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terça-feira, 15 de julho de 2008

LIVRO HÁ DOIS MIL ANOS: UMA FRAUDE HISTÓRICA COMPLETA

Este artigo, escrito pelo pesquisador Sr. José Carlos Ferreira Fernandes, demonstra de forma fortemente convincente que o livro “Há Dois Mil Anos”, “psicografado” por Chico Xavier, não passa de uma completa ficção. Em suma, é uma fraude histórica. Há problemas desde a completa ignorância da construção dos nomes romanos, passando pela aceitação de documentos comprovadamente falsos e culminando na completa inexistência da entidade que teria ditado o livro, no caso, Emmanuel/ Públio Lêntulo. As conseqüências disso para o kardecismo brasileiro, desnecessário dizer, são gravíssimas.

Antes de apresentar o estudo, acho pertinente colocar algumas palavras do Sr. José Carlos sobre seu trabalho:

Meu trabalho nada tem a ver com a existência, ou a não existência, da mediunidade. Também não tem nada a ver com a existência, ou a não existência, duma entidade que se autodenomina “Emanuel”. Meu trabalho procura simplesmente responder à seguinte indagação: esse tal “Emanuel” (seja uma “entidade”, seja um ET, seja o inconsciente do sr. Francisco Cândido Xavier, seja o que for), pelas coisas que narra em “Há Dois Mil Anos”, se encaixa no perfil que ele próprio apresenta de si – o do senador romano Públio Lêntulo, contemporâneo de Cristo, testemunha ocular de fatos importantes ligados à vida de Jesus, fatos esses que registrou a partir do médium Francisco Cândido Xavier? Sim ou não? Eu, por mim, estou firmemente convencido de que NÃO. Esse “Emanuel” pode ter sido tudo, mas não foi um senador romano Públio Lêntulo, contemporâneo de Cristo, testemunha ocular de fatos importantes de sua vida, etc. Se se trata de uma “entidade”, é uma entidade mentirosa, ou galhofeira, ou absurdamente esquecida – ou seja, em qualquer hipótese, não confiável. Que pôde se impor ao “maior médium do mundo”, e passar as suas “mensagens” a toda uma comunidade sem que nenhum intelectual espírita exercitasse o lado “científico” do Espiritismo e as analisasse “cientificamente”; e sem que nenhum espírito “superior” sequer se desse ao trabalho de avisar Xavier, ou o próprio meio espírita, que “Emanuel” era uma fonte, no mínimo, duvidosa.

Porque (infelizmente) não é só a mensagem que importa. Joio se mistura facilmente com trigo, madeiras de terceira com madeiras de lei, e o conjunto nem sempre é facilmente separável. Se a “entidade” (se é que se trata de uma entidade) pôde se enganar, ou mentir, acerca de sua identidade – onde mais se enganou, onde mais mentiu? Não poderia passar mensagens falsas, agasalhando-as no meio de mensagens verdadeiras? Quem é capaz de se enganar, ou mentir, acerca de sua própria identidade, do que mais é capaz?

Dito isso, segue o estudo:

EPISTVLA LENTVLI

Algumas Considerações acerca da Veracidade e da Historicidade da Assim Denominada “Carta de Públio Lêntulo”


I) Introdução Geral:



Não podem ser negadas as íntimas relações entre o médium Francisco Cândido Xavier e um de seus mais importantes mentores espirituais, o espírito que a si mesmo denominava-se “Emanuel”, e que afirmava haver sido outrora, numa de suas passagens pela Terra, Públio Lêntulo, senador romano contemporâneo de Jesus. Pode-se até mesmo falar dum “ciclo de Emanuel” nas obras de Xavier, e muito da autoridade e do prestígio que o referido médium obteve nos meios kardecistas brasileiros, desde a década de 1930 até à sua morte, advieram em boa parte da autoridade desse espírito – do fato de que ele (o espírito) era efetivamente quem dizia ser. Sem dúvida, cita-se amiúde a vida abnegada de Xavier, sua dedicação a servir aos pobres e necessitados, etc., mas (e isso é inegável, e sem se entrar no mérito de suas qualidades morais) a posição singular de Francisco Cândido Xavier era (e é) justificada primariamente pelo fato de, médium, ter contado como mestres alguns eminentes “espíritos superiores”, dentre os quais “Emanuel” despontava de modo ímpar. Portanto, um estudo crítico a respeito das credenciais efetivas de “Emanuel” para se apresentar do modo como se apresentou não pode ser considerado como desprovido de importância, especialmente pelo fato de, incidentalmente, ao longo das várias obras que Xavier psicografou sob a influência de “Emanuel”, haver uma série de afirmações históricas (acerca do próprio “Emanuel”, bem como acerca do ambiente da época) passíveis de verificação independente.

Quanto mais alguém se dedica a estudar, em termos de evidenciação histórica, a identificação de “Emanuel”, mais percebe que, ao fim e ao cabo, tudo tende a girar em torno dum ponto específico, ou melhor, dum documento específico, a assim denominada “Carta de Lêntulo”. De fato, “Emanuel” afirma ter tido várias “encarnações” no mundo dos vivos; três delas são as mais famosas, referindo-se a personagens históricas importantes: ele teria sido Lêntulo Sura, o conspirador catilinário; depois, Públio Lêntulo, bisneto por linha paterna desse Lêntulo Sura, e senador contemporâneo de Cristo; enfim, muitos séculos depois, o padre jesuíta Manuel da Nóbrega (daí, talvez, tenha tirado o nome pelo qual escolheu ser conhecido, “Emanuel”). Contudo, dessas três, de longe a mais importante foi a de Públio Lêntulo, o contemporâneo de Cristo, que com Ele conviveu, que sobre Ele escreveu a seus superiores em Roma, e mais, que d’Ele, inclusive, teria obtido uma graça particular, a cura de sua filha Flávia Lentúlia, acometida de lepra (os detalhes encontram-se na psicografia “Há Dois Mil Anos”). E, ao se analisar melhor essa personagem, Públio Lêntulo, nota-se que tudo o que se sabe dela por outros meios além das psicografias “emanuelinas” de Xavier resume-se nesse documento, a epistula Lentuli, a “carta de Lêntulo”.

Portanto, todo o presente trabalho refere-se à análise dessa carta. Poderia parecer algo simples, já que diria respeito a apenas um documento, e a um documento bem definido – e não tão longo assim, já que se trata duma carta, duma correspondência. Não obstante, como há de se tornar claro, não é um documento qualquer. De fato, tal como se encontra, é a edição final, por assim dizer, duma série de desenvolvimentos que se foram construindo ao longo de séculos. Dissecando esses desenvolvimentos, separando as camadas sucessivas da tradição e da fantasia, descobrem-se coisas interessantíssimas, vislumbra-se uma parte importante da transmissão das memórias e das tradições cristãs – mas também evidencia-se que essa carta, historicamente falando, não existiu, como também não existiu aquele que pretensamente a teria escrito.

Sobre isso é que tratarão os itens a seguir. A fim de apresentar a enorme quantidade de evidências dum modo o mais didático possível, o estudo foi dividido em duas partes. Na primeira, analisa-se o documento em si, dentro de sua plausibilidade histórica no que diz respeito ao ambiente da época e à pessoa que se diz tê-la escrito. Na segunda, esboçam-se os principais pontos da evolução da fixação da aparência física de Jesus, da physiognomia Christi, ao longo dos séculos – porque a “carta de Lêntulo” foi um dos pontos finais dessa evolução.


II) Primeira Parte
Análise do Documento e de sua Possibilidade Histórica:



II.1) Em busca da “versão primitiva” da Carta de Lêntulo:

Já que aqui se trata da análise dum documento específico, uma primeira providência seria obter uma versão a mais “fidedigna” possível dele. A “carta de Lêntulo” chegou até nós a partir duma série de versões manuscritas, datáveis dos séculos XV (talvez, com alguma boa vontade, dos finais do séc. XIV) e XVI, que continham inúmeras variações entre si, como, aliás, era de se esperar na era anterior à imprensa. As variações do texto (“corpo”) do documento são, em geral, pequenas, e podem ser harmonizadas; as variantes dos destinatários (“cabeçalho”) são, contudo, mais graves e importantes, devendo ser tratadas com algum detalhe. Podem ser resumidas nos pontos a seguir:

· Alguns manuscritos afirmavam que a carta havia sido escrita por Públio Lêntulo e enviada ao Senado Romano;

· Outros manuscritos afirmavam que a carta havia sido escrita por Públio Lêntulo e enviada a Otaviano César;

· Outros manuscritos, ainda, afirmavam que a carta havia sido escrita por Públio Lêntulo e enviada ao Imperador Tibério.

Em todas essas versões, Públio Lêntulo é considerado como um alto funcionário romano presente, por algum motivo, em Jerusalém (os títulos a ele ligados são vários, dos quais o mais comum parece ser praeses Hierosolymitanorum, literalmente “presidente (ou líder) dos habitantes de Jerusalém”, mas que, nalguns manuscritos, aparece até, absurdamente, com o título de “procônsul”[1]), e que escreve uma carta, ou melhor, um relatório, às altas autoridades de Roma a respeito dum certo Jesus Cristo. Nalguns documentos, é inclusive informado que ele havia sido “antecessor de Pilatos” – o que é um flagrante erro histórico, já que se conhecem, a partir das obras do historiador Flávio José, todos os praefecti ou procuratores romanos da Judéia entre os anos 6 dC e 66 dC, e entre eles não há nenhum Lêntulo.

Boa parte do relatório resume-se à descrição física do rosto de Cristo. Contudo, as variações dos destinatários são importantes. De fato, uma coisa era um funcionário dirigir seu relatório ao Senado Romano; outra, bem distinta, diretamente à pessoa do Imperador (fosse Augusto ou Tibério) – isso indicaria, para início de conversa, um “status” diferente para a província (e para o funcionário) em questão.

A Palestina, até ao ano 4 aC, era um reino cliente de Roma, governada por Herodes, o Grande, rex amicus et socius populi Romani, “rei amigo e aliado do povo romano”. Com a morte de Herodes, nesse ano, e de acordo com suas disposições testamentárias, ratificadas pelo Imperador Augusto, seus domínios foram divididos por três de seus filhos. Grosso modo, Herodes Filipe (filho do 5o casamento de Herodes, com Cleópatra de Jerusalém), com o título de “tetrarca” (literalmente, “chefe duma quarta parte do reino” – o título significava, na prática, “chefe duma porção do reino”), havia obtido uma série de territórios periféricos (a Batanéia, a Gaulanítide, a Aulanítide e o distrito de Pânias), lá reinando até à sua morte, no ano 34 dC; Herodes Antipas (filho do 4o casamento de Herodes, com Maltace, a samaritana), também com o título de “tetrarca”, havia obtido a Galiléia e a Peréia, lá reinando até 39 dC; enfim, Herodes Arquelau (também filho de Maltace), com o título mais pomposo de “etnarca” (“chefe do povo”), havia obtido a parte mais importante e valiosa dos domínios herodianos – a Judéia e a Samaria, com as duas capitais, Jerusalém e Cesaréia Marítima. Foi apenas 10 anos depois, em 6 dC, que, a partir das queixas dos próprios judeus (ou, se se preferir, de suas classes dirigentes), Arquelau foi deposto e exilado por Augusto, e seus domínios (a Judéia e a Samaria) se transformaram na província da Judéia, posta diretamente sob a autoridade do Imperador, e não do Senado (i.e., como uma província que na época era chamada “de César”, e que hoje os historiadores preferem denominar “província imperial”)[2].

A nova província não tinha tropas romanas (legionárias) estacionadas. O funcionário enviado pelo governo romano para governar esses novos domínios (e que tinha inicialmente o título puramente militar de praefectus, “prefeito”[3]) não era de nível senatorial, mas sim eqüestre, e residia na portentosa cidade que Herodes o Grande havia fundado no litoral, Cesaréia Marítima. Para a segurança da província, contava com tropas auxiliares (auxilia), recrutadas entre estrangeiros não-judeus, mas que não faziam parte do complexo legionário romano.

Assim, a “Judéia” (Iudaea), compreendendo tanto a Judéia quanto a Samaria, era uma “província imperial”, que nada tinha a ver com o Senado. Não obstante, as mais antigas versões manuscritas da “carta de Lêntulo” fazem esse “líder dos habitantes de Jerusalém”, ou “procônsul”, escrever ao Senado – o “cabeçalho” é, quase sempre, Lentulus Hierosolymitanorum Praeses S.P.Q. Romano, “Lentulus Hierosolymitanorum Praeses S(enato) P(opulo)Q(ue) Romano”, “Lêntulo, o presidente [ou líder, ou comandante] dos habitantes de Jerusalém, ao Senado e ao Povo Romanos, [saudações]”.

Isso, por si só, já deveria deixar qualquer investigador histórico de sobreaviso. As variantes posteriores do endereçamento destinaram-se quer a fixar o documento mais solidamente num contexto histórico, quer a corrigir o “erro” dum oficial numa província imperial dirigir-se ao Senado, e não ao Imperador.

Dentro da primeira tendência (fixar um contexto histórico), o escolhido inicialmente foi o do próprio Augusto (Gaio Júlio César Otaviano), o primeiro Imperador, em cuja época Cristo nasceu – e, portanto, em cuja época ele teria vivido, assim se pensava. Típico dessa fase é o cabeçalho dum manuscrito da carta, datado de 1501, constante na biblioteca de Iena, na Alemanha: Temporibus Octaviani Caesaris, Publius Lentulus, Proconsul in partibus Judaea et Herodis Regis, Senatoribus Romanis hanc Epistolam scripsisse fertur, quae postea ab Eutropio reperta est in Annalibus Romanorum. Algo como: “Nos tempos de Otaviano César [i.e., Augusto], Públio Lêntulo, procônsul na região da Judéia e junto ao Rei Herodes, escreveu a seguinte carta aos senadores romanos, carta essa que, retirada dos Anais dos Romanos, foi incluída na obra de Eutrópio”. Desnecessário dizer que no “Resumo de História Romana” (Breviarium) de Eutrópio (um escritor dos meados do séc. IV dC) não há a menor menção, por indireta que seja, a esse documento.

Duma carta escrita ao Senado na época de Augusto, o documento passou paulatinamente a uma carta escrita ao Imperador Augusto, bem como ao Senado. Então, do simples Lentulus Hierosolymitanorum Praeses S.P.Q. Romano, passou-se a descrições mais elaboradas do “cabeçalho”, como aquela constante num manuscrito atualmente na biblioteca universitária de Estrasburgo, datável de 1492-1501: Temporibus Octaviani Cesaris, cum ex universis mundi provinciis illi qui preerant regionibus scriberent senatoribus continuas novitates que occurrerunt per mundi climata, quidam nomine Lentulus, officialis in partibus Judeorum tempore Herodis, scripsit hanc epistolam senatoribus. Algo como “Nos tempos de Otaviano César [i.e., de Augusto], quando vários senadores continuamente lhe escreviam acerca das muitas novidades que ocorriam nas várias províncias e regiões, um, de nome Lêntulo, que desempenhava funções oficiais na região dos judeus no tempo de Herodes, escreveu a seguinte carta, também aos senadores…”.

Mas as coisas evoluem, e também o conhecimento das pessoas. Como a província judaica havia criada em 6 dC, se o relatório de Lêntulo tivesse sido efetivamente enviado a Augusto, somente poderia sê-lo entre os anos 6 dC (data da criação da província) e 14 dC (data da morte do Imperador). Contudo, o ministério público de Jesus, conforme os próprios Evangelhos, iniciou-se apenas após a pregação de São João Batista. Como a pregação do Batista (conforme o Evangelho de Lucas), por sua vez, iniciou-se “no décimo quinto ano de Tibério César” (ou seja, em alguma data em torno do ano 28 ou 29 dC), a cronologia (e o Imperador destinatário) foi então convenientemente modificada, entrando enfim em cena Tibério (que reinou, após a morte de Augusto em 14 dC, daquele ano até 37 dC).

Nota-se, assim, uma evolução progressiva do cabeçalho do documento, com a finalidade de melhor encaixá-lo no que um cada vez mais apurado conhecimento histórico apontava. Essa tendência, somada ao fato de não se conhecerem manuscritos da tal “carta” anteriores, na melhor das hipóteses, aos finais do séc. XIV, já seria suficiente para que se encarasse o relatório desse Lêntulo, no mínimo, com algumas reservas.

Contudo, embora o “cabeçalho” tivesse sofrido tais alterações progressivas, talvez o “corpo” do texto pudesse, de algum modo, remontar a um documento original, escrito, quem sabe, por algum Lêntulo presente, por qualquer motivo que fosse, em Jerusalém, entre os anos 28-30 dC (ou 28-33 dC), e que pôde mandar uma correspondência a Tibério, em Roma… Quem sabe? Poderia nele haver um “núcleo de verdade” que não deveria ser desprezado – ainda mais pelo fato de fornecer não apenas um testemunho independente da existência de Cristo, mas até mesmo uma descrição de seu aspecto físico.

De qualquer modo, deve-se ater, ao menos para o início das investigações, ao texto mais “antigo” atestado da carta, aquele no qual Lêntulo (quem quer que fosse) enviava seu relatório ao Senado. Tal versão é a seguir apresentada, do modo como consta na 2a edição da “Orthodoxographia” de Johann Jakob Grynnaeus, impressa na Basiléia, na oficina tipográfica de Heinrich Petri, em 1569 (mais tarde, falar-se-á especificamente dessa edição):

Lentulus Hierosolymitanorum Praeses S.P.Q. Romano. Adparuit nostris temporibus et adhuc est homo magnae virtutis, nominatus Christus Jesus, qui dicitur a gentibus propheta veritatis, quem ejus discipuli vocant filium Dei, suscitans mortuos et sanans languores. Homo quidem stature procerae, spectabilis, vultum habens venerabilem, quern intuentes possunt et diligere et formidare: capillos vero circinos et crispos, aliquantum coeruliores et fulgentiores, ab humeris volitantes, discrimen habens in medio capitis juxta morem Nazarenorum: frontem planam et serenissimam, cum facie sine ruga ac macula aliqua, quam rubor moderatus venustat: nasi et oris nulla prorsus est reprehensio, barbam habens copiosam et rubram, capillorum colore, non longam sed bifurcatam: oculis variis et claris exsistentibus. In increpatione terribilis, in admonitione placidus ac amabilis, hilaris servata gravitate, qui nunquam visus est ridere, flere autem saepe. Sic in statura corporis propagatus, manus habens et membra visu delectabilia, in eloquio gravis, rarus et modestus, speciosus inter filios hominum. Valete.

Que pode ser traduzida, com razoável precisão, do modo que segue:

Lêntulo, chefe dos cidadãos de Jerusalém, ao Senado e ao Povo Romano, saudações. Nestes tempos apareceu, e ainda encontra-se entre nós, um homem de grande virtude [ou: de grande poder], que se chama Cristo Jesus, o qual é considerado pelas pessoas [ou: pelos não-judeus?] como profeta da verdade, e que seus discípulos [ou: seguidores] chamam de Filho de Deus, pois ele se mostra capaz de ressuscitar os mortos e de curar as doenças. É um homem de estatura alta, de aspecto digno [ou: venerável], e que inspira a quem o observa tanto o amor quanto o temor. Seus cabelos são dum tom entre o acobreado e o acastanhado, levemente ondulados até à altura de suas orelhas, mas, a partir daí, mais escuros, encrespados e brilhantes, até à altura dos ombros; tem-nos divididos ao meio, no estilo dos Nazarenos [ou: dos Nazareus]. Seu rosto é bem conformado, e de aspecto sereno; não possui nem rugas e nem cicatrizes na face, que um rubor moderado torna ainda mais bela, sem nenhuma imperfeição nem em seu nariz, nem em sua boca. Possui barba espessa, da cor dos cabelos, não longa, mas bifurcada na altura do queixo. Sua expressão é simples e natural, e seus olhos, de tom acinzentado, são brilhantes e claros [ou: marcantes]. Quando [em suas pregações] reprova [ou: condena] [alguma atitude] exibe um comportamento assustador [ou: extremamente severo]; quando aconselha, seus modos são serenos e amáveis, até mesmo quase alegres, mas sem perder sua dignidade, já que ninguém jamais o viu rir, embora o tenham visto chorar muitas vezes. Seu talhe corporal é de tipo esbelto, com mãos e braços proporcionais; seu modo de falar é grave, reservado e modesto, que se pode comparar de modo bastante favorável ao da maioria das pessoas, em geral. Passai bem.


II.2) Quem foi Públio Lêntulo?

Portanto, parte-se do pressuposto que, apesar de somente aparecer (ou reaparecer) a partir dos finais do séc. XIV, e de sofrer, em seu “cabeçalho”, uma série de modificações, a “carta de Lêntulo” ainda possa referir-se a algum documento autêntico da época de Cristo. A partir daí, uma série de perguntas poderiam ser feitas, e a primeira, obviamente, seria: quem foi esse Públio Lêntulo?

O cognome “Lêntulo”, na época, era exclusivo dum ramo da “gens” Cornélia – os Cornélios Lêntulos eram membros da velha aristocracia patrícia, duma “stirps” que se destacara dos antigos Cornélios Maluginenses e Cossos, sendo seu primeiro representante Sérvio Cornélio Lêntulo, filho de Gneu, neto de Gneu, cônsul em 303 aC. Seria por demais cansativo acompanhar as vicissitudes dessa família ao longo dos 300 anos seguintes, mas o fato é que ela ainda existia no início da era cristã, e mais, nos reinados de Augusto, o primeiro Imperador (31 aC – 14 dC), e de seu sucessor Tibério (14 – 37 dC) estava de novo no meio do círculo governante romano, com uma importância longe de pequena. Como o “Públio Lêntulo” autor da carta era contemporâneo de Cristo e bisneto de Lêntulo Sura, então a resumida investigação genealógica a seguir centralizar-se-á nesses dois tópicos.



II.2.1) Lêntulo Sura, o conspirador catilinário, e sua improvável progênie:

Públio Cornélio Lêntulo Sura (114 – 63 aC), com certeza neto do Públio Cornélio Lêntulo (cônsul sufeta em 162 aC), foi qüestor em 81 aC, pretor em 74 aC e cônsul em 71 aC. Sua carreira iniciou-se com algum atraso, mas isso deveu-se ao fato de estar, entre 86 aC e 82 aC, servindo sob as ordens de Sila, o Ditador, que alias o fez avançar nos cargos públicos, permitindo-lhe obter a qüestura em 81 aC; nessa ocasião, ao que se diz, comportou-se de modo extremamente corrupto, a ponto de ter sido chamado à atenção pelo próprio Sila – mas isso, aparentemente, não interferiu com seu progresso político posterior.

Apesar de ter atingido o consulado, e de sua carreira parecer estar consolidada, os ventos políticos mudaram, e ele, bem como inúmeros outros, foi enfim expelido do Senado pelos censores de 70 aC (Gneu Cornélio Lêntulo Clodiano e Lúcio Gélio Publícola), alegadamente por conduta imoral. A partir daí, a fim de recuperar-se, optou por posturas políticas mais “radicais”. Ligou-se ao grupo de descontentes que girava em torno de Lúcio Sérgio Catilina, que em 63 aC concorreu (sem sucesso) para o consulado. Mas Sura teve mais sorte, nesse ano foi eleito pretor pela 2a vez, podendo assim reassumir sua cadeira no Senado.

O grupo de Catilina advogava medidas bastante ousadas, como o cancelamento das dívidas dos pobres e o assentamento dos veteranos em lotes de terras públicas (terras essas que, muitas vezes, haviam sido apropriadas pelos grandes latifundiários). Era quase certo que as medidas não visavam o bem da população, mas serviriam apenas como trampolim para o poder; qualquer que fosse o caso, a violenta oposição dos “situacionistas”, comandados por Cícero, cônsul em 63 aC, parecia frustrar os planos de Catilina. Após um discurso bombástico contra Catilina (21 de outubro de 63 aC), no qual o acusou abertamente de conspirar contra a República, Cícero conseguiu que o Senado aprovasse a “lei marcial” (senatus consultum ultimum); diante dos fatos, e percebendo que uma tomada do poder em linhas mais ou menos legais estava agora fora de cogitação, Catilina resolveu sair de Roma (8 de novembro), e reuniu seus partidários (basicamente veteranos sem terras e proletários) em Fésulas, na Etrúria (atual Fiesole). A situação quedou-se inconclusa em Roma, já que Catilina e seu grupo possuíam muitos contatos entre os senadores, e nem todos estavam certos da existência duma conspiração. Mas isso mudaria no dia 3 de dezembro, quando documentos comprometedores chegaram às mãos de Cícero. De fato, os partidários de Catilina em Roma (entre os quais Lêntulo Sura) haviam solicitado, por escrito, apoio dos embaixadores dos gauleses alóbragos, então presentes na cidade, para um eventual levante – e essas solicitações acabaram caindo nas mãos de Cícero, o qual, enfim, pôde mostrá-las a um Senado aterrorizado como provas indiscutíveis de conspiração[4]. Aproveitando-se do calor do momento, e da lei marcial ainda em vigor, Cícero prendeu todos os implicados (entre os quais Sura), e os fez executar (5 de dezembro). Ao saber do ocorrido, Catilina e seu exército tentaram sair da Itália, rumando para o norte, em direção à Gália. Não obstante, interceptados por forças senatoriais muito mais numerosas em Pistória (atual Pistóia), comandadas por Gaio Antônio Híbrida, o outro cônsul (tio de Marco Antônio), foram derrotados e quase todos mortos, incluindo-se o próprio Catilina, depois de renhida batalha (janeiro de 62 aC).

Essa, em resumo, é a famosa conspiração catilinária, por causa da qual Lêntulo Sura perdeu a vida. Sendo membro do “partido derrotado”, sobre ele caiu toda a espécie de acusação de vida desregrada, viciada e imoral. Obviamente, ele não era nenhum exemplo de virtude, mas praticamente nenhum político da época (talvez nem o próprio Cícero) era, e seu maior pecado, sem dúvida, foi o de ter sido derrotado. A questão que aqui se coloca, porém, é: teve Lêntulo Sura descendentes em linha masculina? Porque, segundo “Emanuel”, Públio Lêntulo, o senador contemporâneo de Cristo (e autor do “relatório” a Tibério) era bisneto de Lêntulo Sura.

Há toda a probabilidade de que Lêntulo Sura não tenha tido herdeiros masculinos que a ele sobrevivessem. Da vida pessoal de Sura, sabe-se que casou-se com Júlia, a viúva de Marco Antônio Crético (o pai do famoso Marco Antônio, o triúnviro, futuro marido da rainha Cleópatra do Egito).

Essa Júlia, filha de Lúcio Júlio César (cônsul 90 aC), havia se casado inicialmente com o já citado Marco Antônio Crético, que foi pretor em 74 aC e logo depois foi nomeado propretor com poderes extraordinários para combater os piratas orientais, de Creta e da Cilícia, entre 73 e 71 aC (daí retirou seu cognome “Crético”, ou seja, “Cretense”). Contudo, não foi bem sucedido, e morreu em campanha, deixando Júlia viúva com três filhos: o famoso Marco Antônio (o filho mais velho, nascido em 82 ou 81 aC), Gaio Antônio e Lúcio Antônio. A fim de assegurar tanto a sua sobrevivência quanto o futuro político de seus três filhos, Júlia fez o que qualquer viúva romana em sua situação faria: procurou um novo marido, politicamente conectado, que estivesse disposto a se casar com ela – e encontrou essa pessoa em Públio Cornélio Lêntulo Sura.

