outras religiões. Mas podem ser também pessoas muito secularizadas, dogmáticos do laicismo. Estes já coram quando simplesmente se fala a palavra religião, e acham que sobre isso não se precisa falar na escola. Eles têm dificuldade com o fato de que a religião novamente representa um fator de poder na história mundial.

De acordo com uma pesquisa representativa, o cristianismo não é mais a religião mais simpática aos alemães e, sim, o budismo. Como o senhor interpreta isso?

O budismo é visto no Ocidente como uma religião livre de dogmas, sem muitas prescrições. Trata-se de uma religião voltada para dentro, que dá importância à meditação, que não tem uma imagem demasiado antropomorfa, concreta, da última realidade. O outro fato é que o cristianismo, com sua concentração de poder, irrita muita gente.

Quando temos um papa que aparece o tempo todo, que, como senhor espiritual do mundo, tem a pretensão de que só quem está com ele é um cristão verdadeiro, que somente sua Igreja Católica Romana é a verdadeira igreja, então isso irrita muitas pessoas. E, mesmo que não protestem publicamente, elas se afastam e dizem que não querem ter nada a ver com isso.

Voltemos ao islã. Na pergunta sobre a "religião mais pacífica", o budismo lidera com 43% contra 41% do cristianismo. O islã fica com apenas 11% nesse ranking. O islã é uma imagem do inimigo no Ocidente?

Sim, o islã representa sem dúvida uma imagem do inimigo no Ocidente, visto que o Ocidente só se concentra em determinados pontos do islã. Isso já vale para a história. Os europeus o vêem sob o ponto de vista do avanço do islã do norte da África até a Espanha entre os séculos 8º e 15 e do domínio otomano nos Bálcãs. Mas não se vê nesse contexto que os cristãos não só realizaram as cruzadas, como também colonizaram todo o mundo islâmico, do Marrocos até as ilhas da Indonésia, no século 19.

Daí surgem tensões, muitas das quais o Ocidente não resolveu até hoje. Isso vale sobretudo para as relações entre os palestinos e Israel. Se tivesse sido feito um acordo de paz após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, nunca teria surgido um Bin Laden, nem teriam ocorrido os ataques ao World Trade Center em 2001.

Em vez disso, propagou-se a sensação de que os ocidentais se fixam inclusive na santa Arábia, se instalam no Afeganistão, avançam em todo lugar, de modo que se formam resistências. Obviamente temos de condenar homens-bomba e atentados. Mas é preciso refletir por que tantos jovens estão tão desesperados a ponto de se colocarem à disposição para tais atentados.

A Igreja Católica poderia contribuir mais para a solução desses conflitos e para o diálogo entre as religiões?

É preciso dizer que João Paulo 2º rejeitou claramente a guerra no Iraque, como também o fizeram o patriarca de Moscou, o arcebisto de Canterbury, o Conselho Mundial das Igrejas e o Conselho das Igrejas Norte-Americanas. Não é mais tão fácil entusiasmar as Igrejas para a guerra como era antigamente. Obviamente poderia ser feito mais, sobretudo em termos de esclarecimento.

Se o papa quis classificar o islã como religião violenta, em seu discurso em Regensburg, então ele mesmo notou que esse é o caminho errado. É preciso pensar nos rastros de sangue que os cristãos deixaram na história. Daí se será modesto e não se dirá, "nós temos a religião do amor e eles uma religião do ódio". Também a maioria dos muçulmanos no Egito, no Marrocos e no Afeganistão ou Paquistão quer paz, como eu e você.

O senhor acredita que o papa vê o discurso que fez em Regensburg como um erro? Não se tem necessariamente a impressão de que ele tenha se distanciado claramente do que disse.

Ele notou sim que foi um erro e teve de engolir muita crítica. Ele corrigiu seu discurso diversas vezes. Naturalmente é muito difícil para os romanos, e também para o bispo de Roma, o papa, admitir um erro. Quando se tem uma ideologia da infalibilidade também se comete erros infalíveis, que naturalmente não se pode corrigir. Mas foi evidente que o papa, em sua viagem à Turquia, fez um grande esforço para apagar a má imagem que obteve com o discurso de Regensburg.

Mesmo que o islã na Europa seja visto com ceticismo, mundialmente ele tem uma grande atratividade para muitas pessoas, principalmente para os jovens. Há 1,3 bilhão de muçulmanos e a tendência é que esse número aumente. De Rabat (capital do Marrocos) a Damasco há grupos políticos islâmicos que se tornam cada vez mais fortes. A que se deve isso? Os motivos são religiosos ou sociais?

