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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Confissões de um ex-apologeta

José Barbosa Junior

A “apologética” tornou-me arrogante. Eu era o “grande conhecedor” das verdades “bíblicas”. Como poderia haver tanta gente ignorante? Será que não percebiam a “verdade” que era tão clara aos meus olhos de “profundo estudioso da Palavra”?

Já faz algum tempo que quero escrever sobre este tema. Principalmente por causa da explosão de blogs e sites “apologéticos” nos últimos anos, a maioria deles de conteúdo, no máximo, razoável.
Fico à vontade para falar do assunto, pois logo após minha conversão, me transformei num “apologeta”. Estudei por mais de 15 anos seitas e heresias, tendo feito palestras sobre várias “seitas” e “heresias” em muitas igrejas nos Estados do Rio e do Pará. Especializei-me em Testemunhas de Jeová, Mórmons e Maçonaria. Também pesquisei bastante o material dos adventistas, considerado por muitos estudiosos uma seita “pseudo-cristã”. Em Belém do Pará cheguei a dirigir uma pequena missão “especializada” em dar palestras e equipar as igrejas com apostilas e material para a “evangelização” desses grupos religiosos.
Além disso, devido a minha experiência como católico praticante e fervoroso, tornei-me logo um defensor da “sã doutrina” evangélica, mostrando os erros da igreja católica em muitas palestras e apostilas. Fiz vários estudos sobre o tema e amizade com ex-padres e pessoas oriundas das mais diversas seitas.
Caminhei por algum tempo com alguns grandes nomes da “apologética” brasileira, em diversos encontros e congressos, e fui durante algum tempo, colaborador de um centro de pesquisas no Rio de Janeiro. Ali tive acesso a muitas obras e poderia me orgulhar de ter lido uma vasta obra de diversos movimentos “heréticos” e ter resposta “bíblica” para quase todos os questionamentos feitos sobre esses grupos.
Não! Não estou cuspindo no prato que comi! A maioria das pessoas com as quais lidei nesse tempo são crentes sinceros e fazem isso por julgarem ser esse o chamado deles. Também aprendi muito nesse tempo. Toda a informação adquirida ao longo desses mais de 15 anos não vai embora assim da noite pro dia. Mas fui percebendo algumas coisas, que me fizeram mudar um pouco o rumo, na caminhada.
Não falo dos outros a partir de agora. Falo de mim. No que me tornei nesse período e, por causa disso, no que percebo na maioria dos “apologetas” de hoje em dia. Posso estar enganado e pode ser que minha observação ainda esteja eivada de muito do que vivi e percebi como erro em mim e por isso, num excesso de zelo devido aos meus fracassos, possa enxergá-los nos outros.
A “apologética” tornou-me arrogante. Eu era o “grande conhecedor” das verdades “bíblicas”. Como poderia haver tanta gente ignorante? Será que não percebiam a “verdade” que era tão clara aos meus olhos de “profundo estudioso da Palavra”? EU era detentor de toda a verdade revelada e aqueles que não andavam segundo o MEU conhecimento, eram perdidos, ou enganados por suas “falsas doutrinas”.
A “defesa da fé” fez com que visse meus próprios irmãos em Cristo como enganados e enganadores quando pensavam diferente de mim e da minha “sã doutrina”. Muitas vezes descri da experiência do outro simplesmente por não “encaixar” com tudo aquilo que eu já tinha como “verdade revelada” ou por não se alinhar ao que eu precisava defender para cada vez mais me firmar no posto de “apologeta”.
A “apologética” me fez ganhar muitas discussões e debates (eu sabia argumentar bem), mas perder pessoas. A defesa da “verdade”, neste caso, vale infinitamente muito mais que qualquer sentimento humano. Não se pode perder. É uma “alma” em jogo… pelo menos era esse o discurso, totalmente alienado da prática.
Como palestrante e estudioso do assunto, eu sempre tinha que ter uma resposta para tudo! Afinal, eu estava ao lado da “verdade”. Era aliado do Deus “absoluto” que precisa ter respostas “absolutas” para todas as “relatividades” das seitas. Aprendi a jogar com textos que eu mesmo sabia não serem tão absolutos. Aprendi a usar os sofismas e principalmente a “excelente” argumentação do “Deus soberano” para destruir quaisquer argumentos contrários. Nesse tempo tive um “namoro” com a teologia calvinista, a melhor coisa que pode acontecer a alguém que precisa ter TODAS as respostas.
Mas as coisas mudam… e algumas pessoas também. Eu mudei… e ainda estou em mudança.
O contato com gente de verdade foi me fazendo cada vez mais ver que não tinha as respostas prontas, e que pessoas valem mais que sistemas de pensamento e argumentação. O simples lidar com a diversidade da vida e da morte, da doença na família fiel, do desastre que leva embora a vida de uma criança, o pastor que é traído por permanecer íntegro, e tantas outras coisas que a vida nos mostra (a quem quiser realmente ver) fizeram meus pressupostos, ou melhor ainda, minhas conveniências ruírem.
Descobri um Deus que age entre católicos, outras religiões e até mesmo entre a igreja “evangélica”. Hoje tenho o privilégio de chamar muitos católicos de irmãos em Cristo. Descobri irmãos adventistas. Descobri irmãos… não mais inimigos!