Todas as evidências históricas disponíveis são claras: foi Lêntulo Sura quem criou, com Júlia, os três filhos que ela tivera com Marco Antônio Crético. Isso é confirmado por Cícero, que, vários anos depois, num de seus famosos discursos contra Marco Antônio[5], explicitamente declara, a fim de ter mais uma arma com que acusar seu inimigo, haver sido ele criado pelo conspirador catilinário. Muito da ira de Marco Antônio contra Cícero veio do fato de este último haver condenado à morte o seu padrasto de modo sumário, sem o benefício dum julgamento. Mas há mais: por ocasião da morte de Sura, foi Marco Antônio que reclamou o seu corpo e providenciou o seu enterro, como narra Plutarco no início de sua biografia de Antônio:

[I].[01] O avô de Antônio foi o famoso orador, morto por Mário por ser partidário de Sila. Seu pai foi Antônio, cognominado Crético, de fama moderada e que não se distinguiu sobremaneira na vida pública, mas, no consenso geral, um bom homem, particularmente notável por sua liberalidade, como o exemplo a seguir mostrará. [02] Ele nunca tinha sido muito rico, e, por essa razão, sempre teve sua tendência às liberalidades combatida por sua esposa; tendo, certo dia, um amigo necessitado lhe solicitado um empréstimo, e não tendo Antônio dinheiro para lhe ceder, mandou um escravo trazer-lhe água numa bacia de prata; lavou o rosto na água, como se fosse a seguir barbear-se; [03] despedindo o escravo, a pretexto de um ou outro afazer, deu a bacia ao amigo, para que a usasse conforme suas necessidades. E quando, depois, instalou-se um grande rebuliço na casa por causa da bacia desaparecida, e sua esposa estava já prestes a convocar todos os domésticos para uma busca rigorosa à peça faltante, Antônio finalmente confessou o que havia feito, pedindo-lhe perdão.

[II].[01] Sua esposa era Júlia, da família dos Césares, que, por sua prudência e comportamento honrado, não era em absoluto inferior a nenhuma das grandes matronas de seu tempo. Sob sua guarda, o jovem Antônio recebeu sua educação, tendo ela se casado novamente, após a morte do marido, com Cornélio Lêntulo, aquele que foi executado por Cícero por sua participação na conspiração de Catilina. [02] A morte do padrasto esteve, provavelmente, na origem do clima de inimizade e desconfiança que sempre imperou no relacionamento entre Cícero e Antônio. Com efeito, Antônio afirmou, mais tarde, que ao corpo de Lêntulo fora negado o enterro, e que somente por intermédio duma súplica sua dirigida à esposa de Cícero foram os restos de seu padrasto devolvidos a Júlia. [03] Isso, contudo, parece inverídico, já que a ninguém dentre aqueles executados sob o consulado de Cícero foi negada a sepultura.

(Plutarco de Queronéia, “Vidas Paralelas”, “Vida de Antônio”, capítulos I (inteiro) e II (seções 1 a 3)

Ora, essa tarefa caberia aos filhos; se o enteado, com menos de 20 anos na ocasião (Antônio nasceu em 82 ou 81 aC, e a execução de Sura deu-se nos finais de 63 aC), a tomou para si, a conclusão lógica é a de que Sura não tinha filhos vivos que pudessem assumir essa sagrada responsabilidade. Portanto, ou ele não se casou (sendo Júlia sua primeira esposa)[6], ou, se se casou antes, não teve filhos, ou, se os teve, eles não sobreviveram à idade adulta. Portanto, torna-se bastante difícil sustentar que Públio Lêntulo, o senador romano da época de Cristo (se é que de fato existiu), pudesse vir a ser bisneto de Lêntulo Sura, o conspirador catilinário.



II.2.2) Os Lêntulos da Época Imperial:

Assim, torna-se problemático ligar “Públio Lêntulo”, o pretenso contemporâneo de Cristo, e autor do famoso “relatório” a Tibério, à progênie de Lêntulo Sura. Mas afinal haveria alguma referência, entre os Lêntulos da primeira época imperial, a algum “Públio Lêntulo” que pudesse vir a ser o autor da carta? É isso que agora se há de investigar.

A ligação entre os Lêntulos da época final da República e os Lêntulos da primeira época imperial nem sempre é tarefa fácil, mas esse problema não será abordado aqui. O pretenso bisneto de Lêntulo Sura, Públio Cornélio Lêntulo, a mais famosa encarnação de “Emanuel”, é apresentado como contemporâneo de Cristo – assim, deve ter nascido por volta do início da era cristã; com certeza (segundo a psicografia “Há Dois Mil Anos”), morreu na erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia no início do império de Tito, ou seja, no ano 79 dC. Por conseguinte, grosso modo, Lêntulo/“Emanuel” nasceu entre, diga-se, 5 aC e 5 dC, e morreu em 79 dC. Portanto, a questão que se põe é bem simples: haveria alguma referência a um Públio Cornélio Lêntulo, entre o início da era cristã e o final do período júlio-cláudio, diga-se, entre os anos 1 e 68 dC, que possa vir a ser o famoso Públio Lêntulo contemporâneo de Cristo?

Os membros da família mais facilmente atestáveis (e identificáveis) foram aqueles que conseguiram obter a máxima honra da carreira pública, o consulado, quer o consulado ordinário, quer o consulado sufeta (substituto). A partir de 18 aC (ano em que reentraram novamente nas graças políticas, em “grande estilo”), são os seguintes os Lêntulos que foram cônsules:

· 18 aC: Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, filho de Públio, e Gneu Cornélio Lêntulo, filho de Lúcio (no ano 18 aC, ambos os cônsules foram Lêntulos – o ano é comumente designado como “ano do consulado dos Lêntulos”)

· 16 aC: Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião, filho de Públio, neto de Públio

· 14 aC: Gneu Cornélio Lêntulo, o Áugure, filho de Gneu

· 3 aC: Lúcio Cornélio Lêntulo, filho de Lúcio (neto de Lúcio)

· 1 aC: Cosso Cornélio Lêntulo, filho de Gneu (neto de Gneu), dito Getúlico

· 2 dC: (sufeta): Públio Cornélio Lêntulo Cipião, filho de Gneu, neto de Gneu

· 10 dC (sufeta): Sérvio Cornélio Lêntulo Maluginense, filho de Gneu, neto de Gneu

· 24 dC: Sérvio Cornélio (Lêntulo) Cétego, filho de Sérvio, neto de Gneu

· (sufeta) Públio Cornélio Lêntulo Cipião, filho de Públio, neto de Gneu

· 25 dC: Cosso Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Cosso, neto de Gneu

· 26 dC: Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Cosso, neto de Gneu

· 27 dC: Lúcio Cornélio Lêntulo Cipião, filho de Públio, neto de Gneu

· 51 dC: Sérvio Cornélio (Lêntulo Cétego Cipião) Salvidieno Orfito, filho de Sérvio, neto de Sérvio

· 55 dC (sufeta): Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Gneu, neto de Cosso

· 56 dC: Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião, filho de Lúcio, neto de Públio

· 60 dC: Cosso Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Cosso, neto de Cosso

· 68 dC (sufeta): Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião Asiático, filho de Públio, neto de Públio

Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião Asiático, nomeado por Galba nos finais de 68 dC, foi o último dos Lêntulos a obter o consulado (embora não tenha sido, em absoluto, o último Lêntulo “de sangue” atestado, como se verá). Para todos os efeitos práticos, a estirpe dos Lêntulos chegou enfim à extinção, ao menos nas linhas masculinas.

Apresentar-se-ão, a partir de agora, de modo forçosamente breve e resumido, os cônsules referidos acima, mostrando-se suas ligações genealógicas, bem como alguns outros membros de suas famílias.

Para o início da era cristã, cuidadosas pesquisas genealógicas[7] permitiram mostrar que os Lêntulos sobreviventes podem ser considerados, didaticamente, como pertencentes a três ramos distintos: a) o dos Lêntulos Clodianos, representado unicamente por Gneu Cornélio Lêntulo, o Áugure (cônsul 14 aC), filho de Clodiano; b) o dos descendentes de Lúcio Cornélio Lêntulo Níger, pretor 61 aC e flâmine de Marte, representados por Gneu Cornélio Lêntulo, filho de Lúcio (cônsul 18 aC) e por seu provável irmão Lúcio Cornélio Lêntulo, filho de Lúcio (cônsul 3 aC); c) o prolífico ramo dos Lêntulos Marcelinos, que terá de ser tratado separadamente.

Deve-se notar, antes de mais nada, que os Lêntulos Clodianos não eram, a rigor, Lêntulos de sangue, mas sim o resultado de adoção testamentária no seio dos Cláudios (quase certamente, dos Cláudios Pulcros, patrícios) – portanto, não havia qualquer ligação entre eles e Lêntulo Sura. O mesmo se pode dizer dos Lêntulos Marcelinos – eram também o resultado de adoção testamentária, desta vez no seio dos Cláudios Marcelos (plebeus), e também não exibiam ligação de espécie alguma com Lêntulo Sura. E, enfim, a estirpe de Lêntulo Níger, embora pudesse se gabar de ser “genuinamente” do sangue dos Lêntulos desde as mais antigas gerações, sem o uso do recurso à adoção testamentária, não tinha nenhuma ligação com o ramo de Lêntulo Sura[8].

Assim, nenhum dos representantes atestados dos Lêntulos entre o início da era cristã e o final da família em linha masculina exibe a menor relação, indireta que seja, com Lêntulo Sura.

Gneu Cornélio Lêntulo, o Áugure (porque exerceu esse importante ofício sacerdotal), cônsul 14 aC, teve sua carreira favorecida pelo Imperador Augusto, gozando também da estima e da consideração de seu sucessor Tibério; a herança paterna, bem como o beneplácito imperial, fez com que se tornasse extremamente rico – uma das maiores fortunas de Roma[9]; sabe-se também que possuía propriedades na Hispânia Tarragonense, onde ânforas de vinho com seu selo foram descobertas. Após seu consulado, comandou os exércitos romanos na fronteira danubiana, como governador da Mésia, ao norte da Ilíria (c.10 a c. 6 aC), derrotando os Getas[10] e fazendo jus aos ornamentos triunfais (ornamenta triumphalia). Procônsul na Ásia entre 3 e 2 aC, morreu no ano 25 dC, sem herdeiros, deixando ao Imperador Tibério sua enorme fortuna.

De Gneu Cornélio Lêntulo, um dos dois Lêntulos que foram cônsules no ano 18 aC, virtualmente nada se sabe, afora o seu consulado ordinário. Quanto a Lúcio Cornélio Lêntulo, seu parente, e também progênie de Lêntulo Níger, ele ocupou o prestigioso posto sacerdotal de flâmine de Marte (flamen Martialis), foi cônsul ordinário em 3 aC e, logo depois (4-5 dC), procônsul da África. Sabe-se com certeza que morreu em terras africanas, derrotado pelos berberes Nasamões, numa das endêmicas campanhas que os romanos foram obrigados a mover contra esses nômades das fímbrias do deserto do Saara, que constantemente invadiam não apenas as regiões fronteiriças da província romana, mas também os territórios do reino-cliente da Mauritânia[11]. Também se sabe que não teve filhos homens, mas apenas uma única filha, Cornélia, herdeira de todos os seus bens, e que haveria de se casar com Lúcio Volúsio Saturnino, cônsul sufeta em 3 dC, e já de certa idade. Ela lhe daria dois filhos: o mais velho, nascido por volta do ano 20 dC, foi Lúcio Volúsio Saturnino, o Moço, membro do colégio dos pontífices, mas que morreu relativamente jovem, por volta do ano 55 dC, sem ter tido oportunidade de ascender ao consulado; o mais novo, contudo, nascido no ano 24 ou 25 dC, Quinto Volúsio Saturnino, seria cônsul em 56 dC [12].

Para a morte de Lêntulo em terras africanas, bem como para o fato de ter tido uma única filha, há testemunhos diretos. Um fragmento de Dionísio o Periegeta, conservado pelo escritor bizantino do séc. XII, Eustácio, arcebispo metropolitano da Tessalônica, assim informa[13]:

Porque eles [i.e., os Nasamões, uma tribo berbere da fronteira norte-africana] traiçoeiramente mataram Lêntulo, um general dos romanos, quando ele lá esteve, e, por essa razão, acabaram mais tarde escravizados pelos romanos.

A sua morte (e o fato de ter apenas uma filha) é também confirmada incidentalmente por uma citação nas “Instituições” de Justiniano, a respeito dos codicilos:

Ante Augusti tempora constat ius codicillorum non fuisse, sed primus Lucius Lentulus, ex cuius persona etiam fideicommissa coeperunt, codicillos introduxit. nam cum decederet in Africa scripsit codicillos testamento confirmatos, quibus ab Augusto petiit per fideicommissum ut faceret aliquid: et cum divus Augustus voluntatem eius implesset, cuius deinceps reliqui auctoritatem secuti, fideicommissa praestabant, et filia Lentuli legata quae iure non debebat solvit, dicitur Augustus convocasse prudentes, inter quos Trebatium quoque, cuius tunc auctoritas maxima erat, et quaesisse, an possit hoc recipi nec absonans a iuris ratione codicillorum usus esset: et Trebatium suasisse Augusto, quod diceret, utilissimum et necessarium hoc civibus esse propter magnas et longas peregrinationes, quae apud veteres fuissent, ubi, si quis testamentum facere non posset, tamen codicillos posset. post quae tempora cum et Labeo codicillos fecisset, iam nemini dubium erat quin codicilli iure optimo admitterentur

Institutiones, lib. II, tit. XX, “De Codicilis”

Ou seja:

Antes do tempo de Augusto, o direito referente aos codicilos não existia. Lúcio Lêntulo foi o primeiro a introduzi-lo, e através dele tiveram início também os fideicomissos. De fato, estando ele na África, onde morreu, redigiu um codicilo confirmado no seu testamento; nesse codicilo, solicitou a Augusto, por meio dum fideicomisso, que executasse um determinado ato. Dado que Augusto executou a sua vontade [i.e., aceitou a incumbência que Lêntulo lhe havia rogado, por meio do codicilo], outros foram, pouco a pouco, com o exemplo do príncipe, adicionando a seus testamentos fideicomissos, e a própria filha de Lêntulo cumpriu desse modo os legados a que juridicamente não tinha direito. Conta-se que Augusto então convocou vários juristas, dentre os quais Trebácio Testa, que então gozava de grande prestígio, e lhes colocou a seguinte questão: seria tal prática admissível, e seria o emprego de codicilos dissonante com toda a coerência da ordem jurídica? Trebácio, diz-se, persuadiu o príncipe desta maneira: fazendo-o ver que era muito útil aos cidadãos, respondendo também a uma necessidade real, dadas as longas e contínuas estadas em países estrangeiros, então muito freqüentes, o poder fazer codicilos, se não era possível fazer um testamento.

Instituições, livro II, título 25, “Sobre os Codicilos”.

Originariamente um fideicomisso (fideicommissum) era um pedido dum testador a seu herdeiro para que cumprisse determinado ato (usualmente o pagamento duma soma de dinheiro, ou a transferência duma propriedade, para um terceiro). Os codicilos (codicili – o termo é sempre usado no plural) eram um documento escrito, mas sem as formalidades testamentárias, por um testador para que determinadas vontades suas fossem implementadas após a sua morte (exceto a instituição de herdeiro). Normalmente, os codicilos continham disposições fideicomissárias, mas havia uma diferença entre um legado (obrigação ao herdeiro) e um fideicomisso, que era a disposição duma última vontade, efetuada em termos de requerimento, e cuja execução era deixada à lealdade do onerado. O Imperador deu aos codicilos que continham disposições fideicomissárias um caráter juridicamente vinculante, como se legados fossem, tornando-os assim testamento confirmati e equiparando-os a legados.

Agora, resta examinar os Lêntulos da época imperial descendentes dos Lêntulos Marcelinos, ou seja, descendentes do casamento de Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, monetalis 101 aC, e de Cornélia, filha de Públio Cornélio Cipião Násica Serapião, cônsul 111 aC. Marcelino era, ele mesmo, um plebeu (dos Cláudios Marcelos), adotado testamentariamente por um filho (Públio Cornélio Lêntulo) daquele Lêntulo Lupo que havia sido cônsul em 156 aC – portanto, embora utilizassem o gentílico e o cognome de “Cornélios Lêntulos” patrícios, os Lêntulos Marcelinos eram tecnicamente plebeus. A partir do casamento do primeiro dos Marcelinos com a filha dum Cipião, patrício, todos os seus descendentes passaram a reivindicar ascendência cipiônica e, cada vez mais, a se agarrar a essa pretensão. No início da era cristã, havia, entre os Lêntulos Marcelinos, três sub-ramos distintos: a) o dos “Cipiões”, descendentes do filho mais velho do casamento do primeiro Marcelino com Cornélia, Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, questor propretoriano 75-74 aC; b) o dos “Getúlicos”, oriundos do filho mais novo do casamento, Gneu Cornélio Lêntulo Marcelino, cônsul 56 aC, por meio do filho mais velho deste último, Gneu Cornélio Lêntulo, que lutou na Sicília; c) enfim, o dos “Escribonianos”, logo extintos, que descendiam também do cônsul de 56 aC, mas por meio do filho mais novo deste, Lúcio Cornélio Lêntulo, cônsul sufeta 38 aC e, ao que tudo indica, marido da famosa Scribonia Caesaris. De todos, os mais importantes foram, sem dúvida alguma, os Getúlicos.

Começando pelos “Escribonianos”: Lúcio Cornélio Lêntulo, cônsul sufeta em 38 aC, filho mais novo de Gneu Cornélio Lêntulo Marcelino (cônsul 56 aC), foi o pai (provavelmente tendo Escribônia como esposa) de Gneu Cornélio Lêntulo, o outro dos dois Lêntulos que foram cônsules em 18 aC, e de mais uma Cornélia. De Lêntulo não se conhecem descendentes, mas Cornélia casar-se-ia com Paulo Emílio Lépido, e sua filha sobrevivente, Cornélia Emília Lépida, haveria, como visto, de se casar com Lúcio Cornélio Lêntulo, o flamen Martialis. Isso resume os Escribonianos.

Segue-se agora para os “Cipiões”. Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, sobrinho do cônsul de 56 aC, foi pretor em 29 aC; deve ter morrido logo depois, por não ter podido ascender ao consulado, mas teve um filho, Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião, que seria cônsul em 16 aC. Lêntulo Cipião preferiu usar a nomenclatura mais simples, embora mais impressionante, de “Públio Cornélio Cipião”, deixando cair em desuso o cognome “Lêntulo”. Após o seu consulado, foi procônsul da Ásia, ao que tudo indica por dois turnos (12-11 aC e 11-10 aC)[14]; e moedas foram cunhadas com a sua efígie pela cidade asiática de Pitane[15].

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O filho desse Cipião foi o seu homônimo Públio Cornélio Cipião, cuja carreira (bem como a de seu filho, neto do primeiro Cipião) pode ser reconstituída com razoável detalhe a partir duma famosa inscrição[16] encontrada na 2a metade da década de 1960 no Vaticano[17], que é reproduzida a seguir, juntamente com a sua reconstituição[18]:



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Pela inscrição, da época de Tibério, tem-se que Cipião iniciou sua carreira como decênviro para julgamento de assuntos relativos à cidadania (decemvir stlitibus iudicandis), um posto júnior (talvez c. 1 dC); depois, foi questor com poderes propretorianos (i.e., governador em exercício) na Acaia (Grécia) em 2-3 dC[19]; de retorno a Roma, exerceu as funções de tribuno da plebe, e depois de pretor (talvez c. 7 dC); tendo alçado a pretura, atuou, logo após, com o título apropriado de procônsul, como governador numa província senatorial (provavelmente 12-13 dC)[20], seguindo-se serviço na fronteira do Reno, como legado (i.e., comandante de uma legião – provavelmente a II Augusta, na qual seu filho também servia – ver próximo parágrafo), nos últimos tempos de Augusto e nos primeiros de Tibério (c.14 a c.16 dC)[21]. Se, com essa notável ficha de serviços, não ascendeu ao consulado, isso significa que morreu antes de fazê-lo.

O filho desse Cipião, Públio Cornélio Cipião Orestino, é mencionado na inscrição mais à esquerda, que, reconstituída, permite constatar que, após acompanhar o futuro Imperador Tibério à fronteira do Reno (c. 10-12 dC), iniciou formalmente sua carreira do mesmo modo que o pai, como decemvir stlitibus iudicandis (talvez c. 13-14 dC), prestando depois serviço militar como tribuno da 2a legião (provavelmente entre os anos 14 e 16 dC) – quase certamente, essa seria a II Augusta, anteriormente na Espanha[22] mas desde 9 dC transferida para a fronteira germânica do Reno, e, a partir de 17 dC, definitivamente estacionada em Argentorate (a atual Estrasburgo), até 43 dC, quando fez parte da invasão romana da Britânia, onde permaneceria a partir de então. Como o pai, não ascendeu ao consulado, e mais, não seguiu o resto da carreira senatorial normal (p.ex., não obteve sequer uma pretura), o que faz crer que tenha morrido relativamente novo – talvez pouco depois do pai; de qualquer forma, não se conhecem representantes posteriores, e com ele extinguiu-se esse sub-ramo, ao menos na linha masculina. O agnome de Cipião, “Orestino”, pode indicar que a sua mãe era uma Lívia Orestina (ou Orestila); de fato, o próprio Orestino foi o pai de Cornélia Lívia Orestina (ou Orestila), que seria a 2a esposa do Imperador Calígula[23].

Falta agora examinar os Getúlicos.

O filho mais velho de Gneu Cornélio Lêntulo Marcelino, cônsul 56 aC, é, certamente, o Gneu Cornélio Lêntulo atestado como comandando, para Otaviano (o futuro Augusto), uma frota na Sicília c. 30 aC[24]. O filho desse almirante foi seu homônimo Gneu Cornélio Lêntulo, que exerceu o cargo de “questor de César” (quaestor Caesaris) nalguma data entre 30 e 28 aC na Acaia (Grécia), atestado numa inscrição de Delfos[25]. Note-se que nenhum dos dois atingiu o consulado. Para o almirante, isso se deve, quase certamente, à agitada época da última fase das guerras civis; quando, após o triunfo de Otaviano (Augusto), o caminho lhe estaria aberto, é provável que tenha morrido. Para o questor[26], uma carreira promissora estava despontando; o fato de ele não ir além, e de desaparecer da História, aponta, mais uma vez, para uma morte prematura.

O questor imperial teve – e isso já está razoavelmente estabelecido – três filhos: Cosso Cornélio Lêntulo, Públio Cornélio Lêntulo Cipião e Sérvio Cornélio Lêntulo Maluginense. Os nomes (e cognomes) que escolheu para os filhos são notáveis – “Cosso”, “Cipião” e “Maluginense” são antigos cognomes da gens Cornélia. Os Cossos e os Maluginenses foram as mais antigas stirpes dos Cornélios, e estavam há muito extintas; quanto aos Cipiões, o questor era, por sangue (convém não esquecer esse detalhe), um Lêntulo Marcelino, portanto reivindicando ascendência cipiônica a partir de sua antepassada, a filha de Públio Cornélio Cipião Násica Serapião, cônsul 111 aC, que se havia casado com Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, monetalis 101 aC,.

Dos três, o mais notável foi Cosso – amigo pessoal tanto de Augusto quanto de Tibério. Ele começou sua carreira como monetalis c. 12 aC (suas moedas ostentam tanto a efígie de Augusto quanto a de Agripa, o mais competente general de sua época, fiel partidário de Augusto desde o início e casado com sua filha Júlia; a efígie de Agripa ostenta uma dupla coroa naval e mural, fato que se deve ligar às homenagens prestadas ao grande general por ocasião de sua morte, em 12 aC[27]); exerceu o ofício sacerdotal de qüindecênviro para assuntos sagrados (quindecimvir sacris faciundis), galgou todos os postos até ao consulado ordinário em 1 aC, seguindo-se o proconsulado da África entre 5 e 7 dC. Permaneceu no favor tanto de Augusto quanto de seu sucessor Tibério, sendo nomeado em 33 dC prefeito urbano de Roma – exercia esse prestigiosíssimo cargo quando morreu, de morte natural, em 36 dC.

O ponto central de sua carreira foi a sua atuação como procônsul da África, entre os anos 5 e 7 dC – justamente após a derrota e morte de Lúcio Cornélio Lêntulo, o flamen Martialis, naquela província, nas mãos dos berberes Nasamões. Ao contrário de Lúcio, porém, as campanhas de Cosso foram coroadas de sucesso, tendo ele derrotado os Musolanos e os “Gétulos” (este último um nome genérico para todos os berberes) ao longo da fronteira romana do Saara e no próprio reino-cliente da Mauritânia, recebendo enfim (6 dC) os ornamentos triunfais (ornamenta triumphalia) e o direito de usar o nomen triumphalis de Getúlico (Gaetulicus) – direito esse que não exerceu, mas que passou aos seus descendentes[28]. Apenas para constar, deixando a palavra a Orósio:

E então, na África, quando os Musolanos e os Gétulos atacaram tais regiões, Cosso, general de César, reduziu seus territórios, confinou-os, e compeliu-os, por medo, a manterem-se distantes das fronteiras fortificadas dos romanos.

(Paulo Orósio, “Histórias Contra os Pagãos”, livro VI, cap. 21, par. 18)

Adicionalmente, as campanhas de Cosso são atestadas epigraficamente, a partir da inscrição[29] encontrada em Lépcis a Grande (Lepcis Magna), na Tripolitânia (atualmente o campo de ruínas de Labdah ou Lebdah, na Líbia), cuja ilustração[30], transcrição e tradução seguem:

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Transcrição:

Marti Augusto sacrum. Auspiciis Imp(eratoris) Caesaris Aug(usti), Pontificis Maxumi(!), Patris Patriae, ductu Cossi Lentuli, co(n)s(ulis), XVviri sacris faciundis, proco(n)s(ulis) provincia Africa, bello Gaetulico liberata, civitas Lepcitana.

Tradução:

Dedicado pela cidade de Lépcis, e sagrado a Marte Augusto. Sob os auspícios do Imperador César Augusto, Sumo Pontífice, Pai da Pátria, e sob o comando de Cosso Lêntulo, cônsul, qüindecênviro para assuntos sagrados e procônsul, a província da África foi libertada da guerra movida pelos Gétulos.

Cosso Lêntulo teve dois filhos, mas, antes de se examinarem suas carreiras, tratar-se-á de seus dois irmãos mais novos. Públio Cornélio Lêntulo Cipião foi cônsul sufeta em 2 dC, e Sérvio Cornélio Lêntulo Maluginense foi cônsul sufeta em 10 dC.

Públio, o sufeta de 2 dC, por sua vez, teve dois filhos: Públio Cornélio Lêntulo Cipião, cônsul sufeta em 24 dC, e Lúcio Cornélio Lêntulo Cipião, sufeta em 27 dC. Desse Públio mais novo, que foi pretor em 15 dC[31], sabe-se que, por ocasião da revolta de Tacfarinas, na África, comandou a IX Legião, Hispana, como legatus legionis, entre os anos 21 e 24 dC – uma honra excepcional, especialmente tendo em vista que ele era apenas de nível pretoriano na ocasião, e não consular. Seu comando é atestado tanto por fontes literárias[32] quanto epigráficas: um fragmento de dedicatória (ou de pedestal de estátua) no cardo da cidade africana de Lépcis a Grande tem o seu nome (ver ilustração a seguir)[33], e há, além disso, uma inscrição em sua honra encontrada em Bríxia (a atual Bréscia na Venécia, norte da Itália)[34], que se apresenta da seguinte forma:



Apresentação e Transcrição:

P CORNELIO LEN…

SCIPIONI COS PR…

AERARI LEGATO TI

CAESARIS AVG

LEG VIIII HISPAN PONTIF

FETIALI D D

P(ublio) Cornelio Len[tulo] / Scipioni co(n)s(uli) pr[aet(ori)] / aerari legato Ti(beri) / Caesaris Aug(usti) leg(ionis) / VIIII Hispan(ae) pontif(ici) / fetiali d(ecreto) d(ecurionum).

