Pesquisar este blog

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Morre goiano que recusou transfusão

O metalúrgico Joaquim Raimundo de Lima Neto, 23, faleceu na madrugada de ontem, em São Paulo. Praticante da religião Testemunha de Jeová, ele se recusava a receber transfusão de sangue – única terapia recomendada para tratar leucemia mielóide aguda, doença que descobriu ser portador há menos de um mês. O corpo estava previsto para chegar a 1 hora da manhã de hoje em Catalão, a 253 quilômetros de Goiânia. O sepultamento está previsto para as 10 horas.

Segundo informações do amigo da família Weber Dias, o jovem sofreu uma parada cardiorrespiratória fulminante. Ele foi internado pela primeira vez no Instituto Ortopédico de Goiânia (IOG) no dia 12 de novembro, assim que recebeu o diagnóstico. Lá era para ele ter iniciado as transfusões sanguíneas, considerada pela medicina tradicional como a única alternativa terapêutica para a leucemia mielóide aguda, tida como uma das mais severas. Contudo, por decidir cumprir os preceitos da religião, Joaquim recusou o tratamento. Uma recomendação foi feita pelo promotor de justiça Isaac Benchimol, no último dia 26 de novembro, para que o médico que cuidava de Joaquim realizasse a transfusão em até cinco dias.
Contudo, apoiado pela mãe e outros três tios maternos, o rapaz assinou um termo de compromisso no qual pedia alta. Apesar dos protestos do restante de sua família, ele alegou que iria para São Paulo buscar um tratamento alternativo, sem que houvesse necessidade de transfusão sanguínea. Dois dias depois o rapaz e sua mãe saíram do hospital, mas o restante da família não foi avisado onde o tratamento seria realizado. “Desde então não nos disseram mais nada. Não sabíamos onde ele estava sendo tratado. Isso que fizeram é suicídio”, afirma Marco Aurélio Borges, irmão por parte de pai.
A companhia aérea que levou o paciente em uma UTI móvel informou que a família assinou um documento pedindo que nenhuma informação fosse repassada. A única coisa que os familiares souberam é que Joaquim seria cuidado por médicos ligados à Comissão de Ligação Hospitalar (Colih), que, além serem de Testemunhas de Jeová, realizam tratamentos médicos sem transfusões sanguíneas.


RAPAZ HAVIA INICIADO SESSÕES DE QUIMIOTERAPIA

Weber Dias, que também é Testemunha de Jeová, conta que Joaquim estava sendo submetido a sessões de quimioterapia e que reagia bem. “O número de plaquetas tinha aumentado, mas houve uma intercorrência que nos pegou de surpresa”, lamenta. Ele não soube informar em qual hospital o tratamento vinha sendo realizado e nem quando o corpo chegará a Goiás. Dias esclarece que os adeptos desta religião, que no Brasil reúne cerca de 700 mil praticantes e outros 7 milhões em todo o mundo, recusam o recebimento de sangue por razões morais e também de saúde pública.
“Em primeiro lugar, obedecemos a Bíblia, que pede que nos abstenhamos de sangue, que é algo sagrado. Outro motivo é que a transfusão acarreta uma infinidade de riscos, como contaminação por hepatite C”, justifica. Dias também argumenta que este posicionamento não implica na aceitação da morte do paciente porque há tratamentos alternativos que independem de transfusões sanguíneas. “Nós, Testemunhas de Jeová, amamos a vida. Sempre que preciso procuramos auxílio médico e sabemos que há médicos que não usam sangue para tratamentos”, pontua.
O presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), Salomão Rodrigues, explica que em casos como este, o paciente, desde que tenha mais de 18 anos e esteja lúcido, pode, por escrito, recusar a transfusão sanguínea. Caso a pessoa seja menor de idade ou esteja com sua capacidade de discernimento comprometida (tanto temporária como permanentemente), seus responsáveis legais podem decidir.
Entretanto, o presidente deixa claro que estes requisitos são secundários se o paciente corre risco de morte iminente. Assim, o dever do médico de salvar vidas se sobrepõe à autonomia da pessoa, não sendo relevante se ela ou a família recusa o tratamento. “O médico deve anotar isso no prontuário do paciente e acionar tanto o Cremego quanto o Ministério Público antes de iniciar a transfusão”, acrescenta. 
Jornal Hoje/Notícias Cristãs

Related Posts with Thumbnails