Deus mudou? Não… mas minha percepção dele sim! Aliás, o que temos de Deus, além de percepções? Fugiu-me toda insensatez de dizer quem Deus é nos mínimos detalhes. Não possuo as ferramentas que dissecaram Deus e o transformaram num ídolo ou num objeto de estudo de laboratório. De Deus só sei hoje a poesia! De Deus em mim, tenho a vida do Filho! E ter a mente de Cristo para mim significa muito mais amar as pessoas que saber todos os mistérios e ciência.
Mas sei em quem tenho crido! E creio num Deus que amou e ama até o fim. Num Deus que se manifesta em Cristo, plenamente! Num Deus que, mais que confissões de fé, se fez verdade em uma pessoa, em absoluta fraqueza e amor! Num Deus que surpreende ao caminhar com “pecadores” e “detonar” religiosos. Num Deus que, ao me ver pecar, pelo Espírito do Filho, que habita em mim, se entristece e me dá a chance de mudar minha mentalidade egoísta e tacanha, fenômeno que chamamos de arrependimento.
Por isso, e tantas outras coisinhas que não caberiam num texto somente, quero compartilhar alguns conselhos com aqueles que se julgam “apologetas” em nosso tempo (que não têm NADA a ver com os apologetas da história do cristianismo, diga-se de passagem… no máximo, polemistas… mas isso dou-lhes o trabalho de pesquisarem). Não compartilho esses conselhos como quem “sabe”, mas como quem “viveu”… é bem diferente. Compartilho para evitarem que caiam nas pequenas armadilhas que caí. Faço isso valendo-me da famosa frase de George Santayana –“Those who do not learn from history are doomed to repeat it” – aqueles que não aprendem da história estão condenados a repeti-la.
Você não é dono da verdade. Por mais certo que você esteja da sua “verdade”, se essa verdade é “conceitual” ela pode estar errada. Saber disso pode tirar de você a tentação da arrogância. Ninguém, por mais honesto que seja, tem o copyright divino em sua doutrina. Considere a possibilidade do “outro” estar certo. Sempre considere a hipótese de que você pode estar errado, ou que sua interpretação não é a “mais fiel”. Convicção é diferente de arrogância.
Ame as pessoas mais que as suas “verdades”. Muitas vezes é melhor perder o “debate” que perder a pessoa. Fomos chamados para amar as pessoas e seremos reconhecidos no último dia não por nossa confissão doutrinária, mas por nossa “confissão de fé” manifesta em atos de amor e misericórdia em direção ao próximo.
Humor, sim. Desrespeito, não. Infelizmente muitos “apologetas” escorregam nesse ponto. Uma coisa é a ironia de um texto, outra o desrespeito. Se o objetivo da verdadeira apologética é o esclarecimento daqueles que andam em erro, o respeito ao seu líder pode ser um bom meio de se ganhar o direito de ser ouvido. Não precisa mentir, elogiando o líder, mas certas brincadeiras e apelidos, repelem o ouvinte. Por exemplo, por mais que eu discorde das práticas (que considero absurdas e mal intencionadas) do Silas Malafaia, ao chamá-lo de “malacraia”, “mala-falha”, etc. dificilmente serei ouvido por aquele a quem dirijo a minha crítica, o ouvinte/telespectador do dito pastor.
Discuta idéias, não pessoas. As pessoas falham. Todos erram. Todos pecam. Não somos chamados a julgar quem quer que seja. Discutimos idéias, teologias e por mais que citemos os nomes quando citamos os ensinos que consideramos estranhos, devemos levar a discussão para a idéia equivocada e não para os erros pessoais da pessoa criticada. Quando levamos a discussão para o lado pessoal, perdemos mais uma vez toda a lógica da fé cristã, baseada no amor e no perdão.
Nunca (mas nunca mesmo!) fale do que você não conhece. Um dos grandes problemas dos “apologetas” atuais é o fato de a maioria falar do que “ouviu falar”. São repetidores de conceitos que eles mesmos desconhecem. A regra é simples: não sabe? Não fale! Não entendeu? Fique quieto! Quer saber? Leia, estude… mas procure as fontes! Não seja um mero “papagaio gospel”, repetidor de idéias que nem entendeu. Isso é desonestidade!
Estude! Se você se considera um “apologeta”, estude! Procure conhecer teologia, filosofia e conhecimentos pertinentes àquilo que procura defender. No mínimo, conheça teologia e filosofia (nem que seja o básico). Caso contrário, a probabilidade de se falar besteira, por mais bem intencionado que seja, é enorme. Muito da teologia é baseado na filosofia (até mesmo a teologia que critica a filosofia é fruto do conhecimento filosófico – que ironia!).
Pese suas motivações. A “apologética” está na moda. Com certeza você ganhará “seguidores” e “amigos” nas redes sociais, e isso pode ser uma grande tentação para que se embarque na “apologética”: você tem todas as chances de se tornar “famoso” (alguém me explica o que é isso nas redes sociais) e ser paparicado por muitos.
Preocupe-se mais com o próximo. Se tudo o que escrevi acima não valer de nada, que pelo menos este último conselho lhe valha. Lembre-se que você está lidando com gente! Gente pode ser enganada, ou ser má mesmo, mas é gente! O outro é “alvo” da mesma GRAÇA que você. É amado por Deus tanto quanto você! Portanto, não o menospreze e nem o detone para sair “vencedor”, quem “vence” assim, na verdade, já perdeu.
Que Deus nos dê graça, sempre!

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