Tradução:

(Dedicado) por decreto dos decuriões [i.e., dos magistrados municipais de Bríxia] a Públio Cornélio Lêntulo Cipião, cônsul, pretor encarregado do erário [o tesouro senatorial], legado de Tibério César Augusto para a 9a legião, Hispana, pontífice e fecial [estes dois últimos eram cargos sacerdotais].



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Sabe-se que Públio Cornélio Lêntulo Cipião foi, ainda, procônsul da Ásia, quase certamente no período 41-42 dC, ou seja, no início do império de Cláudio[35]. O filho desse Públio Cipião foi justamente Públio Cornélio Cipião Asiático, cônsul sufeta no final de 68 dC, nomeado por Galba após o fim de Nero, e o último dos Lêntulos a ocupar tal cargo. Sua mãe era ninguém menos que Popéia Sabina, a filha de Gneu Popeu Sabino (que morreu em 35 dC), cônsul 9 dC, governador da Mésia c. 12 a c. 35 dC, e da Macedônia e da Acaia de c. 15 a c. 35 dC. O primeiro marido de Popéia Sabina havia sido Tito Ólio, e desse primeiro casamento ela tinha tido uma filha, Ólia Popéia Sabina, a Moça. A dama em questão havia se casado inicialmente com Rúfio Crispino, um dos prefeitos pretorianos de Cláudio, e depois com Marco Sálvio Otão (o futuro Imperador), companheiro de farras do Imperador Nero; logo passou a amante (c. 58 dC) e depois a esposa (62 dC) deste último. Inteligente, bela, rica, ambiciosa e cruel, incitou Nero a se livrar da mãe, Agripina (59 dC) e de sua primeira esposa, Otávia (62 dC); Popéia morreu grávida no ano 65 dC, ao que se diz por causa dum pontapé que Nero, num acesso de fúria, lhe aplicou.

Portanto, Asiático era meio-irmão, por parte de mãe, da Imperatriz Popéia Sabina; sua nomeação por Galba para o consulado, no final do conturbado ano de 68 dC, pode ser entendida como uma tentativa de conciliar a antiga nobreza e de tentar demonstrar que a normalidade voltara.

De Lúcio Cornélio Lêntulo Cipião, o sufeta de 27 dC, conhece-se um filho, Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião, cônsul 56 dC. Tanto o pai quanto o filho são apenas dois nomes nos Fastos, e com o cônsul ordinário de 56 dC e o sufeta de 68 dC, meio-irmão de Popéia Sabina, termina a progênie do sufeta de 2 dC.

O irmão mais novo de Cosso Cornélio Lêntulo, Sérvio Cornélio Lêntulo Maluginense (que morreu em 23 dC), cônsul sufeta 10 dC, exerceu o prestigioso posto de flâmine de Júpiter (flamen Dialis) desde a época de seu consulado. Apesar de seu posto sacerdotal o impedir de se ausentar de Roma (por tradição, o flâmine de Júpiter não podia deixar a cidade, a fim de dedicar-se integralmente ao culto de Júpiter Ótimo Máximo; por isso, recebia uma série de privilégios honoríficos e sociais), Maluginense, ainda assim, tentou obter para si o proconsulado da Ásia, a que tinha teoricamente direito pelo seu “status” consular; mas, no debate que se seguiu no Senado (22 dC), justamente Lêntulo, o Áugure, convenceu o Imperador Tibério de que a antiga tradição devia ser cumprida – e bloqueou a tentativa de Maluginense[36].

Teve uma filha, chamada Coscônia Galita (o que faz presumir que sua esposa fosse uma Coscônia Gala), que seria esposa de Sejano[37], e pelo menos um filho, Sérvio Cornélio Lêntulo Cétego, cônsul 24 dC, e procônsul da África nalguma data entre 40 e 50 dC[38].

Lêntulo Cétego, de qualquer forma, não teve filhos homens – apenas uma filha, que casou-se com um Salvidieno Orfito. A fim de perpetuar o nome da família, Sérvio adotou testamentariamente o genro, que passou então a se denominar Sérvio Cornélio (Lêntulo Cétego Cipião) Salvidieno Orfito; ele foi cônsul 51 dC e procônsul da África 61-62 dC; dele originaram-se inúmeras “stirpes” nobres, que carregaram os nomes “Cornélio”, “Cipião” e “Cétego” até ao séc. VI dC. A linha masculina continuou, ininterrupta, pelo filho de Salvidieno Orfito, Sérvio Cornélio Salvidieno Orfito (sufeta entre 80 e 87 dC – ele não usou nem o cognome “Lêntulo”, nem o cognome “Cipião”, talvez por prudência, já que se estava na época do desconfiado Imperador Domiciano); pelo filho desse Orfito, Sérvio Cornélio Cipião Salvidieno Orfito, cônsul 110 dC, prefeito urbano de Roma 138 dC; por seu filho homônimo, Sérvio Cornélio Cipião Salvidieno Orfito, cônsul 149 dC e procônsul da África 163-64 dC; por seu filho, Sérvio Cornélio Cipião Orfito, cônsul 178 dC, e, por fim, pelo filho deste, mais um Sérvio Cornélio Cipião Orfito, que foi sálio palatino em 189 dC e, morrendo jovem e sem herdeiros masculinos, representou a extinção do ramo principal[39]. Contudo, no que diz respeito aos Lêntulos propriamente ditos, o primeiro dos Salvidienos Orfitos pode ser considerado como o ponto final da linhagem – mesmo porque nem ele, e nem nenhum de seus descendentes utilizaram o cognome “Lêntulo” – preferiram usar o mais pomposo (e famoso) de “Cipião”, mais uma vez enfatizando a tênue linha que ia até aos Lêntulos Marcelinos e ao casamento de um deles com a filha dum Cipião Násica, como se viu.

Fica-se apenas, agora, com os descendentes de Cosso Cornélio Lêntulo, o vencedor dos gétulos. Ele teve dois filhos: Cosso Cornélio Lêntulo Getúlico, o mais velho, cônsul 25 dC, e o mais novo (e mais famoso), Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico, cônsul 26 dC, e uma mulher, Cornélia Getúlica[40]. Pode-se notar nesses três filhos do velho Cosso, e no próprio, o embrião dum verdadeiro “poder paralelo”, ou, se se quiser, duma “facção”. Cosso, o pai, como se viu, foi amigo íntimo de Tibério, e prefeito urbano de Roma de 33 dC a 36 dC, quando morreu. Cosso, o filho, após o seu consulado, foi o comandante (legado) encarregado da área militar da Germânia Superior (i.e., do sul da fronteira do Reno), com quatro legiões estacionadas, além de numerosas tropas auxiliares (c. 26 dC até 29 dC) – e foi sucedido nesse comando por seu irmão Gneu, de 29 dC até 40 dC, quando Calígula o prendeu e o mandou executar, acusando-o de conspiração. Mais ainda, a irmã de Gneu e do jovem Cosso, Cornélia Getúlica, casou-se, por sua vez, com Gaio Calvísio Sabino, colega de Gneu no consulado de 26 dC, e governador da Panônia de 36 a 39 dC – uma província na qual estacionavam duas legiões.

É difícil saber ao certo se Gneu Getúlico realmente esteve envolvido nalgum tipo de conspiração contra Calígula – talvez não. Mas o fato é que permaneceu no comando das quatro legiões da Germânia Superior, ininterruptamente, desde 29 dC; mais ainda, era casado com Aprônia Cesiana, filha de Lúcio Aprônio, cônsul sufeta 8 dC, procônsul da África 18-21 dC, e comandante da região militar da Germânia Inferior (i.e., do norte da fronteira do Reno), com mais quatro legiões e tropas auxiliares, desde c. 24 dC.

Assim, de c.26 dC até 36 dC, oito legiões (quatro da Germânia Superior e quatro da Inferior) estavam sob o comando, direto ou indireto, dos Lêntulos Getúlicos; e, de 36 até 39 dC, dez, contando as duas de Sabino na Panônia – quase a metade de todo o exército imperial romano. O apogeu dessa situação ocorreu, sem dúvida, nos últimos tempos de Tibério, mais especificamente o ano 36 dC, quando o velho Cosso era prefeito urbano de Roma, seu filho Gneu comandava quatro legiões, seu genro Sabino (casado com sua filha Cornélia Getúlica) mais duas, e o pai de sua nora (Aprônio), casada com Gneu, mais quatro. Isso sem contar as ligações que o velho Cosso havia sem dúvida estabelecido na África, especificamente no reino da Mauritânia, desde suas campanhas vitoriosas na região.

Como quer que fosse, uma situação como essa era totalmente anômala, e capaz de tirar o sono de qualquer Imperador – ainda mais do desconfiado e um tanto desequilibrado Calígula, que sucedeu a Tibério em 37 dC. Gneu Getúlico já havia demonstrado estar por demais apegado ao seu comando[41], e pior, estava mais interessado em cortejar a popularidade dos soldados do que em manter a disciplina[42] – há evidências palpáveis de deterioração na capacidade combativa das forças tanto de Getúlico quanto de seu sogro, diante dos germanos: a partir do ano 28 dC, os frísios enfrentaram os romanos com sucesso na Germânia Inferior, e, pelos fins do reinado de Tibério, incursões bárbaras na fronteira da Germânia Superior tinham-se tornado comuns[43].

Mas Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico era também um homem sofisticado – um poeta de mérito. De fato, nove epigramas da Antologia Palatina, num grego elegante, levam o seu nome; ele é louvado por Plínio o Moço[44], e citado pelo poeta Marcial, no prólogo de suas obras, como um precedente para justificar a liberdade poética no uso da linguagem. Getúlico tentou usar seus dotes literários para conquistar Calígula – há indícios de que tenha escrito uma obra em prosímetro (ou duas obras, uma em versos e outra em prosa), de conteúdo laudatório, acerca da expedição que o Imperador intentava contra a Britânia – quem sabe esperando comandar as tropas nessa que parecia ser mais uma gloriosa campanha militar… Mas não funcionou.

Em 39 dC, Calvísio Sabino foi chamado de volta a Roma, sob acusação de conspiração – ele e a esposa, Cornélia, acharam melhor cometer suicídio. Em 40 dC, Calígula, agindo rapidamente, a partir de agentes especialmente enviados, exonerou Aprônio de seu comando da Germânia Inferior (ele, contudo, não foi morto, já que o filho de Aprônio, Lúcio Aprônio Cesiano, era amigo pessoal de Calígula, e colega desse Imperador no consulado de 39 dC – isso, aparentemente, salvou a vida do pai) e, ao mesmo tempo, acusando Getúlico de conspirar contra sua vida, prendeu-o e executou-o imediatamente. Na mesma época, convidou o rei Ptolomeu, da Mauritânia, a uma visita a Roma; lá, mandou prendê-lo e matá-lo, iniciando o processo de conversão de seu reino em província romana.

Para o comando das duas Germânias – isto é, para a guarnição da fronteira do Reno, e para fazer frente aos bárbaros germanos – Calígula nomeou dois militares experientes e dedicados: Públio Gabínio Segundo para a Germânia Inferior e Sérvio Sulpício Galba (o futuro Imperador) para a Germânia Superior. Além de levantarem duas novas legiões, para a planejada campanha de conquista da Britânia (que, afinal, seria iniciada pelo sucessor de Calígula, Cláudio), eles se esmeraram em restaurar a combatividade e a disciplina das forças romanas, tanto legionárias quanto auxiliares, treinando-as repetidamente em manobras, mantendo-as ocupadas com atividades de construção (paliçadas, estradas militares, fortificações) e, enfim, liderando-as em incursões limitadas ao território germano, além do Reno, com o objetivo de amedrontar os bárbaros e de dissuadi-los de qualquer tentativa de invasão. O sucesso dessa nova política pode ser medida pelos seguintes versos, que logo se tornaram populares entre os soldados de Galba:

Aprende, ó soldado, a seres um soldado:

Agora tens Galba, não mais Getúlico![45]

A ira do Imperador, contudo, não se alastrou à famílias de Getúlico. Os descendentes de ambos os filhos do velho Cosso tiveram carreiras normais, inclusive com mais dois cônsules – mas não mais se ouvem falar de comandos militares. Embora sua influência social e seu “status” dentro da velha nobreza e da alta sociedade de Roma tenham permanecido intactos, sua influência política e, mais precisamente, militar, havia acabado.

Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico teve com certeza três filhos, dois homens e uma mulher. Da mulher, Cornélia Cesiana (indicando no cognome o fato de ter como mãe Aprônia Cesiana, a filha de Lúcio Aprônio), restou apenas o epitáfio, encontrado na cripta dos Cipiões[46].

Dos filhos, um seu homônimo, Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico, o Moço, foi cônsul sufeta 55 dC, sem descendentes conhecidos; o outro, Cosso Cornélio Lêntulo, filho de Gneu, foi o pai daquela infeliz Cornélia que, no ano 62 dC, foi cooptada para o colégio das Virgens Vestais[47]; mais tarde, pelo ano 90 dC, sob o império de Domiciano, já como Grande Vestal (virgo vestalis maxima), foi enterrada viva, segundo o costume antigo, acusada de adultério. O pai de Cornélia não atingiu o consulado, pelo que se depreende que morreu antes de poder vir a fazê-lo – ao menos um consulado sufeta ter-lhe-ia sido concedido, pela sua nobreza. Nenhum outro descendente é conhecido; assim terminou a progênie do cônsul de 26 dC, o poeta e comandante das tropas do Reno.

O irmão de Gneu, Cosso Cornélio Lêntulo Getúlico (cônsul 25 dC), teve um filho homônimo, Cosso Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Cosso, que foi cônsul 60 dC, tendo o próprio Imperador Nero como colega. Conhece-se dele um filho, que foi adotado testamentariamente por Décimo Júnio Silano, e que passou a denominar-se Décimo Júnio Silano Getúlico[48]. Ele foi cooptado em 63 dC pelo colégio sacerdotal dos sálios colinos[49]; não chegou ao consulado, presumindo-se que tenha morrido relativamente jovem. Casou-se com uma Lutácia, talvez a última descendente dos nobres Lutácios Cátulos; dela teve um filho, Marco – em cuja nomenclatura constavam os nomes dos Júnios Silanos e dos Lutácios Cátulos, e em cujas veias corria o sangue dos Lêntulos Getúlicos – portanto, dos Lêntulos Marcelinos e, em última análise, bem indiretamente, dos Cipiões Násicas. Melhor pedigree, impossível. A família ainda era, apesar de tudo, nobre e rica, e o rapaz, sem dúvida, era um dos “bons partidos” de Roma – talvez destinado a se casar com a filha dum dos “novos ricos”, emergentes, de origem italiana ou mesmo provinciana, hábeis, eficientes, totalmente dedicados ao Imperador, que agora monopolizavam os comandos militares e os importantes cargos públicos. Quantas esperanças não estariam depositadas nele!…

O jovem Marco começou bem sua carreira; foi associado ao colégio sacerdotal dos sálios colinos, da mesma forma que o pai[50], e começou sua carreira pública, como outros Lêntulos já citados, exercendo o cargo de decênviro para julgamento de assuntos relativos à cidadania (decemvir stlitibus iudicandis). Mas, aos 20 anos e 9 meses de idade… morreu.

A placa de mármore com seu epitáfio, que marcava o lóculo na cripta dos Cipiões onde outrora encontrava-se sua urna cinerária, sobreviveu intacta; dela são as duas imagens a seguir[51]. Em letras cuidadosamente cinzeladas, consta sua impressionante (e orgulhosa) titulatura e ascendência:

Apresentação e Transcrição:

M IVNIVS SILANVS

D SILANI F GAETVLICI

NEPOS COSSI PRON

LVTATIVS CATVLVS XVIR

STLITIB IVDIC SALIVS COLLIN

VIXIT ANNIS XX MENSIBVS VIIII



M(arcus) Iunius Silanus / D(ecimi) Silani f(ilius) Gaetulici / nepos Cossi pron(epos) / Lutatius Catulus Xvir / stlitib(us) iudic(andis) salius collin(us) vixit / annis XX mensibus VIIII



Tradução:

Marco Júnio Silano Lutácio Cátulo, filho de Décimo Silano, neto de Getúlico, bisneto de Cosso, decênviro para julgamento de assuntos relativos à cidadania, sálio colino, viveu 20 anos e 9 meses.



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Quantas esperanças, quantos projetos de reerguimento político, de recaptura de influência enfim, não teriam morrido juntamente com esse jovem; ele foi, de fato, o último dos Lêntulos “de sangue” atestados. Após sua morte, talvez ocorrida entre os anos 80 e 90 dC, apenas os Salvidienos Orfitos, por linha feminina, mantiveram-se – contudo, não mais utilizando o cognome Lêntulo, e sim os de Cipião e de Cétego, como visto. Seguindo-se às exéquias de Marco, fechou-se definitivamente a cripta dos Cipiões, ninguém mais lá sendo inumado, e encerrando-se um ciclo da História de Roma[52].

Concluindo esta parte do trabalho, pode-se ver que, ao contrário do que se possa pensar à primeira vista, sabem-se muitas coisas acerca da família dos Lêntulos na primeira época imperial romana. Evidentemente, há lacunas, e mesmo alguns pontos incertos, mas o quadro geral é razoavelmente claro, como se espera ter podido mostrar. Não há, assim, como se alegar (como muitas vezes é feito por aqueles que, desesperadamente, querem justificar a existência de “Públio Lêntulo”, o contemporâneo de Cristo) que “não há registros suficientes ou fidedignos”, ou que “os documentos originais se perderam”. A união dos testemunhos literários, epigráficos e mesmo numismáticos permite pintar um quadro razoavelmente coerente, e mesmo detalhado, para a época, fornecendo um pano de fundo contra o qual se pode comparar o testemunho de “Emanuel”, que pretende ter sido um dos membros (não atestado) dessa família, na primeira metade do séc. I dC.

II.3) Estrutura Administrativa do Império Romano sob Augusto e os Júlio-Cláudios:

II.3.1) Províncias “de César” e províncias “do povo”:

Após o final das guerras civis, com a vitória definitiva de Otaviano (o futuro Augusto) diante de Marco Antônio e Cleópatra, inicialmente na batalha naval do promontório de Ácio, no Épiro (31 aC), e depois com a conquista do Egito (30 aC), seguindo-se o suicídio de seu rival e da última representante dos Ptolomeus, o mundo mediterrânico, governado, direta ou indiretamente, por Roma, ansiava por paz e estabilidade. Medidas extraordinárias, mesmo à margem da lei, que podiam ter sido justificadas em épocas mais conturbadas, tinham, de algum modo, de cessar – as coisas deviam retornar à normalidade, e isso incluía o governo e a administração.

Contudo, uma volta à antiga República era impossível; o chefe do partido vitorioso, Gaio Júlio César Otaviano, sobrinho-neto e filho adotivo (testamentariamente) de Gaio Júlio César, o Ditador, não iria abrir mão de seus poderes extraordinários. Aliás, nem se esperava que o fizesse. O governo de um só parecia a todos, sem exceção, ser a garantia de que as guerras civis, que se vinham estendendo num crescendo desde 133 aC, não mais voltariam, e de que haveria ordem, progresso e paz[53]. Os homens, então como em muitas outras ocasiões da História, estavam dispostos a trocar uma possível “liberdade”, difícil de conquistar e manter, por uma “prosperidade material” palpável, imediata e real. Essa situação é ainda bem captada pelo início da grande obra do historiador Tácito (c.56 – c. 117 dC), “Anais”, que cobria o período compreendido entre a morte do Imperador Augusto e o suicídio de Nero (14 a 68 dC):



[1] No princípio, Roma foi governada pelos reis. A liberdade e o consulado foram estabelecidos por Lúcio Bruto, com o uso temporário das ditaduras apenas nos tempos de crise. Mesmo o poder dos decênviros não durou mais do que dois anos, e nem a jurisdição consular dos tribunos militares foi longa. Os despotismos de Cina e de Sila foram breves; o poder de Pompeu e de Crasso logo curvou-se diante de César, e as armas de Lépido e de Antônio terminaram por se submeter a Augusto, o qual, enfim, estando o Império farto das guerras civis, subjugou-o à sua vontade e intitulou-se Príncipe. Mas, se os feitos memoráveis de outrora foram escritos por famosos historiadores, intelectuais de brilho declinaram de escrever sobre os tempos de Augusto, amedrontados pelo crescente servilismo. As histórias dos governos de Tibério, Gaio [i.e., Calígula], Cláudio e Nero, por outro lado, enquanto estes encontravam-se no poder, foram falsificadas pelo terror, tendo sido, após suas mortes, reescritas num espírito de vingança. Assim, meu propósito é relatar alguns fatos acerca de Augusto (mais particularmente seus últimos atos), e depois o império de Tibério e o de seus sucessores, sem rancor ou parcialidade, sentimentos dos quais encontro-me bastante distanciado. [2] Após a derrota de Bruto e de Cássio, não havendo mais exércitos que lutassem pela causa republicana; após a derrota de Pompeu na Sicília; após Lépido ter sido afastado e Antônio eliminado: restava apenas um único líder, o da facção juliana, Augusto, que, despojando-se do título de triúnviro, mas mantendo o poder consular e a autoridade tribunícia para a proteção do povo, conquistou os soldados com donativos, a plebe com trigo barato e todos com o alívio representado pelo fim das contendas civis, fazendo seu poder crescer degrau a degrau, concentrando em suas mãos as funções do Senado, dos magistrados e das leis. Tudo isso ele conquistou sem oposição, já que os mais aguerridos espíritos haviam tombado nas guerras, ou haviam sido vitimados pelas proscrições, enquanto os aristocratas sobreviventes, prontos para aceitar a servidão, foram contentados com riquezas e promoções, e de modo tal que, tendo sido suas fortunas aumentadas pelo novo regime, passaram a preferir a segurança do presente às incertezas do recente passado. E nem as províncias mostraram-se insatisfeitas com o novo estado das coisas, pois odiavam o governo do Senado e do povo romano, por causa das rivalidades que percebiam entre as lideranças e da rapacidade exibida pelos administradores, não lhes servindo a proteção das leis para nada, continuamente desrespeitadas que eram pela violência, pelas intrigas e pela corrupção.

(Tácito, “Anais”, livro I, capítulos 1 e 2)

Otaviano (que desde 27 aC tomou o título de “Augusto”) teve sucesso onde seu tio-avô César e os demais senhores-da-guerra haviam falhado porque soube ser prudente e mais dissimulado (ou, se se quiser, mais hipócrita): mostrou sempre o maior respeito pelas antigas instituições romanas, pelo Senado, pelos magistrados – mas, na prática, instituiu uma nova ordem de coisas, oculta pela antiga nomenclatura. Não podia ser chamado “rei” (rex, basileus) – desde a expulsão dos reis, os romanos haviam jurado que jamais dobrariam os joelhos diante dum déspota. Era o princeps, o “primeiro cidadão”, e o Estado romano continuou, até ao fim, a ser chamado respublica, “coisa pública”, e a ostentar nas inscrições oficiais a abreviatura SPQR (senatus populusque Romanus - “o Senado e o Povo Romanos”). Todavia, Augusto era um monarca em tudo, exceto no nome. Construiu seu poder em cima de três pilares:

· o imperium proconsulare maius: tinha os poderes de um cônsul (especialmente o comando dos exércitos), tanto em Roma quanto em todos os territórios romanos, sendo ainda seu poder consular um poder “maior” (maius) do que o de qualquer outro cônsul ou procônsul – base militar do novo regime;

· a tribunicia potestas: tinha o poder tribunício, ou seja, sem ser tribuno, gozava de todos os direitos do ofício (a inviolabilidade pessoal, o direito de proteger os plebeus contra qualquer ato dos magistrados, o direito de veto sobre as decisões do Senado, etc.) – base civil do regime;

· o sumo pontificado (summum pontificatum): após esperar pacientemente pela morte de Lépido, ele, que já era membro do colégio sacerdotal dos pontífices, fez-se eleger Sumo Pontífice (Pontifex Maximus), chefe da religião estatal romana, última palavra no que tangia à interpretação e à aplicação da lei divina – base religiosa do regime.

Se César havia anexado a Gália e a Numídia, Otaviano encetou guerras apenas com o sentido de “retificar” as fronteiras. Na Espanha, terminou enfim a conquista da península, esmagando os ástures e cântabros; na Europa, procurou primeiro atingir os rios Reno e Danúbio (criação das províncias da Mésia, 29 aC; da Récia e Nórico, 15 aC; da Panônia, 10 dC), e no Oriente anexou alguns reinos-clientes (Galácia e Panfília em 25 aC). Seu grande sonho foi a conquista de todos os germanos (como César havia conquistado os gauleses), criando a província da “Grande Germânia” (Germania Magna), do Reno ao Elba, mas a derrota catastrófica de Públio Quintílio Varo em 9 dC, na qual ele foi emboscado e morto, com a perda quase integral de três legiões (a XVII, a XVIII e a XIX, num total de cerca de 15.000 homens[54]), pôs um fim a esse projeto – a fronteira romana na Europa seguiria o Reno e o Danúbio, sendo a parte renana transformada em duas áreas militares (denominadas “Germânia Superior” e “Germânia Inferior”), destacadas da Gália e sob pesada guarnição (quatro legiões em cada uma, além de tropas auxiliares).

De qualquer modo, com a situação normalizando-se, Augusto sentiu que poderia proceder a uma reorganização dos governos provinciais, e dum modo tal a satisfazer o Senado sem perder seus poderes. Em 27 aC renunciou a todos os poderes extraordinários que havia assumido por ocasião da guerra contra Antônio, mas retendo o império proconsular maior e o poder tribunício[55], e, ao mesmo tempo, transferiu para o governo direto “do povo” (i.e., do Senado) uma série de províncias, geralmente as mais prósperas, e onde, no geral, não havia legiões estacionadas, mantendo as demais para si. Dando a palavra a um contemporâneo, o geógrafo Estrabão, natural de Amásia do Ponto:

[24, final] De todos os territórios que atualmente encontram-se sujeitos aos romanos, alguns são governados [indiretamente] por reis, enquanto outros são governados diretamente, recebendo a designação de “províncias”, e tendo governadores e coletores de impostos designados [por Roma] para os seus habitantes. Há também cidades livres, algumas das quais ligaram-se a Roma por tratados desde tempos imemoriais, enquanto outras receberam o privilégio da liberdade posteriormente, como uma distinção honorífica por serviços prestados. Alguns dinastas, chefes tribais e governantes de linhagem sacerdotal também estão sujeitos aos romanos; nesse caso, administram seus territórios e governam seus povos de acordo com suas antigas leis e costumes ancestrais. [25] As províncias sempre tinham sido divididas, quer dum modo, quer de outro. Atualmente, elas encontram-se organizadas de acordo com as disposições de César Augusto, já que, quando seus conterrâneos lhe conferiram o supremo poder, e ele tornou-se responsável pela guerra e pela paz, dividiu o Império em duas partes, designando uma para si e outra para o Povo. A sua parte seria constituída por todas as áreas que necessitassem de presença militar, ou seja, pelas áreas mais remotas e pelas vizinhas de povos ainda não conquistados, ou por aquelas que, inóspitas e carentes, com mais facilidade haveriam de se revoltar. Para o Povo foi atribuído o resto dos territórios, onde quer que houvesse regiões pacificadas e que pudessem ser governadas sem o recurso freqüente à força das armas. Ele dividiu cada uma das duas partes numa série de províncias, sua parte sendo chamada “de César” [i.e., as províncias imperiais], e a outra, “do Povo” [i.e, as províncias senatoriais]. Às províncias de César, ele enviou governadores e administradores por ele próprio nomeados, dividindo as regiões ora duma maneira, ora de outra, controlando-as de acordo com as necessidades. Para as províncias do Povo, o próprio Povo [i.e., o Senado, agindo em nome do “povo” romano] envia os respectivos magistrados, denominados procônsules. E esses últimos territórios [i.e., os “do Povo”] foram também divididos numa série de províncias, de acordo com as necessidades. O arranjo utilizado para as províncias do Povo fez duas delas de caráter consular: a Líbia [i.e., a África], com as partes sujeitas ao controle dos romanos, exceto as regiões que outrora pertenceram ao rei Juba e que atualmente estão sob o governo do rei Ptolomeu, seu filho [i.e., o reino da Mauritânia], e a Ásia, a ocidente do rio Hális e dos montes Tauro, com exceção da região dos gálatas e das tribos sujeitas ao rei Amintas, bem como da Bitínia e da Propôntide. E dez das províncias do Povo foram consideradas como pretorianas, na Europa e nas ilhas adjacentes, quais sejam: em primeiro lugar, a Hispânia Ulterior, como é chamada [i.e., a Bética, atual Andaluzia], na região dos rios Bétis [hoje Guadalquivir] e Anas [hoje Guadiana]; depois, a Gália Narbonense [hoje, sul da França]; em terceiro lugar, a Sardenha-e-Córsega; em quarto, a Sicília; em quinto e sexto, a parte do Ilírico perto do Épiro e a Macedônia; em sétimo, a Acaia, com a Tessália, a Etólia, a Acarnânia e certas partes do Épiro não inclusas na Macedônia; em oitavo, Cirene-e-Creta; em nono, Chipre; e em décimo lugar, a Bitínia-e-Ponto, juntamente com a Propôntide. César controla o restante das províncias, a algumas mandando homens de dignidade consular para as governar, a outras pessoas com a dignidade pretoriana, e a outras ainda membros da ordem eqüestre. Reis, dinastas e outros governantes autônomos estão, como sempre estiveram, ao dispor do Imperador, e sujeitos ao seu controle.