Ambos. São grupos religiosos que se empenham pelas pessoas. Muitos muçulmanos nesses países têm a sensação de que as elites governantes têm uma vida própria e pouco se importam com o povo. Os grupos fundamentalistas islâmicos – ou como se queira chamá-los – se esforçam muito para fazer algo pelas pessoas. Eles providenciam escolas e educação, dão roupa e alimentação.

Por que o Hamas venceu as eleições? Porque ele se empenhou pelas pessoas. Uma das maiores tolices da política ocidental – aliás, corroborada pela política alemã – foi não reconhecer essas eleições democráticas. Em vez disso, se adverte: vocês precisam reconhecer Israel! Diga isso a pessoas que há décadas são terrorizadas por uma potência de ocupação. Não é dessa forma que se resolvem problemas. Deve-se reconhecer que há partidos que, sob determinadas circunstâncias, têm o islã como base, mas se empenham pelas pessoas.

Um exemplo melhor é o partido do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, na Turquia. Por que eles venceram? Porque eles se empenharam pelas pessoas. Apesar de todas as fraquezas que eles têm, mostraram que conseguiram avanços enormes para o país e de forma alguma criaram um Estado islâmico como o Irã. Eles querem uma democracia, mas também não querem degradar o islã unicamente à esfera pessoal, como aconteceu sob [Mustafá Kemal] Atatürk, fundador do país.

O senhor certa vez classificou a Turquia como "laboratório da democracia". É possível conciliar fé, religião com democracia?

A religião pode conviver com a democracia. Os principais arquitetos da unificação européia, de Charles de Gaulle e Konrad Adenauer a Robert Schuman e Alcide de Gasperi, eram cristãos praticantes. O fato de o islã no momento ter mais problemas com a democracia do que com o cristianismo, se deve a que, no islã, ao contrário do que ocorreu no cristianismo e no judaísmo, não houve Reforma e Iluminismo – à exceção de alguns círculos. Quem pretende ajudar ali precisa apoiar as forças moderadas e isolar os radicais. A maior tolice é enfrentar essa gente com exércitos. Isso é tão estúpido quanto seria enfrentar a máfia com aviões de combate.

Até que ponto deveria ir então a disposição para negociar com as forças radicais? Seria necessário negociar também com o Talibã e a Al Qaeda?

Com a Al Qaeda você não pode negociar. Isso é uma organização terrorista secreta, que só se pode exaurir. Mas o Ocidente os regou tanto que eles puderam brotar. Os serviços secretos norte-americanos admitiram recentemente, em documentos sigilosos, que a guerra no Iraque ajudou a Al Qaeda. Antes não havia Al Qaeda no Iraque. Com o Talibã, com certeza, se poderia negociar. Eles não são todos loucos. Também lá há extremistas, mas, por outro lado, há entre eles os que advertiram a administração Bush para o 11 de Setembro. Não se levou isso a sério. Houve líderes de clãs no Afeganistão que advertiram contra uma intervenção militar no país.

Para concluir, uma pergunta pessoal: no dia 12 de setembro, o senhor apresenta a sua autobiografia Umstrittene Wahrheit (Verdade Controversa). Fazendo um balanço do seu trabalho sobre etos mundial, o senhor ainda o vê com tanto otimismo como em 1990, quando escreveu o livro sobre o assunto?

Quando escrevi o livro em 1990 tinha-se naturalmente a esperança de que futuramente não se resolveriam problemas com meios militares, agressões, inimizades e guerra e, sim, através da compreensão mútua, da cooperação e da integração – como havia ocorrido no Leste e no oeste da Europa. Isso lamentavelmente foi transtornado pela política desvairada iniciada pela segunda administração Bush, com a ajuda de uma clique de intelectuais judeus ultraconservadores, os assim chamados neocons, e fundamentalistas protestantes.

Não sou inimigo e, sim, um amigo dos americanos. Espero que, apesar desse retrocesso resultante da política de Bush Jr., na América se lembre da grande tradição democrática do país e se tente ser potência líder no sentido da compreensão, da moderação e da paz mundial.

Doeu-lhe o fato de o papa Bento 16 não ter aceito sua idéia do etos mundial?

Em princípio, ele aceitou a idéia. Ele também entende que é preciso haver padrões éticos comuns. Ele admitiu na conversa comigo que estes padrões devem valer na mesma medida tanto para crentes quanto para não-crentes. Era de se esperar que ele pessoalmente encampasse de forma clara essa idéia. Mas, o que ainda não ocorreu, talvez ainda possa acontecer.

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O teólogo católico e crítico da Igreja, Hans Küng, ganhou fama como um precursor do diálogo entre as religiões e como fundador do projeto Etos Mundial. Em 1979, o Vaticano cassou-lhe a licença para lecionar Teologia por ter colocado em dúvida a infalibilidade do papa. Em 2005, ele foi recebido por Bento 16 para uma conversa.



Fonte: Deutche Welle

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