(Estrabão, “Geografia”, livro XVII, cap. 3, parágrafos 24, final, e 25)

O sistema é descrito de forma bastante semelhante por um historiador do séc. III dC, o senador Cássio Dião Coceiano, natural da Nicéia bitiniana:

[12.1] E assim ele [Augusto] teve sua supremacia ratificada tanto pelo Senado quanto pelo Povo. Contudo, apesar de ter tomado para si o cuidado de todos os assuntos públicos, sob o pretexto de que sua supervisão se tornava necessária, não queria ser considerado um déspota, [2] e portanto declarou que, apesar de tudo, não governaria pessoalmente todas as províncias, e mesmo as que governasse, poderia não vir a fazê-lo para sempre. Assim, restaurou ao Senado as províncias com menor presença militar, alegando que já se encontravam pacificadas e livres de guerras, retendo para si, ao contrário, as mais guarnecidas de tropas, afirmando que a situação nestas últimas era mais insegura e precária, quer por causa de inimigos além-fronteiras, quer pelo perigo de revoltas internas. [3] O motivo que apresentou para justificar tal ação foi o de querer que o Senado usufruísse da melhor porção do Império, enquanto com ele ficavam as maiores responsabilidades e perigos; mas seu propósito real foi o de manter os senadores sem acesso a exércitos, e desprovidos de apoio militar, ao passo que somente ele controlaria as forças armadas. [4] A África, a Numídia, a Ásia, a Grécia com o Épiro, os distritos da Dalmácia e da Macedônia, Creta e a porção da Líbia chamada Cirenaica, a Bitínia com o Ponto, a Sardenha e a Bética foram então devolvidas ao Povo e ao Senado, [5] ao passo que a César continuaram a pertencer o restante da Espanha, ou seja, o distrito de Tarragona e a Lusitânia, bem como todas as províncias gaulesas, ou seja, a Gália Narbonense, a Gália Lugdunense, a Aquitânia e a Bélgica, incluindo tanto os nativos dessas regiões quanto os estrangeiros que porventura lá estivessem. [6] Porque alguns dos Celtas, que nós chamamos “germanos”, tinham ocupado todo o território belga ao longo do rio Reno, fazendo com que fosse chamado “Germânia”, com limites se estendendo desde as fontes do rio até ao Oceano Britânico. [7] Assim, essas províncias, juntamente com a Celessíria, como é chamada, a Fenícia, a Cilícia, Chipre e o Egito, ficaram sob a responsabilidade de César; algum tempo depois, ele devolveu Chipre e a Gália Narbonense ao Povo, tomando para si, em troca, a Dalmácia. [8] Trocas dessa espécie foram efetuadas, ao longo do tempo, para algumas outras províncias, como o curso de minha narrativa tornará claro; contudo, fiz questão de, aqui, especificar a situação de todas essas províncias porque atualmente cada uma delas é governada separadamente, ao passo que, de início, e em alguns casos por longos períodos, algumas delas foram administradas em grupos de duas ou três. [9] Quanto às demais províncias [que hoje estão sob governo romano], não as menciono agora porque algumas delas foram conquistadas posteriormente, e, quanto às restantes, mesmo que já estivessem sob controle romano, não eram diretamente governadas pelo poder romano, sendo quer autônomas, quer administradas por reis. Todas aquelas que posteriormente vieram a ficar sob a soberania romana foram adicionadas às províncias governadas pelo Imperador.

(Cássio Dião, “História Romana”, livro LIII, cap. 12)

Os modernos historiadores, e com razão, preferem chamar as províncias “de César” de “províncias imperiais” (estando diretamente sob o controle do Imperador), e as províncias “do Povo” de “províncias senatoriais” (estando diretamente sob o controle do Senado, que agia “em nome do povo romano”). Mas o Imperador (fazendo uso de seu poder proconsular) tinha também o controle efetivo, quando e como quisesse, mesmo sobre as províncias senatoriais.

Para as províncias senatoriais, eram enviados dois ex-cônsules (caso da África e da Ásia) e (na época de Augusto) dez ex-pretores (para as demais), designados por sorteio; todos eles, contudo, quer ex-cônsules, quer ex-pretores, tinham o título de “procônsules”. Havia, desse modo, um “procônsul da África” (que era, efetivamente, um ex-cônsul), assim como, p.ex., um “procônsul de Chipre” (que era, na prática, um ex-pretor).

Não havia legiões estacionadas nas províncias senatoriais, com uma única exceção: a província da África, com uma extensa fronteira bordejando o Saara, tinha a III Augusta, além de tropas auxiliares[56] – já se viu como Lúcio Cornélio Lêntulo, procônsul da África, foi derrotado e morto, e como Cosso Cornélio Lêntulo, por suas vitórias, lá ganhou o nomen triumphalis de Getúlico. Ambos, sendo ex-cônsules, estavam agindo como procônsules duma província senatorial (“do povo”), nomeados por sorteio[57]. Era, contudo, uma situação anômala; no ano 40 dC, ao mesmo tempo em que mandava matar Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico por conspiração e executava o incompetente rei Ptolomeu da Mauritânia, incorporando seus territórios, Calígula retirou o comando da III Augusta das mãos do procônsul da África, confiando-o a um legado nomeado diretamente pelo Imperador e criando, na zona fronteiriça africana, um distrito militar (semelhante aos distritos militares da Germânia Superior e da Germânia Inferior, destacados das províncias gaulesas). A partir de então, o Senado não controlou mais nenhuma força militar.

Quanto às províncias imperiais (“de César”), havia três tipos delas, que podiam se enquadrar em cinco espécies distintas. Os tipos eram: a) as províncias que tinham tropas legionárias estacionadas (além de tropas auxiliares); b) as que não tinham tropas legionárias estacionadas, mas apenas tropas auxiliares; c) o Egito, uma categoria sui generis por si só (o Egito possuía tanto legiões estacionadas quanto tropas auxiliares).

Quanto às cinco espécies: as províncias do tipo “a” eram governadas por senadores, ex-cônsules (no caso de haver duas ou mais legiões estacionadas) ou ex-pretores (no caso de haver apenas uma legião estacionada), que recebiam indistintamente o título de legati Augusti pro praetore, “legados de Augusto com poderes propretorianos”. No caso da província possuir apenas uma legião estacionada, o legado propretoriano acumulava as funções de governador e de comandante dessa legião. As províncias de tipo “b” podiam ser de dois tipos: ou eram governadas por ex-pretores, que também recebiam o título de legati Augusti pro praetore (caso, p.ex., da Lusitânia, da Aquitânia, da Gália Lugdunense e da Bélgica, que não tinham tropas legionárias estacionadas), e eram chamadas “de primeira classe”; ou, se eram pequenas, ou consideradas, por qualquer razão, menos importantes (caso da Judéia, das províncias alpinas, das duas Mauritânias), eram governadas por membros da ordem eqüestre (a 2a ordem estamental da sociedade romana, por riqueza, abaixo dos senadores), tendo seus governadores o título de “prefeitos” (praefecti) ou de “procuradores” (procuratores), geralmente sob o controle indireto, para fins militares, duma província vizinha que dispusesse de legiões estacionadas; o Egito, enfim, a exceção das exceções, era governado por um membro da ordem eqüestre, que tinha o título de “prefeito do Egito” (praefectus Aegypti), mas que comandava as legiões estacionadas no país. Assim:

· As províncias imperiais com mais de uma legião estacionada eram governadas por ex-cônsules, que recebiam o título de “legados de Augusto com poderes propretorianos”; cada uma das legiões estacionadas era comandada por um “legado de legião” (legatus legionis), senador que tinha já atingido o cargo de pretor (i.e., um ex-pretor).

· As províncias imperiais com apenas uma legião estacionada eram governadas por ex-pretores, que também recebiam o título de “legados de Augusto com poderes propretorianos” e que acumulavam a função com o comando direto, como legati legionum, da legião presente.

· As províncias imperiais sem tropas legionárias estacionadas chamadas “de primeira classe”, eram governadas por ex-pretores que igualmente tinham o título de “legados de Augusto com poderes propretorianos”, os quais comandavam todas as tropas auxiliares eventualmente presentes. Embora não dispusessem de legiões, tais províncias eram ainda consideradas suficientemente importantes para merecer um governador de nível senatorial.

· As províncias imperiais sem tropas legionárias estacionadas chamadas “de segunda classe” eram governadas por membros da ordem eqüestre (não senadores), que tinham o título de “prefeitos” ou “procuradores”, e que comandavam as tropas auxiliares eventualmente presentes.

· Enfim, o Egito, especificamente, apesar de possuir legiões estacionadas, não era governado por senadores (ex-cônsules ou ex-pretores), mas sim por um membro da ordem eqüestre, que tinha o título de “prefeito do Egito” (mais tarde, de “Prefeito Augustal do Egito”), o qual, mesmo sendo da ordem eqüestre, estava no comando das legiões estacionadas. Para evitar conflitos e problemas de precedência, os comandantes das legiões estacionadas no Egito (i.e., os legati legionum) não eram senadores (ex-pretores), mas sim, igualmente, membros da ordem eqüestre (seria inadmissível que um senador, comandante duma legião, recebesse ordens dum governador eqüestre, seu inferior hierárquico na estrutura social)[58].

Essa, enfim, de modo bastante resumido, a estrutura administrativa do Império Romano no período de Augusto (31 aC – 14 dC) e dos Júlio-Cláudios (14 a 68 dC), seus sucessores imediatos, englobando os governos de Tibério (14 – 37 dC), Gaio, chamado Calígula (37 – 41 dC), Cláudio (41 – 54 dC) e Nero (54 – 68 dC). Note-se que houve algumas modificações de detalhe – principalmente, a criação de novas províncias imperiais, formadas usualmente a partir da absorção de antigos reinos-clientes: sob Augusto, a organização das províncias danubianas da Mésia (29 aC, mas reorganizada em 15 dC por Tibério), da Récia e do Nórico (15 aC) e da Panônia (10 dC), já citadas, e a absorção dos reinos da Galácia e da Panfília (25 aC, após a morte de seu rei Amintas) e da Judéia (6dC); sob Tibério, a absorção final do reino-cliente da Capadócia (17 dC, após o suicídio de seu rei Arquelau[59]) e da Comagena (anexada à província da Síria no mesmo ano, após a morte de seu rei Mitrídates III); sob Calígula, a extinção do reino da Mauritânia em 40 dC (organizado posteriormente por Cláudio no início de seu governo em duas províncias, a Mauritânia Cesariense e a Mauritânia Tingitana[60]); sob Cláudio, a absorção da confederação “independente” das cidades da Lícia (43 dC), a conquista da Britânia (a partir de 43 dC) e a absorção final do reino da Trácia (46 dC); ao longo de todo o período, a organização das províncias alpinas[61].

Por fim, note-se também que estava ao alcance do Imperador tanto criar uma província quanto desfazer o processo, sempre que julgasse necessário. Assim, a reclamação dos representantes judeus fez com que Augusto depusesse Arquelau e transformasse sua etnarquia na província da Judéia (6 dC); por ocasião de sua ascensão ao poder (41 dC), o Imperador Cláudio reverteu a situação, transformando novamente a Judéia num reino-cliente e dando-o ao seu amigo Herodes Agripa I, até à morte de Agripa (44 dC), quando, uma vez mais, a Judéia voltou ao governo romano direto. Em 37 dC, Calígula havia restaurado o reino da Comagena, dando-o, juntamente com a Cilícia Traqueótide, a Antíoco IV, o filho de Mitrídates III – ele reinaria até 72 dC, quando, acusado de ligações suspeitas com os partos, inimigos de Roma, foi deposto, sendo seu reino absorvido pela província da Síria. E, entre finais de 66 e inícios de 67 dC, Nero, por ocasião de seu giro teatral na Grécia, quando participou dos Jogos Olímpicos[62], restabeleceu a “liberdade” para a província da Acaia, extinguindo-a e tornando os gregos, novamente, “livres” e isentos de impostos[63]. A decisão seria revogada em 72 dC por Vespasiano – a província da Acaia foi restabelecida, e a “liberdade” e a isenção de impostos dos gregos, anuladas[64].

II.3.2) O “cursus honorum” dum senador:

Nessa mesma época de reformas e de consolidação administrativa, emergiu, de forma consistente, uma “carreira das honras”, i.e., uma “sucessão de cargos públicos” (cursus honorum) tanto para os senadores quanto para os cavaleiros, os dois mais altos grupos da sociedade[65] – ou seja, uma sucessão mais ou menos padronizada de cargos a serem ocupados, em parte herdada dos tempos republicanos, em parte adaptados às novas situações. Interessa aqui a carreira senatorial (cursus honorum senatorium), já que “Públio Lêntulo”, o senador contemporâneo de Cristo, a haveria necessariamente de seguir – quanto a isso, não havia exceções.

O “esqueleto” de tal carreira era constituído pelos postos juniores do “vigintivirato” e pelas antigas magistraturas anuais republicanas, exercidas na cidade de Roma (em ordem crescente de importância, e cronológica de ofício: a questura, o tribunato da plebe, a edilidade, a pretura, e enfim o consulado); ao longo desse esqueleto, foram sendo adicionados outros novos cargos, de modo que, na época dos Júlio-Cláudios, a estrutura como um todo tinha o seguinte aspecto:

· Entre os 18 e os 20 anos, o jovem filho de senador estreava num dos 20 postos juniores conhecidos como “vigintivirato”, todos exercidos na cidade de Roma; eram eles: os decênviros (comissão de 10 pessoas) para julgamento de assuntos relativos à cidadania (decemviri stlitibus iudicandis); os triúnviros (comissão de 3 pessoas) encarregados da cunhagem ou fundição de ouro, prata e cobre, também chamados de triúnviros monetários (triumviri auro argento aere flando feriundo, ou triumviri monetales), os triúnviros (comissão de 3 pessoas) responsáveis pelo julgamento de ações que podiam resultar, para os cidadãos, em pena de morte (triumviri capitales) e, enfim, os quatuórviros (comissão de 4 pessoas) encarregados da manutenção da limpeza das ruas de Roma (quattuorviri viis in Urbe purgandis, ou quattuorviri viarum curandarum).

· Usualmente depois disso (algumas vezes antes), o jovem procurava ser associado a algum cargo religioso; nisso, contava a influência dos pais, da família, dos contactos sociais, a fim de se arranjar ao postulante um lugar o mais prestigioso possível num dos exclusivos colégios sacerdotais de Roma: o dos qüindecênviros para assuntos sagrados, o da Irmandade Arval, os dos sálios (colinos ou palatinos), o dos áugures, o flaminato de Júpiter, o flaminato de Marte, especialmente o colégio dos pontífices (cujo chefe, Pontifex Maximus, era sempre o Imperador, que atuava assim como o líder da religião estatal romana).

· Seguia-se a estréia na carreira militar, fora de Roma. Os cidadãos comuns iniciavam sua carreira militar como simples soldados; os membros da ordem eqüestre, como oficiais de 2a linha, almejando chegarem a centuriões e, daí, alavancarem suas carreiras[66]. Os jovens filhos de senadores começavam seu serviço militar como tribunos militares. Cada legião possuía seis tribunos militares, oficiais seniores, que auxiliavam o legado no seu comando. Desses seis postos, cinco eram reservados à ordem eqüestre (tribunos ditos “angusiclavos”[67]), e um era exclusivo para filhos de senadores (tribuno dito “laticlavo”[68]). O tempo de serviço variava bastante; esperava-se que o jovem servisse no mínimo um ano, na média dois ou três. Mas havia os que se identificavam com a carreira militar, e serviam bem mais – mas, se servissem por muito mais tempo do que a média, poderiam atrasar seu “cursus”.

· Logo depois, o rapaz podia exercer a questura (idade mínima, 25 anos, completados em serviço); originariamente, os questores administravam as finanças do Estado (os triumviri monetales cuidavam exclusivamente da cunhagem das moedas); mas passaram também a atuar como auxiliares financeiros junto aos procônsules, nas províncias senatoriais. Assim, havia 20 questores no total, sendo 8 em Roma e 12 nas diversas províncias senatoriais. Ao exercer a questura, o jovem filho de senador ganhava enfim um assento no Senado, tornando-se um senador de pleno direito.

· Seguia-se o tribunato da plebe, ou a edilidade (idade mínima, 28 anos, completados em serviço), em Roma. Os tribunos da plebe (em número de 10) ainda eram tecnicamente os magistrados encarregados de defender os plebeus; os edis (em número de 6, sendo 3 “edis plebeus” e 3 “edis curuis” – a diferença era irrelevante, e ligava-se a tecnicalidades e precedência) haviam perdido muitas de suas funções originais, mas ainda eram os responsáveis pela manutenção da ordem pública nas ruas de Roma, bem como pelo recolhimento de certas multas. Essa etapa não se aplicava aos patrícios – patrícios não podiam ser nem tribunos da plebe, nem edis. Plebeus obrigatoriamente tinham que passar por essa fase.

· Vinha a seguir a pretura (idade mínima, 30 anos, completados em serviço). Esse era o ponto crítico, o “filtro”, o “funil” da carreira senatorial. Havia 12 pretores, sendo dois em Roma: o pretor urbano (praetor urbanus) e o pretor peregrino (praetor peregrinus); as atribuições do cargo eram de ordem judiciária – em Roma, o pretor urbano julgava casos envolvendo cidadãos romanos, e o pretor peregrino, casos envolvendo não cidadãos. Nas províncias, pretores atuavam sempre em missões judiciais, usualmente nas províncias imperiais. Ao exercer a pretura, o senador entrava para o seleto grupo dos “pretorianos” (praetorii).

· Após a pretura, uma série de cargos (denominadas “funções pretorianas”) se abriam ao senador. Podia tornar-se curador do suprimento do trigo[69] (curatores frumenti dandi: 2 cargos, depois 4, exercidos em Roma); ou prefeito do tesouro de Saturno (praefecti aerarii Saturni: 3 cargos, exercidos em Roma, para cuidar do tesouro do Senado[70]); ou prefeito do tesouro militar[71] (praefecti aerarii militaris: 3 cargos, exercidos em Roma, para cuidar do caixa responsável pelo pagamento dos soldos e das reformas militares – ofício de responsabilidade, cujos detentores eram cuidadosamente escolhidos pelo Imperador); ou curador das estradas[72] (curatores viarum: 9 postos, na Itália, encarregados da manutenção das estradas); ou encarregado especial do Imperador em missões junto a cidades, ou para tratar de assuntos específicos de índole jurídica (curatores civitatum e legati iuridici: número variável, em Roma, na Itália e nas províncias senatoriais[73]); ou comandante duma legião (legatus legionis); ou procônsul duma província senatorial, exceto a Ásia e a África, reservadas aos ex-cônsules; ou legado propretoriano (legatus Augusti pro praetore) duma província imperial, quer uma na qual não houvesse uma legião estacionada, quer uma na qual houvesse apenas uma legião estacionada (nesse caso, seu cargo de governador confundia-se com o de comandante dessa legião).

· Seguia-se (ou podia vir a se seguir), enfim, o consulado (idade mínima, 42 anos, completados em serviço, se se tratasse dum plebeu; ou 32 a 35 anos, completados em serviço, se se tratasse dum patrício, ou se houvesse uma especial dispensa por parte do Imperador). O ofício, agora eminentemente ornamental, ainda representava a suprema magistratura do Império. Era exercido em Roma, onde, anualmente, havia dois cônsules “ordinários” (que tomavam posse no dia 1o de janeiro, e davam o nome ao ano), substituídos, ao longo do período, por um número variável de “sufetas”. Ao exercer o consulado (quer ordinário, quer sufeta), o senador entrava para o seletísismo grupo dos “consulares” (consulares), a “nata” do Senado.

· Após o consulado, o senador podia então exercer os cargos “de alto escalão”, mais cobiçados. Podia ser curador das margens do Tibre[74] (curatores alvei et riparum Tiberis: cinco cargos, em Roma, encarregados da manutenção dos esgotos e da navegabilidade e estabilidade das margens do Tibre; era ofício largamente ornamental, mas prestigioso); ou curador das águas[75] (curator aquarum: um cargo, em Roma, encarregado do abastecimento d’água e da manutenção dos aquedutos da capital); ou curador dos edifícios públicos[76] (curatores aedium sacrarum et operum locorumque publicorum: dois cargos, em Roma, encarregados da manutenção dos templos, monumentos e edifícios públicos); ou procônsul da Ásia ou da África; ou, enfim, e principalmente, legado propretoriano de províncias imperiais nas quais houvesse duas ou mais legiões estacionadas (legati Augusti pro praetore) – como a Síria, ou as duas Germânias.

· Como um coroamento da carreira, aberto apenas a uns poucos, podia exercer um segundo consulado, ou um terceiro, em casos excepcionalíssimos[77]; e poderia terminar como prefeito urbano de Roma[78] (praefectus Urbis), pináculo da carreira senatorial – como o velho Cosso Cornélio Lêntulo, amigo íntimo do Imperador Tibério.

II.3.3) Documentos, Arquivos e Correspondências Oficiais no Mundo Romano:

Seria o Império Romano, mais especialmente na época de Augusto e dos Júlio-Cláudios, uma “burocracia”, no sentido moderno da palavra? Eram todos os atos administrativos anotados por escrito, e arquivados ordenadamente, de modo a poderem ser consultados? Havia troca efetiva e contínua de correspondência entre o governo central, em Roma, e os governadores das províncias (das províncias imperiais para o Imperador, e das províncias senatoriais para o Senado)?

Podem ser respondidas as perguntas do parágrafo anterior, de modo genérico, com a seguinte assertiva: a formalização, a fixação por escrito e a guarda de documentos era importante[79], mas: a) essa guarda se fazia de modo relativamente descentralizado, e b) tão importante quanto isso eram as teias de relacionamento pessoal, de patronato e clientela, e de comunicação oral.

As municipalidades e as famílias mais proeminentes sempre mantiveram arquivos, isto é, coleções de documentos de seu interesse – e Roma era originariamente uma cidade-Estado. Foi no exemplo romano republicano do arquivo público – o tabularium – que se desenharam tanto os arquivos municipais ao longo de todo o Império quanto, posteriormente, os arquivos dos governadores das províncias e, mesmo, o arquivo do Imperador (separado do arquivo público).

Quando o direito de cidadania foi sendo estendido em bloco a várias comunidades urbanas, principalmente no Ocidente, suas cartas municipais foram decalcadas na antiga administração municipal da Roma republicana – e incluíam instruções acerca dos arquivos públicos. É a partir de alguns desses documentos que sobreviveram, bem como de citações esparsas e casuais em diversas fontes literárias, que se pode ter uma idéia de como eram tais arquivos, e o que continham. O mais notável desses documentos é a chamada lex Irnitana, a lei de constituição do município de Irni, na província da Bética (atual Andaluzia, sul da Espanha), datada de 91 dC[80].

Desses testemunhos sabe-se que cada municipalidade possuía um arquivo oficial, num prédio próprio (usualmente no fórum: perto da basílica, onde eram tratados os assuntos judiciais; da sala do conselho municipal; e dos principais templos do culto cívico), sendo tanto o arquivo em si quanto o prédio denominados tabularium. Em Roma, o primitivo tabularium funcionou (junto com a casa da moeda) no templo de Saturno, nos contrafortes da colina capitolina, até que, após o violento incêndio de 83 aC, Sila, o Ditador, construiu um esplêndido edifício em separado, no local, para os arquivos do Estado, edifício esse que ficou conhecido desde então como o “Tabulário de Sila” (as obras somente terminaram em 69 aC).

Mas o que se guardava nesses arquivos? Como o próprio nome diz, guardavam-se tabulae, literalmente “tábuas”. A palavra latina tabula podia ser utilizada para qualquer superfície plana e rígida na qual se escrevia um texto: fossem placas de bronze[81], ou uma lousa branca e lisa[82], mesmo uma simples tabuinha encerada[83] – ou seja, incluía tanto meios de preservação permanente quanto temporária. Originariamente ao menos, não estavam incluídos documentos em papiro, muito menos no bem mais caro e escasso pergaminho.

Dos documentos originariamente presentes num tabularium, apenas as tábuas de bronze se adequavam a uma preservação permanente – e, além de tábuas (placas finas) de bronze, os textos muito importantes podiam ser inscritos em paredes voltadas à rua ou em monumentos públicos, tanto com a finalidade de preservá-los quanto com a de torná-los os mais conhecidos possíveis[84]. As lousas brancas (album, plural alba) eram inscritas com tinta (atramentum), e laváveis, destinando-se a textos que seriam depois apagados e substituídos por outros. Esse também era o caso das tábuas enceradas (tabulae ceratae), geralmente de madeira, nas quais se aplicava uma fina camada de cera, sobre a qual se escrevia com estilete. Raspando-se a camada de cera, e substituindo-a por uma nova camada, tinha-se a tabuinha pronta para novo uso. A fim de proteger a mensagem, essas tabulae ceratae eram confeccionadas em duas folhas (“dípticos”), com as faces enceradas se fechando internamente, podendo o conjunto ser amarrado ou selado.

Papiro e pergaminho eram utilizados normalmente para a confecção de livros, mas, embora isso não seja dito explicitamente pelas fontes, é razoável supor que comunicações em papiro[85] acabassem por ser arquivadas. Mas constituíam-se em espécimes intermediárias: a) se o que os documentos originais continham era de suma importância, seria eventualmente providenciado um texto em bronze, para o tabulário, ou a confecção duma inscrição em pedra, ou ambos; b) se o conteúdo não fosse em absoluto importante para ser guardado, o material era rapidamente destruído, ou, se possível, reutilizado (apagado e reescrito, ou então reescrito no verso); c) se se requeria uma resposta a um assunto corriqueiro, ela era dada usualmente no próprio documento original – quer na frente, se houvesse espaço, quer no verso; d) enfim, se o conteúdo, ou o assunto tratado, ou a resposta demandada, se revestissem duma certa importância, mais do que corriqueira, mas não vital, podia-se guardar o documento original nos arquivos, ao menos durante algum tempo.

Nesse último caso, as folhas ou tiras de papiro (muito raramente, os rolos) podiam resistir por décadas, talvez por uns poucos séculos. Mas, de tempos em tempos, o acúmulo de material teria forçado uma limpeza daquilo que não tivesse apodrecido com a umidade, ou tivesse sido roído por insetos, ou tivesse sido presa de incêndios (tão comuns no mundo antigo[86]). Ou seja, no que concerne aos arquivos públicos, apenas o que fosse efetivamente gravado em bronze (ou em pedra) tinha alguma chance de sobreviver por bastante tempo.

Seguindo os textos das leis municipais existentes, sabe-se com razoável precisão quais os documentos, provisórios ou permanentes, que compunham um arquivo municipal típico:

· Inicialmente, e antes de tudo, a própria carta municipal, em tábuas de bronze – foi desse modo que porções consideráveis da Lex Irnitana, da Lex Salpensana e da Lex Malacitana, p.ex., sobreviveram;

· Acta (literalmente: “atos”, “decisões”) e Commentarii (literalmente: “relatórios”): transcrições das sessões, quer do conselho municipal (curia), formado pelos senadores municipais (decuriones, decuriões), quer das assembléias populares (comitia), incluindo eleições, bem como observações acerca desses atos. As notas originais eram tomadas, sem dúvida, na ocasião, via tabuinhas enceradas; se houvesse algo de notável, poderia ser transcrito em papiro, e guardado por algum tempo. Casos verdadeiramente excepcionais podiam ser transcritos para o bronze e/ou para a pedra[87]. Podiam ser feitas transcrições das sessões em lousas brancas, que eram então expostas publicamente, durante algum tempo, para a informação de todos[88]. Terceiros interessados podiam tomar suas próprias notas, ou mesmo requisitar, posteriormente, cópias (se o texto estivesse disponível);

· Decreta Decurionum (literalmente: “decretos dos decuriões”): os decretos oficiais da assembléia (incluindo aspectos legislativos, judiciais ou honoríficos, recordando privilégios dados ou recebidos, etc.), depois de terem, a partir das acta e commentarii, sua redação final acertada, eram então lidos formalmente (recitatio) diante da assembléia, confeccionando-se então as tábuas de bronze a partir desse texto oficialmente aprovado e dado como definitivo. As tábuas eram depositadas no tabularium, e há indícios de que lá eram arquivadas ordenadamente, organizadas cronologicamente, por ano e por meses. Do mesmo modo, terceiros interessados podiam requisitar cópias, que eram transcritas em papiro por copistas profissionais, a partir da consulta aos arquivos do tabularium;

· Documentação Financeira e de Impostos: o tesouro municipal estava depositado num edifício à parte – a esse edifício, bem como ao tesouro que continha, chamava-se aerarium (em Roma, o erário público estava estabelecido no templo de Saturno, daí a expressão aerarium Saturni)[89]. Há indícios, contudo, de que, ao menos nalguns casos, a documentação referente ao estado das finanças municipais (total do numerário em caixa) encontrava-se arquivada no tabularium. Não em placas de bronze, contudo, mas usualmente em lousas brancas escritas com tinta, ou em rolos de papiros; qualquer que fosse o modo, tais documentos eram constantemente atualizados com os ingressos (entradas) e com os os gastos (saídas). É possível que existisse também um cadastro de devedores de impostos, com os nomes e quantias devidas, em atraso ou não, também permanentemente atualizado;

· Cadastro Municipal: envolvendo tanto aspectos públicos quanto privados: a) informações referentes aos limites do território sob jurisdição da cidade, bem como das subdivisões porventura existentes (distritos eleitorais ou fiscais, p.ex.); ao menos algumas dessas informações poderiam estar gravadas em tábuas de bronze, em inscrições públicas ou em marcos delimitadores de fronteiras; b) relação das propriedades públicas, com sua localização, tamanho, uso, rendimentos e, se fosse o caso, cópias de contratos de arrendamento ou aluguel; é razoável supor que tal relação fosse mantida em papiro, mas, de qualquer modo, era atualizada constantemente; c) nalguns casos, relação de propriedades privadas também, obtidas a partir do censo qüinqüenal (podiam também ser mantidas em papiro, e atualizadas constantemente); d) registro de multas – quase certamente, era mantido em lousas, muito raramente em papiros, mas, mesmo assim, estava em constante atualização; e) registro de decisões judiciais referentes a litígios entre cidadãos, condenações, etc., mantidos em papiros, mas atualizados de tempos em tempos (pode-se supor que, com alguma sorte, se pudesse obter registros de até 100 ou 200 anos do passado); f) nalguns casos, também o registro público de testamentos, provavelmente mantido em papiros, mas igualmente atualizado de tempos em tempos; g) registro de embaixadas recebidas ou enviadas[90] (se os assuntos tratados, e os resultados obtidos, eram realmente importantes, redundariam em decretos dos decuriões, e seriam arquivados como tábuas de bronze; caso contrário, seriam mantidos por algum tempo relatórios em papiro);

· Censo Municipal: a cada cinco anos procedia-se a um censo de todos os habitantes do município, anotando-se seus nomes, os de seus familiares e dependentes, que ofício exerciam, se eram ou não cidadãos do município e/ou cidadãos romanos[91], e suas respectivas fortunas, ou mais especialmente seus rendimentos médios anuais, avaliados em moeda sonante (nalguns casos também a relação detalhada de suas propriedades). Tal censo servia tanto para o lançamento dos impostos quanto para determinar o número de cidadãos, e quem poderia servir nos cargos públicos. Os dados também serviam para comprovar a identidade e os bens daqueles que estavam obrigados à prestação de serviços públicos, bem como para evidenciar os que eram obrigados a pagar os impostos, quer municipais, quer imperiais, incidentes sobre as pessoas e/ou sobre as propriedades e ofícios. Dados consolidados eram enviados à capital da província, e daí uma nova consolidação era enviada a Roma[92]. Pode-se supor que, a nível municipal, os dados do censo fossem conservados cuidadosamente em papiro, ao menos até ao censo seguinte;

· Fastos Municipais: incluíam a) a relação dos decuriões do ano; b) a relação dos magistrados do ano; c) a relação do pessoal auxiliar da administração (apparitores) a serviço dos magistrados; d) o calendário municipal, mostrando os dias festivos, os feriados e os dias impróprios para atividades oficiais (ou seja, os dias nos quais as assembléias populares e o senado local não se poderiam reunir, qualquer que fosse o motivo); era renovado a cada ano, constituindo-se sua confecção na primeira tarefa a cargo dos magistrados daquele ano. Os itens “a” a “c” eram mantidos em lousas brancas, renovadas a cada ano. Quanto ao item “d”, a forma específica, válida para o ano corrente, era mantida em lousas brancas, mas era usual que uma forma mais geral, fixa, que não variava, ou variava pouco, ao longo dos anos, fosse gravada numa parede, no fórum municipal, a fim de que todos pudessem ter acesso às informações. Esses calendários gravados podiam ser relativamente simples, ou altamente complexos. Incluíam os nomes dos meses e, para cada mês, o número de dias do mês, em que dia caíam as nonas e os idos, o elenco dos dias, um a um, indicando, para cada dia, se este era um feriado (e, no caso, qual feriado); podiam agregar informações agrícolas e astronômicas (ou astrológicas) de índole geral (para cada mês, duração média do dia e da noite; mensagens do tipo “equinócio da primavera”; “sol em Capricórnio”; “plantio do trigo”; “vindima”; etc.), e também uma lista, para muitos anos, tanto dos magistrados epônimos locais (os duúnviros) quanto dos cônsules romanos (que serviria como auxiliar para a datação dos documentos).

O elenco acima pode ser adaptado, com relativa facilidade, para o arquivo oficial de Roma, presente no Tabulário de Sila – as informações seriam basicamente as mesmas, apenas referentes ao Império como um todo, e mais detalhadas no que dizia respeito à cidade de Roma, à Itália e às províncias senatoriais. Tal processo é também válido para o arquivo do Imperador (tabularium principis), situado numa dependência da residência imperial da colina palatina, bem como para os arquivos provinciais (presentes nas capitais das províncias).

Assim, p.ex., no Tabulário de Sila constavam, em placas de bronze, os decretos do Senado (senatus consulta); os dados consolidados dos censos; as relações de províncias, tanto imperiais quanto senatoriais, com seus limites, distritos e cidades constituintes; os fastos municipais de Roma (i.e., o elenco, ano a ano, e levado desde a fundação da cidade, dos vigintiviri e de todos os magistrados tradicionais – questores, edis, tribunos da plebe, pretores e cônsules); os tratados celebrados com países estrangeiros, ou reis; algumas relações de embaixadas importantes enviadas por cidades; provavelmente também os fastos sacerdotais (relação, ao longo do tempo, dos ocupantes de cargos nos colégios sacerdotais da cidade). Em papiro, poderiam estar os acta e commentarii mais importantes das sessões do Senado (sendo possível talvez recuar uns 100 ou 200 anos), informações mais detalhadas dos últimos censos, os fastos das províncias (relação de governadores, fossem procônsules, legados propretorianos ou procuradores), correspondência com os procônsules nas províncias senatoriais, decisões judiciais várias e documentos de índole cadastral semelhantes aos já verificados para os arquivos municipais. Uma série de dados ou informações de interesse apenas momentâneo também seriam guardados e/ou exibidos publicamente em lousas brancas, como nos casos vistos para os arquivos municipais.

Nos arquivos provinciais, não se sabe se eram utilizadas tábuas de bronze. É possível que sim – e que incluíssem cópias dos decretos do Senado de interesse para a província, uma relação detalhada dos distritos e comunidades urbanas constituintes da mesma, bem como os fastos da província (relação dos governadores e pessoal auxiliar, ao longo dos anos). Em papiro (podendo-se talvez recuar uns 100 ou 200 anos), haveria dados censitários mais detalhados (incluindo-se impostos), decisões judiciais e correspondência com o Senado, ou com o Imperador, se fosse o caso. Do mesmo modo, uma série de informações relevantes apenas para o momento seriam disponibilizadas em lousas brancas, apagáveis e renováveis.

Enfim, no arquivo do Imperador provavelmente não se faria uso de tábuas de bronze – seria um arquivo constituído quase que integralmente de rolos ou folhas de papiro, ficando as tábuas de bronze no Tabulário de Sila. Os documentos constantes incluiriam relatórios detalhados em termos do censo das províncias, dos impostos, da situação das propriedades do Imperador em cada província (fosse senatorial ou imperial), das informações acerca dos exércitos estacionados nas diversas províncias (efetivo, localização, oficiais responsáveis, aerarium militare, etc.)[93], decisões judiciais referentes a casos apresentados diante do Imperador (por cidadãos romanos, em virtude de seu poder tribunício, e por provincianos, em virtude de seu poder proconsular) e eventual correspondência com os governadores das províncias imperiais (legados propretorianos ou procuradores).

Qual o grau de detalhe das correspondências trocadas entre o governo central e os governadores provincianos? Será que tudo seria reportado ao Imperador, ou ao Senado?

Sem dúvida, sabe-se que os legados propretorianos podiam receber instruções por escrito do Imperador, acerca do modo como deveriam proceder. Mas é possível que isso ocorresse apenas em casos especiais. Cita-se sempre o caso de Plínio, o Moço, que as recebeu do Imperador Trajano quando partiu para a Bitínia, c. 109 dC[94]; mas o caso de Plínio era, efetivamente, excepcional – a Bitínia era uma província senatorial que o Imperador havia tomado para si, por causa da progressiva deterioração de sua situação financeira, para lá enviando Plínio a fim de “pôr ordem na casa” – era natural que recebesse instruções específicas, nesse caso[95].

Decisões judiciais do Senado, bem como, cada vez mais, pronunciamentos do Imperador acerca de assuntos jurídicos, criavam precedentes que eram, a pouco e pouco, incorporados nas leis. Assim, além da prática jurídica, os arquivos imperiais tornaram-se a fonte dos grandes jurisconsultos que, a partir de Sálvio Juliano, sob o império de Adriano (117-138 dC), impulsionaram o estudo científico e a codificação do Direito Romano. Eles puderam se basear tanto em originais ainda presentes nos arquivos imperiais quanto em cópias guardadas por terceiros interessados, ou pelos arquivos provinciais. Mas isso é posterior à época dos Júlio-Cláudios.

Assim, os arquivos públicos estavam em constante mutação – os documentos em lousas brancas rapidamente desapareciam, e os guardados em papiros também acabavam perecendo, por acidente ou intencionalmente, após algumas poucas gerações. A essência desses arquivos, principalmente no que diz respeito aos aspectos jurídicos, foi aproveitada, sumarizada e generalizada pelos jurisconsultos romanos, e guardada, nas suas fórmulas gerais, nas grandes obras desses jurisconsultos, depositadas não mais nos arquivos públicos, mas sim nas bibliotecas, tanto públicas quanto privadas.

Tudo que tivesse sido gravado em bronze ou em pedra, obviamente, poderia sobreviver por muitos séculos – de fato, muita coisa, principalmente em pedra, chegou até aos nossos dias. Mas não se gravavam em bronze ou na pedra as correspondências triviais do dia-a-dia da administração, trocadas entre o governo central e os governadores provincianos.

De fato, mesmo em seus dias, essa correspondência era limitada. Os Imperadores não queriam, em absoluto, ser afogados num fluxo constante de cartas informando situações triviais do dia-a-dia; queriam ordem, paz nas províncias e os impostos sendo recolhidos em dia – se isso ocorria, o resto era secundário, e o modo como os seus subordinados conseguiam isso, irrelevante[96]. De fato, o princípio geral era o seguinte: uma vez que o assunto possa ser resolvido localmente, a bom termo, não se deve levá-lo à consideração das instâncias superiores. Esperava-se que, em caso de arbitrariedades, havendo a necessidade de apelação, os interessados a providenciariam[97].

Os arquivos públicos eram um espelho disso, constando muito mais de documentos referentes a “status” social e a impostos do que de correspondências entre os governadores e seus superiores acerca de seus atos do dia-a-dia – como, p.ex., executar supostos criminosos. O dia-a-dia da administração passava bem ao largo da confecção e do envio de tal tipo de correspondência. Assim, nem o grande incêndio do Tabulário de Sila, em 69 dC, conseqüência do fogo que consumiu o vizinho templo de Júpiter Ótimo Máximo, Juno e Minerva na colina capitolina, por ocasião das guerras civis que se seguiram à morte de Nero, com a perda de 3.000 tábuas de bronze[98], e nem o incêndio do arquivo imperial do Palatino, que ardeu totalmente no ano 192 dC[99], significaram qualquer interrupção ou empecilho verificável no andamento da máquina administrativa[100].



II.3.4) A Judéia como “província de César” (“imperial”), e seus governadores:

As vicissitudes administrativas da região da Palestina desde a morte de Herodes o Grande (4 aC) até ao início da revolta contra Roma (66 dC) já foram comentadas, ao menos por alto, ao longo do presente trabalho. Resta agora apenas enfatizar alguns pontos, à luz do que já se expôs acerca da estrutura administrativa do Império Romano sob Augusto e os Júlio-Cláudios. Servirá para isso um texto paradigmático de Tácito, que sumariza a história do relacionamento entre judeus e romanos, desde a tomada de Jerusalém por Pompeu o Grande (63 aC) até imediatamente antes do início da revolta de 66 dC.

“Gneu Pompeu foi o primeiro dos romanos a subjugar os judeus; pelo direito de conquista, ele penetrou em seu Templo, mostrando a todo o mundo que seu sacrário estava vazio, com nenhuma imagem divina albergada, e que, ao fim das contas, nada havia a ser revelado. As muralhas de Jerusalém foram destruídas, mas o Templo foi deixado incólume. Após essas regiões terem caído, no curso de nossas guerras civis, nas mãos de Marco Antônio, Pácoro, rei dos partas, conquistou a Judéia; mas ele foi derrotado e morto por Públio Ventídio, e os partas retrocederam novamente para além do Eufrates. Gaio Sósio então reduziu mais uma vez os judeus à nossa sujeição. O poder real, que havia sido outorgado por Antônio à pessoa de Herodes, foi aumentado e consolidado pelo vitorioso Augusto. Por ocasião da morte de Herodes, um certo Simão, sem esperar pela aprovação do Imperador, usurpou o título real, sendo então punido por Quintílio Varo, governador da Síria, e a nação dos judeus, com suas liberdades restringidas, foi dividida em três tetrarquias, postas cada uma sob o comando dos filhos de Herodes. Sob Tibério, tudo permaneceu calmo. Mas quando os judeus foram instados por Gaio [Calígula] a erguerem sua estátua no Templo, eles preferiram, ao invés, a guerra. A morte do Imperador, contudo, pôs fim ao distúrbio. Estando os antigos reis ou mortos ou reduzidos à insignificância, Cláudio confiou a província da Judéia a cavaleiros romanos, ou a seus próprios libertos, um dos quais, Antônio Félix, mergulhando em todo o tipo de comportamento violento e vicioso, exerceu seu mandato com os poderes de um rei e com a alma de um escravo. Ele casou-se com Drusila, neta de Antônio e Cleópatra, e portanto era, com o próprio Imperador, aparentado de Antônio[101].

(Tácito, “Histórias”, livro V, cap.9)

Nem toda a “Palestina”, ou seja, o conjunto de territórios que originariamente faziam parte do reino de Herodes o Grande, foi transformada, no ano 6 dC, em província romana. A província romana da Judéia (Iudaea) compreendia apenas os territórios antes governados por Arquelau (ou seja, a Judéia propriamente dita, a Iduméia e a Samaria, com uma renda anual estimada de impostos em 400 talentos de prata). A Galiléia e a Peréia (esta última a região “do outro lado”, isto é, a oriente, do rio Jordão), com rendimento de 200 talentos, continuou sendo governada pelo tetrarca Herodes Agripa, e Herodes Filipe continuou de posse de seus territórios excêntricos (a Batanéia, a Gaulanítide, a Aulanítide e o distrito de Pânias, com rendimento estimado de 100 talentos).

Herodes Filipe governou calmamente seus territórios até à sua morte, ocorrida no ano 34 dC; não tendo herdeiros, seus domínios foram anexados pelo Imperador Tibério à província da Síria[102]. Contudo, com a morte de Tibério e a ascensão ao trono imperial de Calígula, este nomeou seu amigo Herodes Agripa I para a antiga tetrarquia de Filipe (37 dC), e mais, não com o título de tetrarca, mas sim com o de rei (basileus)[103].

Herodes Antipas governou a Galiléia e a Peréia até ao ano 39 dC, quando foi deposto por Calígula, e exilado; seus territórios foram dados a Herodes Agripa I[104].

Enfim, por ocasião do assassinato de Calígula, em 41 dC, Agripa, que então se encontrava em Roma, serviu de intermediário entre Cláudio e o Senado na confusão que se seguiu, e foi recompensado com a Judéia, a Iduméia e a Samaria, bem como com a antiga tetrarquia do itureu Lisânias – desse modo, foi reconstituído em “grande estilo” o antigo reino de Herodes o Grande (mesmo um pouco maior, já que incluía a Abilena de Lisânias, que nunca antes havia estado sob o governo judaico). Mais uma vez, toda a nação judaica estava “independente” e unida, sob um rei judeu próprio e com um território considerável (que incluía, mesmo, vários distritos habitados majoritariamente por não-judeus)[105]. E, além disso, o irmão de Agripa, também chamado Herodes, recebeu de Cláudio o território sírio de Cálcis, com o título de rei[106].

Esse reino multifacetado não duraria muito – Agripa I morreu em 44 dC, e seu filho, também chamado Agripa, era jovem (17 anos) e inexperiente em termos políticos. Desse modo, Cláudio resolveu restaurar a província da Judéia, desta vez englobando todo o antigo reino – isto é, não apenas a Judéia, a Iduméia e a Samaria, mas também a Galiléia, a Peréia e os demais territórios excêntricos[107]. Não obstante, para aliviar um pouco a situação, o irmão sobrevivente de Agripa, Herodes de Cálcis, recebeu do Imperador a prerrogativa de custodiar as vestes dos sumo-sacerdotes, de administrar o tesouro do Templo de Jerusalém e de nomear os sumo-sacerdotes[108]. Com a morte de Herodes de Cálcis, seu tio (48 dC), o jovem Agripa, conhecido como Herodes Agripa II, recebeu o seu reino (49 dC)[109], bem como seus direitos concernentes às vestes sacerdotais, ao tesouro sagrado do Templo e à nomeação dos sumo-sacerdotes.

Em 53 dC, Cláudio considerou possível uma promoção de Agripa II – retirou-lhe o pequeno reino de Cálcis, dando-lhe, em compensação, a Batanéia, a Gaulanítide, a Traconítide, a Abilena e o distrito de Pânias[110]. Enfim, logo depois, no início do império de Nero (54 dC), o novo Imperador acrescentou aos domínios de Agripa II as cidades de Tiberíades e de Tariquéia, na Galiléia, bem como o distrito de Julíades, na Peréia, confirmando-o também na Abilena[111]. Permaneceram assim, sob governo romano, a Judéia, a Iduméia, a Samaria, grande parte da Galiléia e grande parte da Peréia. Essa foi a situação até à eclosão da revolta contra Roma, em 66 dC. Note-se que, na guerra que se seguiu, Agripa II lutou ao lado dos romanos; conservou seu reino até à sua morte, ocorrida no final do séc. I dC, quando então seus domínios foram repartidos entre a província da Judéia e a província da Síria.

Isso quanto aos descendentes de Herodes, e às áreas que governaram. Quanto aos territórios que, ao longo do período, estiveram sob domínio romano, ou seja, a província que o governo de Roma chamava “Judéia”, Iudaea (apesar de albergar não apenas judeus, mas também samaritanos, pagãos, etc.), era uma província imperial sem tropas legionárias estacionadas e governada por um representante imperial (inicialmente com o título de praefectus, depois de procurator) de nível eqüestre, residente não em Jerusalém, mas na cidade da Cesaréia Marítima[112]. Sob esse aspecto, Jerusalém, embora o coração da província, e, sem dúvida, sua cidade mais importante, devido ao seu caráter de centro de peregrinação para os judeus da Judéia, os idumeus, os judeus da Galiléia e também os de todas as regiões do Império Romano (e mesmo de fora dele – da Mesopotâmia dos partas, p.ex.), além da multidão cada vez maior de prosélitos e “tementes a Deus” do mundo mediterrânico, não era a capital da província.

Não havia, assim, “legionários” romanos presentes na Judéia – quanto a isso, tudo o que se lê em romances históricos, ou se vê em filmes épicos[113], é incorreto. No caso específico da Judéia, havia várias unidades de infantaria, de fato cinco, commo se verá (cohortes) e uma única unidade de cavalaria (ala), cada uma com aproximadamente 500 homens. É altamente provável que o núcleo dessas tropas se constituísse simplesmente das forças originais de Arquelau, postas sob o comando do procurador após a organização da província em 6 dC. Por sua vez, o exército de Arquelau se constituía no núcleo do exército de seu pai Herodes o Grande, que ele herdara com a sua etnarquia em 4 aC. Sabe-se, com efeito, que o núcleo das tropas herodianas englobava um total de 3.000 homens, recrutados entre os samaritanos e organizados à moda romana, em batalhões de cerca de 500 homens, sendo comandados por oficiais que provavelmente eram romanos, a julgar por seus nomes (Grato e Rufo)[114].

Assim, é razoável supor que esse núcleo, esses 3.000 samaritanos (em números redondos), eram divididos em seis unidades de 500 homens, sendo cinco se infantaria e uma de cavalaria. Com a constituição da província, essas unidades (se é que já não o eram antes) foram renomeadas ao modo romano: Cohors I, II, III, IV e V Sebastena (ou Sebastenorum) e Ala I Sebastena (ou Sebastenorum). Que havia cinco unidades de infantaria chamadas “sebastenas” é confirmado quer por Flávio José[115], quer por testemunhos epigráfico[116].

Além das unidades de infantaria (cohortes), havia seguramente uma de cavalaria (ala), chamada justamente “Sebastena” e estacionada na capital, Cesaréia Marítima[117]. Portanto, confirma-se que o “núcleo” do exército herodiano, constituído por cinco unidades de infantaria e uma de cavalaria, recrutadas entre os samaritanos, permaneceu como guarnição da província.

A maior parte das forças armadas (se não todas) encontrava-se estacionada na Cesaréia Marítima, à disposição do procurador – além da unidade de cavalaria, citada no parágrafo anterior, também pelo menos quatro unidades de infantaria, todas “sebastenas” [118].

No modelo militar romano, as unidades auxiliares, tanto de infantaria quanto de cavalaria, podiam ser quingenariae (i.e., com cerca de 500 homens) ou milliariae (i.e., com cerca de 1.000 homens). As unidades estacionadas na Judéia eram quingenariae. Cada unidade de infantaria auxiliar (cohors) quingenaria era composta por 6 centúrias (centuriae) de 80 homens cada, comandadas por centuriões (perfazendo-se um total de 480 homens); por sua vez, cada unidade de cavalaria auxiliar (ala) quingenaria era composta por 16 turmas (turmae) de 30 homens cada, comandadas por decuriões (mais uma vez, perfazendo-se um total de 480 homens). Assim, as forças tipicamente à disposição do procurador romano na Judéia compreendiam 2.400 homens de infantaria, divididos em cinco cohortes, e 480 cavaleiros, numa única ala. Com esse efetivo, tinha que manter a ordem na província.

Há, porém, indícios de que houve algum tipo de reforço na ocasião da restauração da província, em 44 dC – nessa época, o tamanho original das terras sob domínio romano praticamente dobrou, já que, como visto, além dos territórios da província original (Judéia, Iduméia e Samaria) foram acrescentados a Galiléia, a Peréia, a Gaulanítide, a Batanéia, a Traconítide, o distrito de Pânias e a Abilena. Embora, logo depois, alguns desses territórios tenham sido postos sob o governo de Agripa II, mesmo assim a província passava a incorporar, além de seus territórios originais, grande parte da Galiléia e da Peréia. Mas exatamente como tais reforços se deram é ainda um assunto controverso – e diz respeito às unidades de infantaria chamadas “Augusta” e “Itálica”.

Nos Atos dos Apóstolos (cap.10, vers. 1o) é feita referência a Cornélio, centurião da unidade de infantaria chamada “Itálica”, que se encontrava na Cesaréia Marítima, e que se tornou o 1o gentio convertido ao Cristianismo, pelas mãos de São Pedro[119], pouco antes da restauração do reino judaico por Agripa I (41 dC). Sabe-se da existência de duas coortes com esse nome, que estacionaram no Oriente nos finais do séc. I dC[120]; não há, contudo, evidências de que tenham permanecido por longo tempo na Judéia – é provável que tenham seguido, depois da restauração do reino judeu sob Agripa I, para a Síria. No mesmo livro dos Atos (cap. 27, vers. 1o), é nomeada uma unidade de infantaria cujo nome é normalmente traduzido como “Augusta”, e cujo centurião, Júlio, escoltaria São Paulo em sua viagem a Roma, onde apelaria por sua inocência no tribunal de Nero (59/60 dC)[121]. Pelo texto, contudo, pode-se verificar que não se tratava duma unidade nova, mas sim duma das coortes “sebastenas”. A palavra grega para “Augusto” é Sebastos, e Herodes o Grande havia restaurado a cidade da Samaria chamando-a Sebástia justamente em honra a Augusto. Daí a confusão; não se trataria duma nova coorte “Augusta”, mas, quase certamente, duma das coortes “sebastenas” que já foram aqui mencionadas[122].

Um caso interessante diz respeito à cidade de Ascalão, cidade de população pagã, na época fora da província judaica (embora território excêntrico, estava ligada diretamente ao governo da província da Síria). Desde o início da revolta de 66 dC, bandos de judeus saquearam seu território[123]; foram logo seguidos por forças mais organizadas, que, não obstante, terminaram por ser debeladas pela guarnição da cidade, com grande mortandade de judeus. Essa guarnição, comandada por um Antônio, era constituída por uma tropa de infantes e uma de cavaleiros, sendo que os infantes (ao menos alguns deles) puderam usar eficazmente suas flechas contra as fileiras judaicas[124]. A força presente em Ascalão é atestada epigraficamente, e trata-se da Cohors I Ascalonitanorum Sagittaria Equitata (“primeira coorte dos arqueiros Ascalonitanos, equipada com cavalaria”). O nome indica que foi recrutada na cidade de Ascalão; que era equipada com arqueiros; e que possuía um reforço de 120 cavaleiros (4 turmae de 30 homens), além dos seus 480 infantes. Essa unidade, não obstante, não pode ser considerada como fazendo parte da guarnição da província da Judéia, já que, como dito, Ascalão não pertencia a essa província.

Por outro lado, na enumeração das forças romanas que lutaram contra a revolta judaica de 66 dC[125], o historiador Flávio José cita, além das três legiões, dezoito coortes de fora da Judéia, mais cinco coortes e uma ala de cavalaria vindas de Cesaréia. Informa ainda que, das 23 coortes, 10 eram miliárias, e as demais eram quingenárias, equipadas com alas de cavalaria. Daí se conclui: a) que a guarnição da província constituía-se, efetivamente, de cinco unidades de infantaria (cohortes) e de uma de cavalaria (ala), estacionadas usualmente na Cesaréia Marítima; b) que, em alguma ocasião, as coortes de infantaria foram reforçadas, quer com o aumento dos efetivos (tornando-se miliárias), quer com a adição de cavalaria[126]. Exatamente quantas unidades foram transformadas em miliárias (i.e., passaram a ser constituídas por 10 centuriae de 80 infantes, no total 800 homens) e quantas ganharam uma ala de cavalaria (i.e., tornaram-se equitatae, acrescentando 4 turmae de 30 cavaleiros aos seus 480 infantes) é ainda incerto; não se sabe também se a ala de cavalaria permaneceu quingenária, ou se foi transformada numa ala miliária (i.e., constituindo-se de 24 turmae de 30 cavaleiros, no total 720 homens). De qualquer modo, esse reforço ligou-se, sem dúvida, à restauração da província judaica em 44 dC, após a morte de Agripa I.

Tem-se o elenco completo dos governadores (prefeitos ou procuradores) romanos da Judéia, desde a primeira implantação da província (6 dC) até ao início da revolta. O quadro a seguir resume a situação.

Imperador


Nome do Governador


Governo


Território


Fontes

Augusto (até 14 dC)


Copônio


6 – 9 dC


Judéia, Iduméia e Samaria


Fl. José, Ant. Jud., XVIII.1.1; XVIII.2.2; Guerra Jud., II.8.1

Marco Ambívio


9 – c.12 dC


Fl. José, Ant. Jud., XVIII.2.2

Ânio Rufo


c.12 – 14/15 dC


Fl. José, Ant. Jud., XVIII.2.2

Tibério (14-37 dC)


Valério Grato


c.15 – 26 dC


Fl. José, Ant. Jud., XVIII.2.2

Pôncio Pilatos


c.26 – c. 36 dC


Fl. José, Ant. Jud., XVIII.2.2; XVIII.3.1; XVIII.3.2; XVIII.4.1; XVIII.4.2; XVIII.6.5; Guerra Jud., II.9.2; II.9.3; II.9.4; Tácito, Anais XV 42; estela encontrada na Cesaréia Marítima

Calígula (37-41 dC)


Marcelo (ou Márulo)


37-41 dC


Fl José, Ant. Jud., XVIII.4.2; XVIII.6.10

Cláudio (41-54 dC)

Reino “Independente” sob Herodes Agripa I

Cúspio Fado


44-46 dC


Judéia, Iduméia, Samaria, Galiléia, Peréia, Gaulanítide, Traconítide, Batanéia, Abilena e Pânias


Fl. José, Ant. Jud., XV.1.4; XIX.4.2; XX.1.1ff; Guerra Jud., II.11.6

Tibério Júlio Alexandre


46-48 dC


Fl. José, Ant. Jud., XX.5.2; Guerra Jud., II.11.6

Ventídio Cumano


48-52 dC


Fl. José, Ant. Jud., XX.5.2; Guerra Jud., II.12.1

Nero (54-68 dC)


Marco Antônio Félix


52-58/9 dC


Judéia, Iduméia, Samaria, Galiléia, Peréia, Gaulanítide, Traconítide, Batanéia, Abilena e Pânias (até 53 dC); Judéia, Iduméia, Samaria, Galiléia e Peréia (até 54 dC); mesmos territórios, exceto algumas regiões da Galiléia e da Peréia, a partir de 54 dC


Fl. José, Ant. Jud., XX.7.1; XX.8.5; XX.8.7; XX.8.9; Guerra Jud., II.12.8; II.13.7

Pórcio Festo


58/9-62 dC


Judéia, Iduméia, Samaria, grande parte da Galiléia e da Peréia


Fl. José, Ant. Jud., XX.8.9; XX.9.1; Guerra Jud., II.14.1

Lucéio Albino


62-64 dC


Fl. José, Ant. Jud., XX.9.1; Guerra Jud., II.14.1; VI.5.3

Géssio Floro


64-66 dC


Fl. José, Ant. Jud., XX.9.5; XX.11.1; Guerra Jud., II.14.1; II.14.2; II.14.3; II.14.6; II.14.9; II.15.1ff; II.16.1

Obviamente, dentre eles não consta nenhum “Públio Lêntulo”; e mais: o historiador Flávio José explicitamente informa que, sob o império de Tibério (14-37 dC), apenas dois governadores, Valério Grato e Pôncio Pilatos, foram nomeados para a Judéia[127].

Outro item que não se pode esquecer, e que se depreende da narrativa de Tácito, é que a província da Judéia estava sob a supervisão do governador da Síria, um legado propretoriano de nível consular, que comandava (usualmente) quatro legiões, além de numerosas tropas auxiliares. Assim, se houvesse algum problema de ordem militar, ou alguma situação difícil, que escapasse ao controle do procurador da Judéia, era o governador da Síria que tomava as providências necessárias. Como se lê no texto de Tácito, foi o legado propretoriano da Síria, Públio Quintílio Varo (c.6 aC-4 aC, o mesmo que haveria de morrer na Germânia), que restaurou a ordem na província, por ocasião dos distúrbios que se seguiram à morte de Herodes o Grande em 4 aC[128]. Mas esse não foi o único caso: do mesmo modo, foi o legado propretoriano da Síria, Públio Sulpício Quirínio (c.6 – c.8 dC), que tomou todas as providências necessárias para a anexação da etnarquia de Arquelau, incluindo-se a realização dum censo[129]; também foi o legado da Síria, Públio Vitélio (35-39 dC, tio do futuro Imperador) que interveio na província e depôs Pôncio Pilatos, a partir da queixa dos samaritanos[130]; foi o seu sucessor, Públio Petrônio (39-42 dC), que atuou no “affair” da estátua de si próprio que Calígula queria instalar no Templo de Jerusalém[131]; foi o legado da Síria, Gaio Umídio Dúrmio Quadrato (50-c.57 dC) que atuou decisivamente para restaurar a ordem, em 52 dC, por ocasião da degeneração do conflito entre galileus e samaritanos, após a procuradoria de Ventídio Cumano e o início da de Antônio Félix[132]; enfim, na eclosão da grande revolta, em 66 dC, diante da impotência do procurador Géssio Floro para a conter, foi mais uma vez o legado da Síria, Gaio Céstio Galo (65-67 dC), que lhe veio em auxílio – inutilmente, tendo sido fragorosamente derrotado pelos insurgentes[133].

Assim, se houvesse a necessidade de qualquer providência extraordinária na Judéia, essa seria tomada a partir do legado da Síria, que tinha autoridade (era de nível senatorial, e mais, consular) e meios (legiões e tropas auxiliares) para tanto.

Dentro desse espírito, é importante notar a frase com a qual Tácito resume o que ocorreu na Judéia no tempo de Tibério (14-37 dC): “Sob Tibério, tudo permaneceu calmo” (Sub Tiberio quies). Não é o que se depreende da narrativa de Flávio José, especialmente sob Pôncio Pilatos: o caso das insígnias nos estandartes militares, levadas a Jerusalém, e que geraram um motim, que por pouco não degenerou em banho de sangue[134]; a questão da construção, em Jerusalém, do aqueduto com o dinheiro do tesouro sagrado do Templo (“corban”), desencadeando uma revolta popular a qual foi esmagada com brutalidade, e redundou em muitas mortes[135]; a repressão extremamente cruel dos samaritanos revoltados[136], que enfim motivou a deposição de Pilatos pelo legado da Síria, Vitélio, diante das queixas a ele levadas pelos mais importantes representantes samaritanos[137]. Sem falar, é claro, na crucifixão de Jesus. Então é isso que se chama “calma”?

Mas a visão de Tácito (ele próprio um senador) é a visão dos círculos senatoriais do governo central – durante a época de Tibério, não houve necessidade de intervenção militar, na Judéia, por parte do legado propretoriano da Síria; todos os problemas puderam ser solucionados localmente – daí, “tudo permaneceu calmo”. Essa simples frase de Tácito, quando confrontada com o que se sabe por outras fontes, é terrível e brutalmente esclarecedora, e coloca na sua devida importância (do ponto-de-vista da classe dirigente romana) os acontecimentos ligados a um certo Jesus de Nazaré. Era um assunto local numa província imperial procuratoriana; esperava-se que, em casos assim, o procurador, com a ajuda dos “maiorais” locais, pudesse resolver a questão, rápida e eficientemente (afinal de contas, do ponto-de-vista do governo romano, e das classes dirigentes judaicas, foi o que ocorreu…). Admitir que um senador romano perdesse seu tempo com um assunto desse tipo, ou mesmo que ele pudesse vir a gerar uma carta, ou relatório, enviado ao Imperador – ao próprio Imperador! – é desconhecer totalmente a História.

II.4) Conclusão da Primeira Parte – Dupla Implausibilidade da “Carta de Lêntulo” e de seu Autor:

A partir de agora, enfim, podem ser tecidos alguns comentários finais a esta primeira parte, referentes tanto à “Carta de Públio Lêntulo” quanto ao seu pretenso autor.

II.4.1 – Sob o prisma genealógico – Houve realmente um “Públio Lêntulo”/Emmanuel?

Conforme visto, não há nenhuma evidência de um “Públio Lêntulo” contemporâneo de Cristo que tivesse sido “antecessor de Pôncio Pilatos”, ou que tivesse exercido algum tipo de missão na Palestina na época da procuradoria de Pilatos. Mais ainda, tendo em vista as características familiares de “Públio Lêntulo”, tais como apresentadas na psicogravia “Há Dois Mil Anos”, essa personagem simplesmente não existiu.

Num outro trabalho, já foi exaustivamente demonstrada a série de inconsistências nos nomes próprios romanos utilizados na referida psicografia; isso, por si só, deveria bastar para, no mínimo, levantar sérias dúvidas acerca da autenticidade do pretenso espírito-guia. Adicionalmente, este trabalho acrescenta ainda mais implausibilidades à existência da referida personagem.

De acordo com o ambiente traçado em “Há Dois Mil Anos”, Públio Lêntulo seria casado com uma dama chamada Lívia (pág. 18)[138], que o texto dá a enteder ter sido sua primeira e única esposa. Com Lívia teria tido uma filha, Flávia Lentúlia (pág. 20, sic) e um filho, Marcus (pág. 34), que depois teria sido raptado. O texto também faz crer que esses teriam sido os únicos filhos do casal.

Lêntulo é apresentado com bisneto, por linha paterna, de Lêntulo Sura, o conspirador catilinário (pág. 22). De seus parentes, “que há tanto tempo se conservam ausentes de Roma” (pág. 35), um é citado explicitamente (e as circunstâncias gerais do texto fazem crer, indiretamente, que se trate do único parente sobrevivente, porque nenhum outro é citado), um certo Sálvio Lêntulo, seu tio, irmão mais moço de seu pai (pág. 35).

Por essas poucas observações, nota-se que os Lêntulos retratados em “Há Dois Mil Anos” nada têm a ver com os Lêntulos atestados historicamente para o mesmo período.

Inicialmente, como visto, não há nenhuma evidência de que Lêntulo Sura tenha tido descendentes; e, analisando a questão por um outro ângulo: nenhum dos Lêntulos atestados na época imperial era descendente de Lêntulo Sura, como já foi mostrado. Queda-se impossível que alguém com antepassados tão notórios tenha escapado totalmente ao registro histórico.

Além disso, não há nenhuma evidência dum “Sálvio Lêntulo” (nome aliás impossível para um Cornélio Lêntulo). Por ocasião do início cronológico da psicografia, por volta do ano 32 dC, quem “Públio Lêntulo”, se realmente tivesse existido, encontraria em Roma ou nas províncias ostentando o nome dos Lêntulos? Sem dúvida, Gneu Cornélio Lêntulo, o Áugure, já teria morrido (25 dC); mas (apenas para citar os nomes mais famosos) ainda estava vivo (e prestes a ser nomeado Prefeito Urbano) o velho Cosso Cornélio Lêntulo, o vencedor dos gétulos, o amigo íntimo do Imperador Tibério. Também estavam vivos, e atuantes, o filho do velho Cosso, Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico, já legado propretoriano da Germânia Superior; e também Públio Cornélio Lêntulo Cipião, o sufeta de 24 dC, que haveria de se casar com Popéia Sabina, bem como Sérvio Cornélio Lêntulo Maluginense, o cônsul ordinário de 24 dC, que, por essa época, estaria para ser nomeado procônsul da África. Onde, na psicografia, essas pessoas (que historicamente existiram) são citadas? E onde, na História, está atestado o tal “Sálvio Lêntulo”, citado explicitamente por “Emanuel”? Simplesmente, o mundo da História e o mundo de “Emanuel” não se misturam, são como se fossem dois conjuntos disjuntos, dois líquidos imixíveis. Aliás, com tantos parentes importantes, em funções de alto escalão, para quê ir à Palestina?

Portanto, resumindo: a) não há nenhuma evidência histórica de um “Públio Lêntulo” que possa se encaixar no perfil do autor da suposta carta descrevendo Cristo, e isso numa época para a qual há a evidência histórica firme (conforme mostrado) de inúmeros membros da família dos Lêntulos, atuantes e ocupando postos importantes, inclusive o consulado; b) não há nenhuma evidência de que Lêntulo Sura tivesse tido descendentes, ao contrário, tudo aponta para o fato de que não teve filhos, já que foi o seu enteado, Marco Antônio, que teve de recuperar seu corpo e providenciar suas exéquias; e c) nenhum dos Lêntulos atestados historicamente para o período dos Júlio-Cláudios descendia de Lêntulo Sura (nunca é demais repetir isso).

Assim, do ponto-de-vista estritamente genealógico, não há como afirmar a existência do senador “Públio Lêntulo”, contemporâneo de Jesus, presente na Palestina na época de Pôncio Pilatos, e autor duma carta (possivelmente ao Imperador) na qual descrevia Cristo. Ao contrário, todas as evidências apontam claramente para a sua não existência.



II.4.2 – Sob o prisma histórico-administrativo – Um senador teria estado na Judéia em missão, e escrito ao Imperador?

A questão torna-se ainda mais clara quando se tenta analisar a personagem de “Públio Lêntulo” à luz da organização imperial vigente na época. Apresentou-se neste trabalho um esboço da estrutura social e administrativa do Império sob os Júlio-Cláudios; elencou-se, com bastante detalhe, o cursus honorum dum senador, que “Públio Lêntulo” forçosamente teria de seguir. A respeito disso, o que é que se informa em “Há Dois Mil Anos?”

De “Públio Lêntulo”, diz-se que exercia atividades no Senado: o “… senador Públio Lentulus Cornelius (sic), homem ainda moço que, à maneira da época, exercia no Senado funções legislativas e judiciais, de acordo com os direitos que lhe competiam, como descendente de antiga família de senadores e cônsules da República” (págs. 17-18). Se tinha assento no Senado, então já teria exercido a questura, e estaria prestes, pela idade, a assumir a pretura. Assim, já teria prestado serviço militar, antes da questura, obviamente como tribuno laticlavo. Onde isso é mencionado no texto? Aliás, que “funções legislativas e judiciais” exercia? De fato, se já havia exercido a questura, e estava para exercer a pretura, não exercia, na ocasião, nenhuma função especial. Teria, sem dúvida, iniciado sua carreira exercendo um dos cargos do vigintivirato (qual? Mais uma vez, “Emanuel” se cala…); depois, teria obtido um sacerdócio (onde isso é mencionado no texto?); depois, teria prestado o serviço militar; enfim, teria assumido a questura. Como questor, teria exercido funções de índole financeira, e não propriamente “legislativas e judiciais”. E somente após exercer a pretura (como se viu) é que ele teria aberto o leque duma série de cargos importantes. Pela idade, ele estaria para exercer a pretura – e, mesmo assim, prefere ir à Palestina, e lá passar uma série de anos. Uma atitude no mínimo estranha, pois fatalmente atrasaria o seu “cursus”. E, mais uma vez, por que a Palestina?

O texto alude (pág. 35) a um período de um ano no qual, na mocidade, teria atuado na administração da cidade de Esmirma (antes da questura? Logo depois dela?). Ora, isso não tem sentido. Esmirna era uma das cidades da província da Ásia (província senatorial de nível consular), mas os romanos não mandavam administradores para as cidades. Esmirna, como aliás todos os centros urbanos do Império, com exceção da própria Roma e de Alexandria, tinha um governo municipal independente (melhor dizendo, “autônomo”), com suas assembléias e magistrados locais, e inclusive com o seu magistrado epônimo, que ostentava o pomposo título de “portador da coroa”, ou “coroado” (stephanêphoros)[139]; era também a sede de um dos conventus iuridici da província da Ásia[140], ou seja, dos lugares onde o procônsul, em seu giro anual, realizava audiências. Não havia lá funcionários romanos atuando, durante um ano inteiro, na sua administração. O que é informado a esse respeito por “Emanuel” não faz nenhum sentido; simplesmente, não era assim que as coisas funcionavam.

Informa-se na psicografia que Sálvio Lêntulo, o tal tio de “Públio Lêntulo”, era um pretor há muito destituído do governo das províncias, ocupando, na ocasião, simples atribuições de funcionário junto ao procurador da Judéia, Pôncio Pilatos, sendo casado com Cláudia, irmã da esposa de Pilatos (págs. 35-36). Há, nesses dados, um amontoado de absurdos. Mesmo que tivesse sido destituído dum governo provincial (como se viu, como pretor poderia ter exercido vários tipos de governos provinciais, p.ex., o proconsulado de províncias senatoriais de nível pretoriano), jamais um senador (e Sálvio Lêntulo, por força, seria um senador) exerceria “simples atribuições de funcionário” tendo como superior hierárquico um cavaleiro, numa província de 2a classe. Isso significaria que um cavaleiro daria ordens a um senador – algo impensável e impossível na época. Sálvio Lêntulo teria permanecido em Roma, à espera da oportunidade de retomar sua carreira, ou então (se a situação fosse grave) no exílio, tentando voltar a Roma. E, se conseguisse recuperar-se, ainda que parcialmente, não iria jamais servir sob as ordens de alguém que lhe era hierarquicamente inferior; e, mesmo que quisesse isso (teria que estar extremamente desesperado, ou louco), nem o Imperador e nem o Senado o permitiriam – seria degradar sua condição de senador.

Também é muitíssimo pouco provável que ele se casasse com alguém de nível eqüestre (como era o caso da irmã da esposa de Pilatos); isso também seria degradar sua condição de senador. Estranho mundo, esse de “Emanuel”…

Depois dum período aparentemente passado em Roma, nas lides do Senado, “Públio Lêntulo” seguiu para Jerusalém, como “legado do Imperador, para a solução de vários problemas administrativos de que fora incumbido junto ao governo da Palestina” (pág. 39). A situação é posta da seguinte maneira por seu amigo Flamínio Severo (outra personagem sobre a qual não há nenhum testemunho histórico): “…existem ali [na Judéia] regiões de clima adorável, que operariam, talvez, a cura de tua filhinha, restabelecendo simultaneamente as tuas forças orgânicas. Quem sabe? Esquecerias o tumulto da cidade, regressando mais tarde ao nosso meio, com energias novas. O atual Procurador da Judéia é nosso amigo. Poderíamos harmonizar vários problemas do nosso interesse e de nossas funções, porquanto não me seria difícil obter do Imperador dispensa dos teus trabalhos no Senado, de modo a que continuasses recebendo os subsídios do Estado, enquanto permanecesses na Judéia” (pág. 30).

Mais absurdos. Como se viu, a província da Judéia estava sob a supervisão da província da Síria; se houvesse necessidade duma missão “para a solução de vários problemas administrativos”, das duas uma: a) ou o legado propretoriano da Síria despacharia alguém de seu “staff”, obviamente um cavaleiro, para tratar do assunto junto ao prefeito/procurador da Judéia; ou b) se o caso fosse grave, o legado da Síria simplesmente convocaria o prefeito/procurador da Judéia a Antióquia para se explicar, e, se não ficasse satisfeito, suspendê-lo-ia de suas funções e mandá-lo-ia a Roma, para se explicar junto ao Imperador. O Imperador jamais mandaria um legado de nível senatorial à Judéia, mesmo porque criaria uma série de problemas: “Públio Lêntulo” (convém lembrar) era um senador, e Pôncio Pilatos (também convém lembrar) era um cavaleiro – inferior, social e hierarquicamente, a Lêntulo. Se estivesse lá, Lêntulo daria ordens a Pilatos, e ponto final. Jamais tratá-lo-ia como um igual. E não é esse o comportamento de “Públio Lêntulo” na Judéia, segundo a psicografia – ele e Pilatos tratam-se como iguais. Na “vida real”, se tal “missão” tivesse de fato existido, Lêntulo não precisaria ter escrúpulos, e nem levar em conta o que quer que Pilatos pensasse. Com um mandato imperial, faria o que quisesse, e a autoridade de Pilatos reduzir-se-ia a nada a partir do instante em que o senador pusesse o pé na província; justamente por isso é que esse tipo de missão era impossível de ocorrer – existe apenas nas mentes dos que não conhecem a estrutura administrativa do Império na época.

Menciona-se a existência de “litores” e de “soldados pretorianos”, sob o serviço de Pilatos, na Judéia (pág. 40), bem como de centuriões e legionários, vindos de toda a província, presentes em Jerusalém por ocasião da Páscoa (pág. 133). Ou seja, a psicografia supõe que as forças romanas na Judéia se constituíam de legionários. Contudo, viu-se que jamais estacionaram legiões na Judéia antes da revolta de 66 dC; a guarnição da província constituía-se de corpos auxiliares, tanto de infantaria (cohortes) quanto de cavalaira (alae). A atmosfera está bem mais para “Ben-Hur” do que para a História real…

Mas há mais: “Públio Lêntulo” permaneceu na província por quinze anos, passando por inúmeras peripécias, incluindo o rapto e desaparecimento de seu filho, a cura de sua filha por Jesus e o julgamento e a morte desse mesmo Jesus, retornando enfim a Roma (pág. 221). Evidentemente, se assim foi, arruinou o seu “cursus”. Chegou a exercer a pretura? E os cargos pretorianos? E, mais importante, o consulado? Alguém como ele fatalmente obteria um consulado, nem que fosse um consulado sufeta. Contudo, mais uma vez, o “cursus” real da carreia senatorial é absolutamente ignorado. Esse senador, ao que parece, ostentou uma carreira absolutamente atípica, para a qual não há nenhum registro na época.

Já em Roma, muito tempo depois, aparentemente envolveu-se na conspiração que teve por fim o afastamento de Nero (pág. 390); era, ademais, amigo pessoal do novo Imperador, Vespasiano (pág. 391), que o indicou para compor, com outros dois patrícios, um “conselho de civis”, com o fim de assessorar Tito na etapa final do cerco de Jerusalém, tendo emvista seus conhecimentos do local e de seus costumes (pág. 392-93). Tendo sido capturado e cegado pelo inimigo, conseguiu não obstante sobreviver, retirou-se honrosamente da vida pública e acabou morrendo por ocasião da erupção do Vesúvio, em Pompéia, sob o império de Tito.

Outro amontoado de tolices. Conhece-se com detalhe, a partir da obra “A Guerra Judaica”, do historiador Flávio José, toda a história da revolta de 66-72 dC; não há nenhuma menção a um “Públio Lêntulo” que participasse, de que forma fosse, do conselho de guerra de Tito. Sabe-se quais legiões lutaram na guerra, bem como o nome de seus comandantes, e sabe-se a composição do conselho de guerra de Tito – e lá não há nenhum “Públio Lêntulo”.

As forças reunidas na primavera de 67 dC em Ptolemaida, a cargo de Vespasiano, constituíam-se de três legiões: a V Macedonica (comandada por Sexto Vetuleno Cereal), a X Fretensis (comandada por Marco Úlpio Trajano, pai do futuro Imperador) e a XV Apollinaris (comandada por Tito, o filho de Vespasiano), além de numerosas tropas auxiliares (23 coortes de infantaria e 6 alas de cavalaria, aí incluindo-se a guarnição da Judéia) e forças cedidas pelos reis-clientes (Herodes Agripa II, Antíoco IV da Comagena, Soemo de Émeso e Malco II dos árabes nabateus).

Resumidamente, em 67 dC grande parte da Galiléia foi conquistada; na primavera de 68 dC, caíram o restante da Galiléia, a Peréia e Jericó. Preparava-se então o cerco de Jerusalém, quando a própria guerra civil em Roma (revolta de Sérvio Sulpício Galba; suicídio de Nero, na madrugada de 8 para 9 de junho de 68 dC) fez Vespasiano suspender operações e aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

A situação na Itália não se acalmou com o novo governo de Galba, que acabou assassinado (janeiro de 69 dC), sucedendo-lhe Marco Sálvio Otão, o qual, por sua vez, suicidou-se em abril, diante da aproximação das legiões de Aulo Vitélio, legado da Germânia Inferior.

Durante todo o período de inatividade dos romanos, os judeus entregaram-se a uma série de conflitos internos pela liderança da revolta. Em julho, Vespasiano deslocou-se a Alexandria, no Egito já pensando em também lutar pelo trono (o Egito, com suas duas legiões, e a sua produção de trigo, seria um ponto de apoio importante, caso Vespasiano tivesse que lutar pelo poder); deixou Tito como comandante-em-chefe na Judéia, onde as operações bélicas se reiniciaram. Em Alexandria, Vespasiano obteve o apoio do Prefeito do Egito, o judeu (apóstata) Tibério Júlio Alexandre (sobrinho do filósofo Fílon, e que havia sido procurador da Judéia), e assim das duas legiões do país (III Cyrenaica e XXII Deiotariana), que embarcam em seguida para a Judéia. No mesmo mês, as legiões estacionadas na Judéia também se puseram ao lado de Vespasiano; em agosto, foram as da Síria e as do Danúbio que se declararam a favor de Vespasiano. Com tal apoio, Vespasiano marchou para Roma; suas forças entraram na Itália (finais de outubro), marcharam pela península ao longo de novembro, derrotaram as forças de Vitélio, e entraram enfim em Roma (22 de dezembro), sendo Vitélio morto cruelmente pela populaça, e Vespasiano proclamado Imperador.

Na Judéia, Tito assumiu as operações da guerra, como comandante-em-chefe (a XV Apollinaris passou a ser comandada por Tito Frígio), e terminou a conquista do restante do país; no final de 69 dC, restavam apenas em poder dos judeus Jerusalém e as fortalezas de Masada, Heródio e Maqueronte. Chamado por Vespasiano, Trajano deixou a Judéia, para ocupar cargos mais importantes (inclusive o consulado), e o comando da X Fretensis passou a Aulo Lárcio Lépido Sulpiciano. Tibério Júlio Alexandre foi nomeado segundo-comandante, braço-direito de Tito. Enfim, começou o cerco de Jerusalém (inícios de 70 dC); a cidade foi completamente bloqueada por ocasião da Páscoa de 70 dC; nos dois meses seguintes (junho e julho) a fome progressivamente tomou conta dos sitiados. Entre os finais de junho e os inícios de agosto, os romanos conseguiram ultrapassar as muralhas exteriores, chegando à esplanada do Templo. No dia 30 de agosto de 70 dC, o Templo foi enfim tomado de assalto e incendiado; no dia 8 de setembro, as últimas resistências cessaram, e Jerusalém encontrou-se totalmente nas mãos dos romanos. Para todos os efeitos práticos, a revolta estava debelada.

Antes do assalto final ao Templo, Tito reuniu seu conselho de guerra, cuja composição o historiador Flávio José se dá ao trabalho de fornecer:

Então, no dia seguinte, Tito ordenou que parte de suas forças apagasse o fogo [ateado aos portões exteriores do Templo], e construíssem uma passagem para facilitar o assalto final, enquanto ele próprio reunia o seu conselho de guerra, composto pelos seis comandantes mais graduados: Tibério Alexandre, comandante geral de campo; Sexto Cereal, comandante da 5a legião; Lárcio Lépido, comandante da 10a legião; Tito Frígio, comandante da 15a legião; Etérnio Frontão, comandante das duas legiões egípcias; e Marco Antônio Juliano, procurador da Judéia [é a única vez que esse nome é mencionado; trata-se, provavelmente, do sucessor nomeado de Géssio Floro]. Também estavam presentes os demais prefeitos e tribunos [i.e., os comandantes das tropas auxiliares e os tribunos militares das legiões, como ouvintes]. Tito solicitou-lhes o parecer acerca de como agir no ataque ao Templo.

(Flávio José, “A Guerra Judaica”, livro VI, cap. 4o, par. 3o [236-238])

Aonde está, aí, “Públio Lêntulo”?

Enfim, a carta, ou relatório, a Tibério. Trata-se de algo inexistente numa missão que não ocorreu. Parte do pressuposto que o Império Romano na época era uma “burocracia”, e que os governadores das províncias (todos no mesmo nível, sem a distinção entre províncias senatoriais e imperiais, entre províncias consulares, pretorianas e procuratorianas…) regularmente enviavam correspondência ao governo central, informando-o detalhadamente de tudo o que se passava. Como se viu, não era assim que a máquina administrativa romana operava. O Imperador (e o Senado, e Roma) queria paz e impostos, não relatórios ex post facto. Nunca se deve esquecer da frase de Tácito: sub Tiberio quies. Sob Tibério, tudo permaneceu calmo. Já se viu que tipo de documentos havia nos arquivos municipais e provinciais, e nos arquivos centrais de Roma (o Tabulário de Sila e o arquivo imperial do Palatino); massas de relatórios sobre obscuros bandidos ou insurgentes condenados seguramente não faziam parte deles. Havia coisas mais importantes com que se preocupar.

Assim, abundam as evidências de que tanto a “carta de Públio Lêntulo” quanto o seu pretenso autor simplesmente não existiram. Na 2a parte deste trabalho, procurar-se-á estabelecer a origem desse bizarro documento – que é a culminância duma série de tradições, elaboradas ao longo dos séculos, sobre o aspecto físico de Jesus.
Bibliografia da Primeira Parte

· Barrett, Anthony A., Caligula – The Corruption of Power, Routledge, London & New York, 2000

· Cheesman, G. L., The Auxilia of the Roman Imperial Army, Ares Publishers, Chicago, 1975.

· Flower, Harriett I., Ancestor Masks and Aristocratic Power in Roman Culture, Clarendon Press, Oxford, 1996

· Josephus, The Jewish War, Penguin Classics, Penguin Books, London, 1981

· Josephus, The Works of Josephus – Complete and Unabridged, Hendrickson Publishers, Peabody, MA, USA, 2004

· Levick, Barbara, The Government of the Roman Empire – A Sourcebook – Croom Helm, London & Sydney, 1985

· Settipani, Christian, Continuité Gentilice et Continuité Familiale dans les Familles Romaines à l’époque imperiale – Mythe et Réalité, Linacre College, Oxford, 2000

· Sherk, Robert K., Translated Documents of Greece and Rome – Vol 4, Rome and TheGreek East to the Death of Augustus, Cambridge University Press, 1984

· Sherk, Robert K., Translated Documents of Greece and Rome – Vol. 6, The Roman Empire – Augustus to Hadrian, Cambridge University Press, 1988

· Sumner, G.V., The Orators in Cicero’s Brutus – Prosopography and Chronology, University of Toronto Press, 1973

· Syme, Ronald, The Augustan Aristocracy, Clarendon Paperbacks, Oxford University Press, 1989

[1] Nunca nenhum governante romano da Judéia teve o título de “procônsul”.

[2] Note-se, contudo, que Herodes Antipas e Herodes Filipe continuaram governando seus respectivos territórios de modo autônomo, como clientes de Roma. Assim, até ao início de seu ministério público, Jesus, vivendo em Nazaré da Galiléia, estava sob a autoridade dum governante judeu (Antipas), e não sob a do governo romano direto.

[3] Em língua portuguesa, utiliza-se sempre a expressão “governador”. O governo romano direto na Judéia (6 dC a 66 dC) abrangeu dois períodos, separados por um brevíssimo interlúdio (41-44 dC) de “independência”. O 1o período foi de 6 dC (deposição de Arquelau) até 41 dC (restauração da “independência” judaica, sob Herodes Agripa I, nomeado “rei dos judeus” pelo Imperador Cláudio); o 2o foi de 44 dC (recondução da Judéia à condição de província, pelo mesmo Cláudio, após a morte de Herodes Agripa I) até 66 dC (início da revolta contra Roma). Para o 1o período, o título do governador romano era “prefeito” (praefectus Iudaeae); para o 2o, “procurador” (procurator Iudaeae). Assim, Pôncio Pilatos (governador 26-36 dC), tecnicamente, não foi um “procurador”, mas sim um “prefeito”. A partir do império de Cláudio (reinou 41-54 dC), a terminologia, bem como os procedimentos, tendeu cada vez mais à padronização. Na prática, fora a nomenclatura, os poderes de prefeitos ou procuradores eram virtualmente os mesmos.

[4] Lêntulo Sura havia, junto com outros conjurados, assinado a solicitação, apondo-lhe inclusive o seu selo. Esse selo era justamente uma imagem do avô, o cônsul sufeta de 162 aC, impressa num anel que Sura herdara. Esse detalhe não passou despercebido por Cícero, que, usando todo o seu talento retórico, faz um paralelo entre Sura, o conspirador, que tramava a ruína da República, e o avô, acerbo opositor dos Gracos, e que havia sido outrora princeps senatus (Terceira Catilinária, 5.10). Os embaixadores dos gauleses alóbragos, não querendo se imiscuir na confusão, entregaram a solicitação dos partidários de Catilina a Quinto Fábio (Alobrógico) Sanga (talvez o cônsul sufeta de 45 aC, mas mais certamente o pai deste), seu patrono em Roma, que então entregou o documento a Cícero.

[5] Segunda Filípica, seções 17 e 18.



[6] O que, aliás, seria uma razão a mais para Júlia procurar casar-se com Sura: não tendo filhos dum casamento anterior, poderia ser um padrasto mais dedicado a seus próprios filhos (dela, Júlia). Nunca se deve subestimar a sagacidade das mulheres, especialmente no que se refere à defesa de sua prole.

[7] Ver as obras de Settipani, Sumner e Syme citadas na Bibliografia.

[8] Lêntulo Níger descendia de Lúcio Cornélio Lêntulo Lupo (cônsul 156 aC), que era primo de Públio Cornélio Lêntulo (cônsul sufeta 162 aC), o avô de Lêntulo Sura.

[9] Sêneca o Filósofo, “Sobre os Benefícios”, livro II, cap. 27, seções 1 e seguintes.

[10] Tácito, “Anais”, livro I, cap. 27; livro II, cap. 32; livro III, cap. 68; livro IV caps. 29 e 44.

[11] O reino-cliente da Mauritânia (que ocupava, grosso modo, o que é hoje o Marrocos e o noroeste da Argélia) havia sido constituído em 25 aC por Augusto e entregue a Juba II, filho daquele Juba, rei da Numídia, que havia sido derrotado outrora por Júlio César. Juba II casou-se com Cleópatra Selene, filha de Cleópatra do Egito e de Marco Antônio, e o casal teve um filho, chamado Ptolomeu, que sucedeu a seu pai Juba II como rei-cliente da Mauritânia, até ser deposto, aprisionado e executado por Calígula no ano 40 dC.

[12] Cf. Plínio o Velho, “História Natural”, livro VII, cap. 62. Ela é denominada Cornelia Scipionum gentis, “Cornélia da estirpe dos Cipiões”. Como o pai, Lúcio Cornélio Lêntulo, não tinha nenhuma ligação direta com os Cipiões, presume-se que a mãe o tivesse – é bem possível que se tratasse de Cornélia Emília Lépida, a filha sobrevivente de Cornélia (de estirpe cipiônica, pois ligada aos Lêntulos Marcelinos) e de Paulo Emílio Lépido, nascida em 22 aC.

[13] Paráfrase de Dionísio o Periegeta, in Geographi Graeci Minores, vol. II, pág. 255, linhas 8 a 10. Citado por Sherk (q.v. Bibliografia).

[14] Veja-se “The Proconsulship of P. Cornelius Scipio”, in Classical Quarterly, 51.1, 201-205 (2001).

[15] Honra dada a apenas alguns poucos procônsules da África e da Ásia, e num curto intervalo de tempo, a última década do século I aC.

[16] CIL VI, 41.050 = AE 1992, 186 = AE 1994, 144.

[17] Ela foi inicialmente publicada por M.Castelli, “Dedica onoraria di età tiberiana a due membri della famiglia degli Scipioni”, MEFRA CIV (1992) 177 ff.

[18] A fonte das ilustrações é a Prosopographia Imperii Romani (PIR), e elas são aqui reproduzidas dentro da expectativa do “fair use”, tendo em vista o uso não-comercial deste trabalho.

[19] Tem-se uma confirmação independente disso a partir da inscrição AE 1967, 458.

[20] Não se sabe qual – não era costume, nas inscrições da época de Augusto e dos primeiros tempos de Tibério, designar expressamente o nome da província.

[21] A inscrição em honra de Cipião é dedicada pelos praefecti de (pelo menos) cinco unidades auxiliares de cavalaria (alae): Ala V dos Ástures, Ala Agripiana, Ala Veterana dos Hispanos, Ala Pretória e Ala dos Recrutas Hispanos. Essas unidades auxiliares devem ter dado apoio à legião que Cipião comandava na fronteira do Reno.

[22] Os nomes de três das cinco unidades de cavalaria listadas na inscrição traem recrutamento espanhol. A II Augusta, enquanto na Espanha, participou de campanhas no norte da península, entre os cântabros e ástures (i.e., na Cantábria e nas Astúrias) – e uma das unidades tem justamente o étnico “ásture”.

[23] Ele casou-se com ela em fins de 37 ou inícios de 38 dC, divorciando-se logo depois. Seu nome é dado como “Lívia Orestila” pelo historiador Suetônio, e como “Cornélia Orestina” pelo historiador Cássio Dião (cf. Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida de Gaio”, cap. 25, parágrafo 1o; Cássio Dião, “História Romana”, livro LIX, cap. 8o).

[24] CIL IX, 6.058.

[25] Fouilles de Delphes, III.1.58.

[26] Um quaestor Caesaris (mais tarde, a partir de 27 aC, quaestor Augusti, quando o Imperador tomou o título de “Augusto”) era um questor cujo nome, como candidato, havia sido proposto às assembléias pessoalmente pelo Imperador por ocasião das eleições – é claro que isso garantia a vitória do felizardo. Portanto, Gneu Cornélio Lêntulo, o quaestor Caesaris honrado na inscrição de Delfos, era alguém que gozava da amizade do Imperador – isso explica-se pelo fato de seu pai haver comandado uma frota na Sicília, pouco tempo antes, em nome de Otaviano.

[27] Nesse ano, o cometa de Halley passou pela Terra, e dizia-se que era a alma de Agripa sendo levada aos céus. Também nesse ano, terminaram enfim as obras colossais que Herodes o Grande estava realizando no hieron (o santuário principal) do Templo de Jerusalém (embora as obras assessórias continuassem ainda em parte inacabadas por ocasião da eclosão da revolta contra Roma, em 66 dC – isso dá uma pálida idéia da grandiosidade do projeto, que era considerado uma das maravilhas do Império).

[28] Cássio Dião, “História Romana”, livro LV, cap. 28, par. 4o; também Floro, “Epítome dos Césares”, livro II, cap. 31.

[29] IRT 301 = AE 1940, 68 = AE 1941, 105 = AE 1948, 6 = AE 1954, 201a.

[30] A fonte da ilustração é a IRT (Inscriptions of Roman Tripolitania), e ela é aqui reproduzida dentro da expectativa do “fair use”, tendo em vista o uso não-comercial deste trabalho.

[31] Cf. ILS 9.349.

[32] Tácito, “Anais”, livro III, cap. 74, par. 2o.

[33] A fonte da ilustração é o portal de história www.livius.org, e ela é aqui reproduzida dentro da expectativa do “fair use”, tendo em vista o uso não-comercial deste trabalho.

[34] ILS 940 = CIL V, 4.329.

[35] Inschr. Eph. III, 659.

[36] Tácito, “Anais”, livro III, cap. 39, par. 1o.

[37] ILS 8.996 (de Volsínios, na Etrúria, atual Bolsena).

[38] A questão acerca dos filhos de Maluginense é bastante delicada. Que Sérvio Cornélio Lêntulo Cétego, cônsul 24 dC, era filho de Maluginense, não há dúvidas; mas, quando dá notícia da morte do flâmine de Júpiter, em 23 dC, Tácito (“Anais”, livro IV, cap. 16) usa uma terminologia ambígua: sub idem tempus de flamine Diali in locum Servii Maluginensis defuncti legendo (…) et filius Maluginensis patris suffectus. Isso tanto pode significar “e Maluginense, o filho, assumiu o seu lugar [como flâmine de Júpiter]” quanto “e o filho de Maluginense assumiu o seu lugar”. A 1a leitura implicaria em aceitar um outro filho para Maluginense, além de Cétego, que tinha o mesmo cognome do pai, que herdou o seu posto sacerdotal, e de quem não mais se ouviu falar (talvez tenha morrido cedo); a 2a leitura implicaria que Cétego, único filho varão de Maluginense, herdou o flaminato de Júpiter. Se assim foi, então, de algum modo, conseguiu superar as restrições do cargo, já que exerceu tranqüilamente o proconsulado da África.

[39] Mas não, frise-se, de vários ramos secundários, com inúmeras quebras (i.e., com continuidade apenas pelas linhagens femininas), que usualmente utilizavam o cognome “Cétego” para os homens e “Cetegila” para as mulheres, até Rúfio Petrônio Nicômaco Cétego, cônsul 504 dC!

[40] Cujo epitáfio (CIL VI, 1.392 = CIL VI, 31.643) foi encontrado na cripta dos Cipiões.

[41] Tácito, “Anais”, livro VI, cap. 30.

[42] Tácito, “Anais”, livro IV, cap. 72; livro VI, cap. 30; Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida de Tibério”, cap. 41, e “Vida de Galba”, cap. 6. Note-se especificamente Tácito, “Anais”, livro VI, cap. 30, par. 6o: Gaetulicus ea tempestate superioris Germaniae legiones curabat mirumque amorem adsecutus erat, effusae clementiae, modicus severitate et proximo quoque exercitui per L. Apronium socerum non ingratus (“Getúlico, por essa época, comandava as legiões da Germânia Superior, ganhando-lhes a afeição, com sua grande clemência e com sua moderação na disciplina – e sua popularidade espalhou-se mesmo no exército vizinho, comandado por seu sogro, Lúcio Aprônio”).

[43] Tácito, “Anais”, livro IV, caps. 72-74; Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida de Tibério”, cap. 41.

[44] Plínio o Moço, “Cartas”, livro V, carta 3a, parágrafo 5o.

[45] Disce, miles, militari: Galba est, non Gaetulicus – cf. Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida de Gaio”, cap. 44, e “Vida de Galba”, cap. 6.

[46] CIL VI, 1.391.

[47] Para a cooptação, cf. Tácito, “Anais”, livro XV, cap. 22, par. 2ª: defunctaque virgo Vestalis Laelia, in cuius locum Cornelia ex familia Cossorum capta est (“e, tendo morrido a virgem vestal Lélia, em seu lugar foi cooptada Cornélia, da parentela dos Cossos”). Para os testemunhos epigráficos, ver CIL VI, 9.834 e CIL VI, 17.170.

[48] Esse Décimo Júnio Silano, da distinta família dos Júnios Silanos, representantes da mais alta nobreza, era filho de Lúcio Júnio Silano, cônsul sufeta 26 dC, e neto daquele Décimo Júnio Silano, um dos envolvidos no nebuloso escândalo de adultério de Júlia a Moça, a neta de Augusto, filha de sua filha Júlia e de Agripa. Sentido a situação perigar, Décimo, Iuliae adulter, se auto-exilou em 8 dC; no ano 20 dC, Tibério enfim permitiu que retornasse a Roma (cf. Tácito, “Anais”, livro III, cap. 24).

[49] CIL VI, 2.002. Ver também “Fasti Sacerdotum”, por Jörg Rüpke e Anne Glock, vol. II, “Biographien”, Franz Steiner Verlag, 2005, págs. 1.085 e 1.086.

[50] Mais um indício de que Décimo Júnio Silano Getúlico teria morrido jovem, sucedendo então Marco Júnio Silano Lutácio Catulo ao pai no seu posto sacerdotal.

[51] CIL VI, 1.439 = ILS 959. A fonte da 1a ilustração é a Prosopographia Imperii Romani (PIR); a da 2a, uma gravação do famoso artista do séc. XVIII, Piranesi. Elas são aqui reproduzidas dentro da expectativa do “fair use”, tendo em vista o uso não-comercial deste trabalho.

[52] Para marcar sua ascendência cipiônica, os Lêntulos Getúlicos passaram a reutilizar a antiga cripta dos Cipiões, na via Ápia, perto da atual Porta de São Sebastião – embora não mais fossem inumados, utilizando sarcófagos, como os velhos Cipiões, mas sim cremados, com suas cinzas depositadas em urnas cinerárias. Uma lápide bastante fragmentada (CIL VI, 41.049) atesta o nome de Sérvio Lêntulo Maluginense (ou o cônsul sufeta de 10 dC ou o seu filho, cônsul 24 dC); as lápides de Cornélia Getúlica (CIL VI, 1.392 = CIL VI, 31.643), irmã de Gneu Getúlico, o cônsul de 26 dC, e de Cornélia Cesiana, sua filha com Aprônia Cesiana, a filha de Lúcio Aprônio (CIL VI, 1.391), também foram encontradas na cripta; e, enfim, a de Marco Júnio Silano Lutácio Cátulo (CIL VI, 1.439 = ILS 959).

[53] Didaticamente falando, pode-se dizer que as guerras civis romanas, com alguns intervalos de paz, compreenderam quatro fases distintas, de crescente ferocidade: i) os Gracos e a luta pela distribuição de terras (133 a 102 aC); ii) Mário e Sila (102 a 79 aC); iii) Pompeu e César (79 a 44 aC); iv) Antônio e Otaviano (44 a 30 aC).

[54] Esses números jamais foram utilizados novamente por nenhuma legião romana. Diz-se que o Imperador Augusto, já idoso, durante meses, em sinal de luto pelos que morreram, não cortou o cabelo e nem barbeou-se; e, sem conseguir conciliar o sono, perambulava pelo palácio, exclamando: “Quintílio Varo, devolve-me as minhas legiões!” (Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida do Divino Augusto”, cap. 23; ver a narrativa circunstanciada em Cássio Dião, “História Romana”, livro LVI, caps. 18 a 24). Ao contrário do que dizem alguns, Varo não era um comandante inábil, ou covarde. Públio Quintílio Varo, da distinta família dos Quintílios, havia sido cônsul 13 aC, procônsul da África 8-7 aC, e governador da Síria 6-4 aC (tendo de lidar, na ocasião, com os distúrbios que se seguiram à morte de Herodes o Grande). Tinha uma excelente ficha de serviços, era um administrador metódico e um comandante militar cuidadoso, e parecia a escolha certa para consolidar as conquistas germânicas – mas foi enganado e superado pela tática de “guerrilha” adotada pelo chefe germano, Armínio (Hermann), da tribo dos queruscos, que o fez avançar por florestas e pântanos, internando-o, e a seus legionários, em lamaçais, densas e escuras florestas e terrenos acidentados – enfim, em locais onde as táticas de combate romanas não se mostravam as mais adequadas, e onde o grande tamanho dum exército tornava-se uma nítida desvantagem. Varo, por assim dizer, “seguiu fielmente o manual”, e por isso acabou derrotado. Seu desastre alertou os romanos – eles jamais voltaram a subestimar os germanos.

[55] Ele obteria o Sumo Pontificado apenas em 12 aC, após a morte (natural) do Sumo Pontífice Lépido (que sempre recusara obstinadamente a hipótese de renunciar a tal cargo); Augusto podia tê-lo matado, mas não quis macular com um assassinato a sua ascensão a um cargo sacerdotal tão importante; preferiu esperar pacientemente pela morte do rival.

[56] A província da África Proconsular incluía, do ocidente para o oriente: a parte oriental da Argélia; a Tunísia; a faixa litorânea líbia chamada “Tripolitânia” (por causa de suas “três cidades” de Oéia, Sabrata e Lécpis a Grande), até à fronteira com Cirene, na região dos Altares dos Filenos. A fronteira sul seguia o limite das terras cultiváveis, na região de transição entre a estepe e o deserto do Saara – uma fronteira extensa, mal definida, sem linhas naturais de defesa. Daí a facilidade com que os nômades berberes (nasamões, musolanos, garamantes, “gétulos”, etc.) podiam realizar incursões. Daí também a importância estratégica da província, de sua única legião, e de suas numerosas tropas auxiliares, presentes um pouco por toda a parte ao longo dessa extensa e fluida fronteira. E, além de cuidar dos assuntos da própria província, o procônsul tinha também, várias vezes, que ajudar o vizinho reino-cliente da Mauritânia, às voltas com os mesmos problemas (até Calígula resolver a situação, anexando o reino). A região da Mauritânia era chamada “a terra dos mauri”, isto é, “mauros” – daí a origem tanto da palavra “mouro” quanto do nome “Marrocos” (o atual país africano chamado “Mauritânia” praticamente nada tem a ver, geograficamente, com a antiga “Mauritânia” dos tempos romanos, que englobava o norte e o centro do atual Marrocos e a parte mais ocidental da atual Argélia, com a fronteira seguindo, como sempre, o limite do Saara).

[57] Acredite-se, se se quiser, que tais “sorteios” eram isentos. Os próprios senadores podiam, entre si, “ajeitar as coisas”, designando um ou outro ex-pretor ou ex-cônsul para tal ou qual província. E o Imperador, obviamente, podia “indicar” seus favoritos – ou interferir, usando seu poder proconsular, se algum indicado, por qualquer motivo que fosse, não lhe agradasse. Os cargos proconsulares da África e da Ásia, duas províncias ricas, altamente urbanizadas e civilizadas, com suas capitais respectivamente em Cartago e Pérgamo (na prática, Éfeso), eram muito cobiçados, e normalmente reservados aos mais nobres entre os nobres, como um coroamento de carreira. Especificamente quanto à África, uma boa parte das terras era de propriedade das ricas famílias senatoriais romanas – esse, inclusive, foi um dos principais motivos por que Augusto permitiu que essa província, tão próxima da Itália, tão rica e tão estrategicamente importante (grande produtora de trigo para exportação), com sua legião e sua enorme quantidade de tropas auxiliares, permanecesse nas mãos do Senado. Ele sabia ser diplomático. Calígula, ao contrário, foi bem mais direto, eficiente – e brutal, como era seu estilo.

[58] O Egito, portanto, como se vê, era um caso bem distinto. Augusto, após conquistar o país (30 aC), reservou-o para si, quase como uma propriedade privada, e jamais permitiu que os senadores tivessem qualquer influência nessa província. Era uma questão estratégica – o país era o maior produtor de trigo do mundo antigo, facilmente coletável, transportável (via Nilo) e armazenável em Alexandria, para uso tanto dos habitantes de Roma e dos exércitos, quanto para venda. A organização e a administração da “frota imperial de Alexandria” (Classis Augusta Alexandrina), encarregada do transporte do trigo até Óstia, o porto de Roma, era um sério assunto de Estado. Dentro do Egito, o Imperador romano era, para todos os fins práticos, um rei (para os gregos), ou um Faraó (para os nativos); era, inclusive, representado, no estilo egípcio, nas paredes dos templos do país, com seu nome encapsulado em cartuchos e gravado em hieróglifos, e com toda a titulatura dos antigos Faraós (“Rei do Alto e do Baixo Egito”; “filho de Rá”; “amado por Ptá e por Ísis”, etc.). Nesse contexto, os governadores e administradores romanos enviados para o Egito, todos de nível eqüestre, eram bem mais submissos ao Imperador, e, na média, bem mais competentes em termos de arrecadação de impostos.

[59] Esse Arquelau (que não deve ser confundido com o Arquelau filho de Herodes o Grande) era reputado como um tanto desequilibrado mentalmente; Tibério o havia convocado a Roma nos finais de 14 dC, a fim de responder a graves acusações referentes a atos de má administração; é provável que, vendo a situação perdida, ele tenha enfim se suicidado. O filho de Arquelau, contudo, Arquelau II, manteve uma parte dos domínios paternos, a Cilícia Traqueótide, juntamente com as cidades de Derbe e de Laranda; governou até à sua morte, em 37 dC, no início do império de Calígula. Seus territórios foram então incorporados no recém-restabelecido reino da Comagena.

[60] Foram duas províncias de segunda classe, governadas por procuradores eqüestres. Seus nomes derivam de suas capitais, respectivamente Cesaréia da Mauritânia (a atual Cherchel, na Argélia) e Tíngis (a atual Tânger, no Marrocos).

[61] Alpes Marítimos, Alpes Graios e Peninos e Alpes Cótios (províncias procuratorianas, como as duas Mauritânias): o processo iniciou-se sob Augusto e concluiu-se c. 63-65 dC, sob Nero.

[62] Os jogos (da 211a Olimpíada) deveriam ter sido realizados em 65 dC, mas foram adiados por dois anos, tendo em vista a visita programada do Imperador, que havia manifestado expressamente o seu desejo de competir. Logicamente, Nero venceu uma série de provas, não apenas de índole poético-literária (a dos heraldos, a dos citaredos e a da composição de tragédias), mas também hípicas (corrida de biga puxada por dois cavalos, de biga puxada por dois potros e corrida de carruagem puxada por dez potros). Ver Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida de Nero”, cap. 24.

[63] Ele concebeu também um plano grandioso para cortar um canal no istmo de Corinto; os trabalhos, apesar de iniciados, foram interrompidos com o fim do reinado de Nero e com as desordens dos anos 68-69 dC (cf. Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida de Nero”, cap. 19 e cap. 24; também Filóstrato, “Vida de Apolônio de Tiana”, livro IV, cap. 24, e Cássio Dião, “História Romana”, livro LXII, cap. 16).

[64] Cf. Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida de Vespasiano”, cap. 8o, par. 4o; também Pausânias, “Descrição da Grécia”, livro VII, cap. 17, par. 4o.

[65] Para pertencer à ordem senatorial, ou dela continuar a fazer parte, uma fortuna 800.000 sestércios, depois aumentada para 1.200.000 sestércios (em dinheiro sonante e/ou em bens de raiz) era requerida; para a ordem eqüestre, o piso era de 400.000 sestércios (disposições finais de Augusto a partir duma lei de sua autoria, Lex Iulia de Magistratibus, de 12 aC, cf. Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida do Divino Augusto”, cap. 41; Cássio Dião, “História Romana”, livro LIV, cap. 17). Em ambos os casos, a pessoa tinha que ter nascido livre, i.e., libertos não podiam, em hipótese alguma, ser senadores ou cavaleiros (mas seus filhos, se nascidos livres, sim).

[66] O cursus honorum eqüestre iniciava-se, necessariamente, via carreira militar. O serviço no exército, então como depois em muitas sociedades, constituía-se num importante instrumento de flexibilidade e de ascensão social.

[67] Isto é, “da faixa estreita” – referência à estreita faixa púrpura que os membros da ordem eqüestre podiam usar em suas togas (os cidadãos comuns usavam uma toga lisa, sem nenhum ornamento).

[68] Isto é, “da faixa larga” – referência à larga faixa púrpura que os senadores e seus filhos podiam usar em suas togas. Nas legiões estacionadas no Egito, todos os seis tribunos eram “angusiclavos” – não havia senadores lá.

[69] Desde 22 aC. Desde 18 aC, o seu título passou a ser de “prefeitos do suprimento do trigo” (praefecti frumenti dandi), e seu número, originariamente de 2, passou a 4.

[70] Desde 28 aC.

[71] Desde 6 dC. O aerarium militare (criado nesse ano), além de aportes advindos da fortuna pessoal do Imperador (fiscus), era alimentado por um imposto especial, também instituído nessa ocasião, a taxa de 5% sobre as heranças e legados (vicesima hereditatium et legatorum). Passaram a existir, assim, três “tesouros”: o aerarium (tesouro público), o fiscus (tesouro pessoal do Imperador) e o aerarium militare (o caixa específico para os soldos e reformas do exército).

[72] Desde 20 aC.

[73] É importante notar que todas as evidências explícitas para tais “missões” vêm apenas a partir do séc. II dC, ou seja, duma época em que a estrutura administrativa imperial já se encontrava mais amadurecida. Se as houve na época dos Júlio-Cláudios, e mesmo dos Flávios, era algo sumamente excepcional

[74] Desde 15 dC, sob Tibério.

[75] Desde 12 ou 11 aC.

[76] Data incerta, mas da época de Augusto.

[77] A não ser que fosse da família imperial, exercer três consulados era considerado o summum fastigium, o máximo da distinção a que podia aspirar socialmente um senador. Pouquíssimos chegaram a esse ponto, que indicava um grau especial de consideração, e de favorecimento, por parte do Imperador.

[78] Desde 26 aC.

[79] Afinal, é dos romanos o velho ditado, verba volant, scripta manent (“as palavras voam, os escritos ficam”).

[80] Citem-se, também da Espanha, e de c. 82-84 dC, a lex Salpensana e a lex Malacitana.

[81] Chamadas tabulae aenea (CIL I2, 2.924), ou tabula aerea, cf. Plínio o Velho, “História Natural”, livro XXXIV, par. 99.

[82] Tabula dealbata, cf. CIL XI, 1.421 = ILS 140. A lousa era também chamada alba.

[83] Tabula cerata, p.ex. Plauto, “Asinária”, verso 763.

[84] As cidades antigas estavam, assim, repletas de inscrições públicas; mesmo que a esmagadora maioria das pessoas fosse analfabeta, podiam pedir que alguém lhes lesse. As inscrições eram usualmente postas nos lugares de grande trânsito de pessoas – daí o acúmulo delas nos mercados (fóruns), nas basílicas, nas proximidades dos templos, ao longo das ruas principais e, mesmo, nas vizinhanças (ou no interior) de teatros, anfiteatros, circos e banhos públicos.

[85] O pergaminho, na época de Augusto e dos Júlio-Cláudios, e mesmo depois, era por demais caro para esse tipo de uso. A esmagadora maioria dos livros era escrita em rolos de papiro, e num lado só; cartas, recibos, contratos, e documentos curtos da espécie o eram em folhas individuais, ou tiras, de papiro, também num lado só, podendo a resposta, se requerida, ser enviada no mesmo material, escrita no verso (daí a expressão rescripta – escrito novamente).

[86] Não se deve esquecer que, mesmo nos edifícios de pedra, a cobertura do teto era feita usualmente de madeira – mesmo nos templos, basílicas, prédios públicos, mansões e palácios. Raros eram os edifícios construídos inteiramente com pedra – um exemplo notável foi o Panteão de Agripa, em Roma, após a reforma de Adriano. Sua cobertura cupulada era de concreto, coberta originariamente com telhas de bronze, fixadas à estrutura por meio de buchas de chumbo. Por isso o prédio sobreviveu virtualmente intacto até aos dias de hoje. Os banhos públicos também eram construídos, usualmente, em estruturas abobadadas de pedra, tijolo ou concreto – o uso de madeiramento no teto poderia induzir mais facilmente a incêndios, especialmente em prédios nos quais queimava-se lenha continuamente para manter as águas aquecidas.

[87] O exemplo clássico foi o discurso pronunciado pelo Imperador Cláudio no Senado em 48 dC, acerca da entrada naquela assembléia de ricos provincianos oriundos da Gália situada além da Provença (i.e., das “Três Gálias”, a Lugdunense, a Aquitânia e a Bélgica). A transcrição verbatim foi encontrada, em grande parte, em tábuas de bronze em Lugduno (Lião), na Gália (CIL XIII, 1.668 = ILS 212), e o historiador Tácito (que escreveu nos inícios do séc. II dC) fez uma paráfrase desse mesmo discurso (“Anais”, livro XI, caps. 23 e 24), obviamente a partir da consulta aos arquivos presentes no Tabulário de Sila. Mas a situação era excepcional: o próprio Imperador discursava, e mais, referia-se a um assunto delicado: a inclusão no Senado, no próprio Senado de Roma, na mais alta ordem da sociedade, de gauleses da Gallia Comata, cujos avós até recentemente haviam sido inimigos ferozes do Estado romano, e conquistados por Júlio César apenas cerca de 100 antes do principado de Cláudio.

[88] Júlio César, no seu 1o consulado (59 aC), fez publicar desse modo as acta senati (cf. Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida do Divino Júlio”, cap. 20); a prática foi descontinuada por Augusto (cf. Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida do Divino Augusto”, cap. 36).

[89] O erário (aerarium) era sempre o tesouro público (no caso de Roma, o tesouro do Senado); o fisco (fiscus), ao contrário, era o tesouro pessoal do Imperador (que, na prática, ao longo das gerações, foi se tornando um tesouro público também). A esses dois tesouros acrescentou-se, como já se mencionou, o aerarium militare em 6 dC.

[90] Tanto entre cidades quanto entre cidades e governadores provinciais, ou mesmo entre cidades e Imperadores. As cidades podiam enviar embaixadas diretamente ao Imperador, em Roma, para tratar de assuntos de seu interesse. Usualmente escolhiam-se os mais ricos e/ou cultos cidadãos para liderar essas embaixadas.

[91] Além da cidadania romana (teoricamente, a cidadania da cidade de Roma), cada centro urbano do Império (civitates em latim; poleis em grego) tinha a sua própria cidadania; quem não era cidadão era considerado “estrangeiro residente” (peregrinus lat., metoikos gr.), mesmo que tivesse nascido na cidade. Apenas cidadãos (cives lat., politai gr.) podiam pertencer às assembléias populares (comitia lat.; koinoi gr.), votar e concorrer aos cargos públicos; igualmente, apenas cidadãs podiam se beneficiar de algumas benesses, como banquetes públicos, lugares privilegiados nos teatros, anfiteatros e circos, ou distribuições gratuitas de trigo em tempos de escassez. E, dentre os cidadãos, apenas os mais ricos podiam exercer os diversos cargos públicos (decalcados nas antigas magistraturas anuais republicanas da cidade de Roma – a ordem usual para as magistraturas municipais era questores, edis e duúnviros, estes últimos os análogos dos pretores e cônsules), bem como pertencer ao conselho municipal dos senadores locais (curia, nalguns casos mesmo senatus lat.; boulê ou sygkletos gr.), chamados decuriões (decuriones lat.; bouleutai gr.). Dentre os decuriões, era costume que os dez mais ricos e influentes (os “dez primeiros” – decemprimi lat., dekaprôtoi gr.) tivessem especial distinção e, na prática, conduzissem todos os assuntos municipais importantes. Era usualmente com esses “dez primeiros” que as autoridades romanas lidavam; eram eles que normalmente eram enviados em embaixadas ao governador provincial ou ao Imperador, e eles passavam por representar toda a comunidade.

[92] Era importante para o governo central saber o número dos cidadãos romanos e o montante de seus recursos, já que havia impostos que incidiam apenas sobre os cidadãos. E, é claro, era importante também ter dados acerca da população total do Império e de seus recursos, a fim de poder avaliar o orçamento do Estado como um todo. Contudo, apenas os dados consolidados alcançavam a capital; é razoável supor que, ao menos numa forma resumida, fossem gravados em tábuas de bronze e depositados no Tabulário de Sila.

[93] Note-se, contudo, que os documentos de baixa honrosa (honesta missio) eram guardados em tábuas de bronze no Tabulário de Sila.

[94] Plínio o Moço, “Cartas”, livro X, carta 22.

[95] O Senado não recebeu nada em troca da Bitínia-e-Ponto, já que a transferência era considerada “provisória”; mas em 180 dC, quando o Imperador enfim decidiu que a transferência seria permanente, pela Bitínia-e-Ponto o Senado foi “indenizado” com a insignificante Lícia-e-Panfília. Instruções semelhantes foram dadas a Domício Corbulão por Nero, mas aí também se tem um caso excepcional, no contexto das grandes campanhas militares a serem levadas a efeito no Oriente, contra os partas.

[96] Cita-se muito, mais uma vez, o caso de Plínio o Moço, cujo décimo livro de suas “Cartas” lida com a correspondência que manteve com o Imperador Trajano, durante seu governo na Bitínia-e-Ponto (c.109 – c. 113 dC). Contudo, sua missão, como visto, era especial. Além do mais, Plínio era um senador, e ex-cônsul; tinha proximidade suficiente com Trajano para poder dirigir-lhe uma correspondência volumosa. Dum modo geral, na visão dum governador provinciano, quanto menos precisasse contatar o Imperador, tanto melhor. E, para o Imperador, quanto menos fosse incomodado com questões provincianas, melhor.

[97] Daí a importância das embaixadas, enviadas por cidades ou por províncias, diretamente ao legado propretoriano mais próximo (no caso de províncias de 2a classe), ou mesmo diretamente ao Imperador, sem necessidade de qualquer “permissão” do governador provinciano.

[98] “Ele [Vespasiano] iniciou pessoalmente a restauração do Capitólio, sendo o primeiro a limpar, com as próprias mãos, os detritos do incêndio, transportando inclusive a primeira carga deles. E providenciou a reposição de três mil tábuas de bronze, que haviam sido destruídas [no Tabulário] juntamente com o templo capitolino, ordenando que fossem feitas cópias – antiqüíssimos e valiosíssimos testemunhos dos atos do Império, contendo os decretos do Senado e do Povo, quase desde a fundação da cidade, a respeito de alianças, tratados e privilégios especiais garantidos a indivíduos.” (Ipse restitutionem Capitolii adgressus, ruderibus purgandis manus primus admovit ac suo collo quaedam extulit; aerearumque tabulatum tria milia, quae simul conflagraverant, restituenda suscepit undique investigatis exemplaribus: instrumentum imperii pulcherrimum ac vetustissimum, quo continebantur paene ab exordio urbis senatus consulta, plebiscita de societate et foedere ac privilegio cuicumque concessis. – Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida de Vespasiano”, cap. 8).

[99] Cássio Dião, “História Romana”, epítome do livro LXXIII, parágrafo 24: “Imediatamente antes da morte de Cômodo, ocorreram uma série de portentos: várias águias de mau agouro voaram ao redor do Capitólio, grasnando de forma terrível, como a anunciar uma tragédia; e, além disso, uma coruja surgiu no local. Logo a seguir, um incêndio iniciou-se na região do Templo da Paz, espalhando-se por uma série de depósitos cheios de mercadorias egípcias e árabes, onde ganhou força e terminou por alcançar o Palácio [i.e., o conjunto das edificações imperiais da colina palatina], consumindo grande parte dele, de modo tal que todos os arquivos imperiais foram destruídos. Isso tornou claro que um grande mal atingiria não apenas a Cidade, mas também todo o mundo civilizado; porque as chamas não puderam em hipótese alguma ser extintas pelo esforço humano, e isso apesar duma grande multidão de soldados e de civis as combaterem com vigor, lançando-lhes água ininterruptamente, tendo o próprio Cômodo vindo de uma das residências imperiais suburbanas, onde então se encontrava, para os encorajar. Apenas quando completou a destruição de todos os lugares que tinha alcançado é que o incêndio finalmente perdeu força, e acabou por ser dominado.”

[100] Isso mostra que, mesmo que se suponha que alguma narrativa oficial do processo de Jesus tenha algum dia existido (e é virtualmente certo que nunca existiu), ela não poderia ter sobrevivido aos finais do séc. II dC.

[101] Romanorum primus Cn. Pompeius Iudaeos domuit templumque iure victoriae ingressus est: inde vulgatum nulla intus deum effigie vacuam sedem et inania arcana. Muri Hierosolymorum diruti, delubrum mansit. Mox civili inter nos bello, postquam in dicionem M. Antonii provinciae cesserant, rex Parthorum Pacorus Iudaea potitus interfectusque a P. Ventidio, et Parthi trans Euphraten redacti: Iudaeos C. Sosius subegit. Regnum ab Antonio Herodi datum victor Augustus auxit. Post mortem Herodis, nihil expectato Caesare, Simo quidam regium nomen invaserat. Is a Quintilio Varo obtinente Syriam punitus, et gentem coercitam liberi Herodis tripertito rexere. Sub Tiberio quies. Dein iussi a C. Caesare effigiem eius in templo locare arma potius sumpsere, quem motum Caesaris mors diremit. Claudius, defunctis regibus aut ad modicum redactis, Iudaeam provinciam equitibus Romanis aut libertis permisit, e quibus Antonius Felix per omnem saevitiam ac libidinem ius regium servili ingenio exercuit, Drusilla Cleopatrae et Antonii nepte in matrimonium accepta, ut eiusdem Antonii Felix progener, Claudius nepos esset.

[102] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 4o, par. 6o (106-108); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 9o, par. 6o (181).

[103] Esse Agripa, ou Marco Júlio Agripa, para se dar o seu nome romano, era filho de Aristóbulo, um dos filhos de Herodes o Grande do seu 1o casamento, com Mariana I, a princesa judia da família dos Hasmoneus (portanto, Agripa era neto de Herodes o Grande). Tanto Aristóbulo, seu pai, quanto Alexandre, seu tio, filhos de Mariana, haviam sido executados por Herodes, sob suspeitas de conspiração. Agripa havia sido criado em Roma, na casa de Antônia, a filha de Marco Antônio e Otávia (irmã de Augusto), onde também havia sido criado Calígula. Os dois eram companheiros de farras.

[104] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 6o, par. 10o (237); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 9o, par. 6o (181-183). Calígula também prometeu a Agripa os antigos territórios dos árabes itureus que haviam estado sob o governo de Lisânias, isto é, o distrito da Abilena, com sua capital na cidade de Ábila; mas tais terras apenas lhe foram dadas por Cláudio, em 41 dC, na ocasião da abolição da província da Judéia – Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XIX, cap. 5o, par. 1o (275).

[105] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XIX, caps. 1o a 5o, par. 1o (1-277); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 11, par. 1o a 5o (204-217). O reino de Agripa I compreendia, assim, a Judéia, a Iduméia, a Samaria, a Galiléia, a Peréia, a Batanéia, a Traconítide, a Gaulanítide, a Abilena e o distrito de Pânias; de todas essas regiões, apenas a Judéia e a Galiléia podiam ser consideradas efetivamente como “judaicas”, tanto em termos religiosos quanto étnicos; a população da Iduméia (de onde, aliás, era originário Herodes o Grande) era de religião judaica, mas mantinha uma forte idiossincrasia regional, já que não descendia, majoritariamente, de judeus étnicos; os samaritanos, embora cultuassem o mesmo Deus que os judeus, eram seus inimigos declarados, e não reconheciam o culto do Templo de Jerusalém; quanto às demais regiões, eram majoritariamente pagãs, e sem dúvida prefeririam o governo romano ao judaico.

[106] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XIX, cap. 5o, par. 1o (277); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 11, par. 5o (217). Para distingui-lo de outros Herodes, ele é conhecido como “Herodes de Cálcis”.

[107] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XIX, cap. 9o, par. 2o (362-363); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 11, par. 6o (218-220).

[108] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XX, cap. 1o, par. 3o (15). Com sua morte, esses direitos passaram para Agripa II, até à revolta do ano 66 dC.

[109] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XX, cap. 5o, par. 2o (104); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 12, par. 1o (223).

[110] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XX, cap. 7o, par. 1o (137); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 12, par. 8o (247).

[111] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XX, cap. 8o, par. 4o (159); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 13, par. 2o (252).

[112] Ele subia a Jerusalém, acompanhado de tropas, por ocasião das grandes festas, especialmente da Páscoa, a fim de poder melhor controlar as multidões e, se necessário, debelar qualquer distúrbio no nascedouro. Quando na cidade, instalava-se, com seus soldados, na fortaleza Antônia, vizinha à esplanada do Templo.

[113] Inclusive o tão polêmico “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. Pilatos é corretamente retratado como um militar (a carreira eqüestre era eminentemente militar); alguns de seus auxiliares diretos podiam ser oficiais legionários, mas os soldados sob seu comando não eram legionários. Pilatos podia muito bem falar em latim com seu “staff” direto, mas provavelmente falaria em grego com esses auxiliares, e, certamente, em grego com as autoridades judaicas. A única língua estrangeira que os romanos se dignavam aprender e falar era o grego, a “língua franca” do oriente do Império.

[114] Cf. Flávio José, “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 3, par. 4o (53), referindo-se às desordens que se seguiram à morte de Herodes o Grande em 4 aC: “Muitos daqueles que haviam lutado sob o rei [Herodes] acabaram abandonando os romanos, e uniram-se aos judeus em seus distúrbios; mas os melhores dentre eles, o núcleo do exército, constituído de 3.000 homens de Sebástia [i.e., samaritanos], juntamente com seus comandantes, Rufo e Grato [To mentoi polemikôtaton meros, Sebastênoi trischilioi Rhouphos te kai Gratos epi toutois], permaneceram leais a Roma. Grato era o chefe da infantaria, e Rufo, da cavalaria [Rhouphos de tous hippeis]; eram ambos guerreiros eficientes e experimentados, e puderam virar a maré da guerra.”

[115] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XIX, cap. 9o, par. 2o (364-365), referindo-se aos tumultos que se seguiram à morte de Agripa II, na iminência da restauração da província da Judéia: “E ele [o novo procurador, Cúspio Fado, 44-c.46 dC] deveria [por ordem do Imperador Cláudio] retirar os corpos de soldados que se encontravam em Cesaréia e em Sebástia [Samaria], com os cinco regimentos de infantaria [tas pente speiras], para o Ponto, a fim de que passassem a prestar o serviço militar lá, substituindo-os por igual número de tropas recrutadas entre as forças romanas da Síria [tôn d’en Syrían Rhômaikôn tagmatôn epileksai stratiôtas kat’arithmous kai ton ekeinôn anaplêrôsai totton]. Mas tal ordem não foi cumprida, conseguindo-se demover Cláudio, permanecendo essas forças na Judéia – esses mesmos soldados que seriam a fonte de tantas calamidades para os judeus nos tempos que se seguiriam, e cujas sementes seriam colhidas por Floro [Géssio Floro, o último dos procuradores, 64-66 dC]; tanto que, quando Vespasiano finalmente subjugou todo o país, removeu-os para fora da província.”

[116] AE 1948, 150 (encontrada na região da Samaria, próxima à antiga Sebástia): ] Arr[3] / tesse[rarius(?) 3] / coh(ortis] V [Augustae(?)] / c(ivium) R(omanorum) [Sebastenae(?) 3] / per C(aium) [3] / Sabin[um. A inscrição em si pode datar de depois da revolta judaica; por sua participação ao lado dos romanos, os soldados podem ter ganho a cidadania romana (a coorte é intitulada civium Romanorum, “de cidadãos romanos”).

[117] Cf. Flávio José, “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 12, par. 5o (236): “E Cumano [o procurador Ventídio Cumano, 48-52 dC] tomou de Cesaréia uma unidade de cavaleiros, chamada a tropa de Sebástia [Koumanos de analabôn apo tês Kaisareias mian ilên hippeôn kaloumenên Sebastênôn], indo em socorro dos [samaritanos] que estavam sendo atacados por Eleazar, debelando os atacantes, matando um grande número deles, tomando o restante como prisioneiros e depois os executando”. O caso refere-se aos tumultos que se seguiram à morte dum peregrino galileu a caminho de Jerusalém, quando o grupo no qual viajava foi atacado por samaritanos; isso serviu para que vários grupos de judeus, por sua vez, se organizassem e, liderados por Eleazar, passassem a atacar inúmeras aldeias dos samaritanos.

[118] Cf. Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XX, cap. 6o, par. 1o (122): “Quando Cumano soube dos distúrbios [os ataques de Eleazar aos samaritanos], tomou [de Cesaréia] as tropas sebastenas, com quatro regimentos de infantaria [Koumanos de tês prakseôs eis auton aphikomenês analabôn ten tôn Sebastênôn hilên kai pezôn tessara tagmata], armou os samaritanos e marchou contra os judeus, capturando-os, matando um grande número e aprisionando vários”. Essa narrativa refere-se aos mesmos tumultos relatados na nota anterior. Assim, depreende-se que Cumano utilizou tanto a unidade de cavalaria quanto as de infantaria para impor a ordem.

[119]Atos, cap. 10, vers. 1o e 2o: “Na cidade de Cesaréia morava um homem chamado Cornélio, centurião da coorte chamada Itálica [Anêr de tis hên em Kaisareiai onomati Kornêlios hekatontarchês ek speirês tês kaloumenês Italikês]. Era piedoso e, junto com todos os de sua casa, pertencia ao grupo dos tementes a Deus; dava muitas esmolas ao povo, e orava sempre a Deus.”

[120] São a I Italica Milliaria Civium Romanorum e a II Italica Milliaria Equitata Sagittaria Voluntariorum Civium Romanorum. Como seus nomes dizem, eram ambas constituídas por cidadãos romanos, e recrutadas originariamente na Itália. Essas unidades, assim como inúmeras outras com a denominação voluntariorum (“dos voluntários”) e semelhantes, originaram-se: a) com certeza, de duas conscrições emergenciais feitas na época de Augusto, entre cidadãos pobres e mesmo libertos, para lidar com a revolta da Panônia (6 a 9 dC) e com a derrota de Quintílio Varo na Germânia (no ano 9 dC) – cf. Cássio Dião, “História Romana”, livro LV, cap. 31 e livro LVI, cap. 23; Veleio Patérculo, “Histórias”, livro II, cap. 111; Suetônio, “Sobre as Vidas dos Césares”, “Vida do Divino Augusto”, cap. 25; b) talvez duma outra conscrição emergencial, feita por Tibério em 19 dC entre 4.000 libertos, adeptos dos cultos egípcios ou “tementes a Deus” que nutriam simpatias pela religião judaica, para lidar com os guerrilheiros que infestavam o interior da Sardenha, como alternativa à sua expulsão da cidade de Roma (cf. Tácito, “Anais”, livro II, cap. 85). É tentador considerar que a “coorte Itálica” presente na Cesaréia Marítima na ocasião fosse de sobreviventes simpatizantes do judaísmo que haviam lutado na Sardenha. Tratar-se-ia, no caso, da I Italica Milliaria Civium Romanorum, e explicaria a boa-vontade de Cornélio para com a religião judaica.

[121] Atos, cap. 27, vers. 1o: “Quando foi decidido que embarcaríamos para a Itália, Paulo e alguns outros prisioneiros foram entregues a um centurião chamado Júlio, da coorte ‘Augusta’ [Ôs de ekrithê tou apoplein hêmas eis ten Italian paradidoun ton te Paulon kai tinas heterous desmôtas hekatontarchêi onomati Iouliôi speirês Sebastês]”

[122] Há evidência duma unidade semelhante na inscrição AE 1925, 121, datada dos anos 80 dC, e referente a uma coorte “Augusta”, comandada por um Lúcio Obúlnio, e parte do exército do remanescente reino de Agripa II. Mas deve tratar-se do mesmo caso – antiga unidade da guarnição da província da Judéia, agora servindo a Agripa II.

[123] Flávio José, “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 18, par. 1o (460).

[124] Flávio José, “A Guerra Judaica, livro III, cap. 2o, par. 1o (9-28).

[125] Flávio José, “A Guerra Judaica”, livro III, cap. 4o, par. 2o (65-68).

[126] Ao menos uma das coortes sebastenas tornou-se miliária, cf. AE 1948, 151: miles coh(ortis) 3] / c(ivium) Romanorum m(illiariae) S[ebastenae 3] / Treblan[us 3] / Rufus S[. A inscrição pode ser posterior à revolta judaica, tendo a unidade sido recompensada com a cidadania romana por sua participação ao lado de Vespasiano.

[127] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 6o, par. 5o (177).

[128] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVII, caps. 10 e 11, par. 1o (250-299); “A Guerra Judaica”, livro II, caps. 3o a 5o (39-79).

[129] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 1o, par. 1o (1-3).

[130] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 4o, par. 2o (88-89).

[131] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 8o, pars. 2o a 9o (261-309); “A Guerra Judaica, livro II, cap. 10o, pars. 1o a 5o (184-203).

[132] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XX, cap. 6o, par. 2o (125-133); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 12, pars. 5o e 6o (239-244).

[133] Flávio José, “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 1, pars. 9o e 10o (499-512); livro II, cap. 19, pars. 4o a 9o (527-555).

[134] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 3o, par. 1o (55-59); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 9o, pars. 2o e 3o (169-174).

[135] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 3o, par. 2o (60-62); “A Guerra Judaica”, livro II, cap. 9o, par. 4o (175-177).

[136] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 4o, par. 1o (85-87).

[137] Flávio José, “As Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. 4o, par. 2o (88-89).

[138] Os números das páginas seguem a numeração da obra “Há Dois Mil Anos”, 29ª edição, 386º a 410º milheiro, Federação Espírita Brasileira, obtido em arquivo de extensão “pdf” no portal da referida Federação.

[139] Veja-se Sherk, R. K., “The Eponymous Officials of Greek Cities – IV”, in Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik 93 (1992), págs. 223–272. Uma mulher, Coscônia Mirte, exerceu três vezes esse cargo, entre o final do reinado de Domiciano e o ano 118 dC.

[140] Ver Sherk, R. K., “Rome and the Greek East to the Death of Augustus”, págs. 96-97.

Blogado do Obras Psicografadas

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